quarta-feira, 28 de julho de 2010

BREGA-POPULARESCO NÃO TRARÁ DESENVOLVIMENTO CULTURAL PARA O PAÍS



É totalmente inútil defender os movimentos sociais e a música brega-popularesca ao mesmo tempo, acreditando que isso trará desenvolvimento social ao nosso país.

A retórica de defesa da música brega-popularesca, no auge com Pedro Alexandre Sanches - que tenta inserir a argumentação tão conhecida na grande mídia para a imprensa esquerdista - , tenta agora usar como pretextos os movimentos sociais, a mídia alternativa, como se todos nós fôssemos tolos e achássemos que os grandes ídolos popularescos, mesmo os emergentes, são "iunjustiçados pela mídia" apenas pelo simples fato deles representarem o mau gosto, pela sua evidente qualidade duvidosa de seu repertório.

Citam rádios comunitárias como espaço de popularescos emergentes, sem perceber que nem todas as rádios comunitárias prestam, pois várias delas, há um bom tempo, são tomadas por políticos e até mesmo representam os interesses das oligarquias dominantes em determinadas regiões.

Citam gravadoras pequenas como espaço de popularescos emergentes, achando que isso já significa estar à margem da indústria fonográfica. Grande engano, se percebermos que tais gravadoras não representam a filosofia de trabalho das gravadoras independentes, pois, enquanto estas se preocupam com a qualidade artística e não têm fins lucrativos, as pequenas gravadoras de música brega se preocupam unicamente com o lucro, são tendenciosas nos seus critérios "artísticos" e pouco se preocupam com a qualidade ou a integridade do ídolo contratado.

O brega-popularesco tentou se tornar o símbolo da Era Lula, se esforçando em dar uma rasteira na MPB autêntica que ameaçava dominar a época: Maria Rita Mariano, Vanessa da Mata, Wilson Simoninha, Cordel do Fogo Encantado, Ana Cañas, Seu Jorge. Uma "frente ampla" de intelectuais foi recrutada pela mídia e pelos empresários do entretenimento para fazer um discurso "socializante" defendendo as tendências popularescas, enquanto a grande mídia arquitetava, eventualmente, duetos ou tributos tendenciosos que fizessem os ídolos popularescos em evidência se autopromoverem de uma forma ou de outra do legado da MPB autêntica, através de covers ou duetos.

A retórica vigente sobretudo desde 2002 - embora haja registros da mesma retórica publicados até mesmo nos anos 90 - evoca desde alegações de "vítimas de preconceitos" como pretexto para inserir os ídolos popularescos em plateias de melhor formação intelectual, até mesmo declarações hipócritas de que os ídolos emergentes estão "fora da mídia".

Mas a valorização da música brega-popularesca não vai contribuir para o desenvolvimento social nem cultural, como não vai fortalecer a auto-estima nem a identidade do povo.

Isso porque a música brega-popularesca e todo o suporte de valores e expressões culturais que está por trás - imprensa policialesca e mulheres-objeto, por exemplo - são processos que promovem uma imagem domesticada e caricata do povo pobre, agindo não a favor, mas CONTRA os movimentos sociais, queiram ou não queiram os caros amigos.

Afinal, existe um grande contraste entre a realidade sócio, política e econômica do povo pobre, vítima da opressão, da omissão das autoridades, das injustiças sociais, e o circo ao mesmo tempo tolo, ingênuo e patético do entretenimento popularesco. No primeiro caso, o povo sofre. No segundo, o povo é feliz.

Outro aspecto que se deve levar em conta é que os valores assimilados e produzidos pela música brega-popularesca não são valores culturais autênticos, mas aqueles ditados pelos meios de comunicação, como rádios FM controladas por grupos oligárquicos e emissoras de TV aberta, também controladas pelas elites regionais.

Só isso faz evitar o agravamento das tensões sociais vividas diariamente pelo povo pobre. O analgésico brega-popularesco promove o conformismo sobretudo entre os jovens da periferia, felizes em caminhar feito gado para os clubes de subúrbio que mostram a música "popular" que eles são induzidos a consumir e que a eles é simbolicamente atribuído.

Em outras palavras, o povo apenas segue o roteiro brega-popularesco estabelecido pela mídia e os intelectuais-ideólogos vendem isso como "a pura e autêntica expressão da cultura popular". Criam um discurso confuso, mas que evoca o sonho, a fantasia de uma periferia feliz, e muita gente cai desprevenida, acreditando e aplaudindo.

Mas, por trás disso, identidades culturais são dizimadas, porque agora a ideia de "identidade cultural" se limitou a uma reles "colcha de retalhos" musical, sobretudo com presença maciça de elementos estrangeiros, usados não para enriquecer uma linguagem local, mas para enfraquecê-la. Não por acaso, o forró-brega, tão associado a uma pretensa ideia de "regionalidade", vive, quase que exclusivamente, de versões de sucessos radiofônicos da música estrangeira.

A "identidade cultural", através dos fenômenos brega-popularescos, se reduziu a uma mera "tradução local" do estrangeiro, uma sub-criatividade que pouco tem de expressiva ou relevante. Artisticamente, é uma cultura débil. Não produz conhecimento, não produz valores sociais, só estabelece padrões de consumo, sem acrescentar coisa alguma para a sociedade.

Por isso, o brega-popularesco não trará desenvolvimento social nem cultural para o Brasil. Pelo contrário, enfraquecerá cada vez mais o povo, com essa "cultura popular" de mercado, que até o reino mineral sabe que é comandado pelas elites e pela grande mídia.

Só o fato das tendências brega-popularescas existirem desde há uns 50 anos, não quer dizer que a atual cultura popular tenha agora que se vincular à cafonice dominante. Essa visão, ao mesmo tempo conformista e cruel, apesar do discurso lindo que os intelectuais apologistas fazem, em nada contribui para enobrecer e valorizar o povo pobre.

Essa visão apologética do brega-popularesco só serve para encher linguiça e convencer os amiguinhos dos intelectuais a se conformarem com a hegemonia da mediocridade cultural do povo pobre. A cafonice dominante mantém o povo no sub-desenvolvimento, na miséria disfarçada por paliativos.

A "cultura" hoje atribuída ao povo pobre é ruim, mas tudo o que se faz é apenas tentar nos convencer a fingir que essa ruindade é "coisa boa". Sabemos que não é. Mas temos que seguir o etnocentrismo bondoso desses ideólogos, enquanto todo o legado cultural autêntico do povo pobre - quando a pobreza não impedia a produção de cultura e arte de excelente qualidade - é deixado para trás, como peça de museu. Até que nosso protesto organizado contra a pasmaceira discursiva reinante se torne mais expressivo.

Nenhum comentário: