sábado, 3 de julho de 2010

BREGA-POPULARESCO FAZ DISCURSO NEOLIBERAL


SEM SE DAR CONTA, O CRÍTICO PEDRO ALEXANDRE SANCHES SEGUE AS LIÇÕES DOS PAPAS DO NEOLIBERALISMO, JOHN MAYNARD KEYNES E MILTON FRIEDMAN.


Ninguém percebeu. Sobretudo a imprensa de esquerda. Mas a defesa que os intelectuais fazem da música brega-popularesca, embora se baseie numa hipotética solidariedade com a luta do povo pobre, adota princípios que, no plano político-econômico, equivalem ao ideal do neoliberalismo.

A Música de Cabresto Brasileira, que é a suposta "cultura popular" tocadas nas rádios, boates, TV aberta e camelôs do Brasil inteiro, ela em si é a aplicação de lições neoliberais que as elites conservadoras pensaram para a cultura popular, como forma de controlar o povo pobre através do entretenimento.

Tanto isso é verdade que hoje são os donos das rádios locais e da TV aberta que transmitem os supostos valores sócio-culturais, não mais as gerações mais velhas das famílias pobres. É só comparar a música de Waldick Soriano com o projeto econômico dos ministros Otávio Bulhões e Roberto Campos no governo Castello Branco (1964-1967) que se verá uma analogia assustadora entre ambos.

A música brega-popularesca é apátrida, sem identidade real, sem moral, sem ética, sem estética. Obriga o povo a viver sempre da baixa qualidade artístico-cultural, enquanto somos obrigados a fingir que isso é bom, que é "o que o povo sabe fazer". Enquanto olhamos para a cultura pobre do passado e víamos grandes artistas, cuja produção era de imenso valor artístico-cultural. E, mesmo na escravidão, os negros faziam uma produção artística de arrepiar. Nada de bobagens tipo "rebolation".

A imprensa de esquerda abre as portas para Pedro Alexandre Sanches - ex-crítico musical da Folha de São Paulo - sem se dar conta da armadilha que traz para suas redações. O discurso que Pedro, o mesmo de Hermano Vianna, Bia Abramo, Milton Moura, Rodrigo Faour e que até mesmo Nelson Motta, hoje sócio do temível Instituto Millenium, defende no igualmente temível Jornal da Globo, é o mesmo discurso neoliberal aplicado à música brasileira. As mesmas perspectivas, os mesmos conceitos, as mesmas alegações.

Por isso fico alertando para os adeptos de Caros Amigos, revista Fórum, Carta Capital e Brasil de Fato, ou de qualquer outro veículo similar, que prestem muita atenção a esse problema, em vez de ficarem indiferentes a ele. Sau indiferença pode custar caro amanhã.

A analogia da defesa do brega-popularesco feita por gente como Pedro Alexandre Sanches com o discurso neoliberal é de uma semelhança de sentido assustadora. Faço aqui uma citação de ideias-síntese normalmente apresentadas por esse discurso de defesa:

"A música (brega-popularesca) aposta num princípio de que não temos mais fronteiras claras entre o regional e o internacional, entre o global e o local. A periferia mantém contato permanente com o mundo, e por isso estabelece um diálogo entre o regional e o mundial, sem escalas".

As belas palavras, no entanto, expressam um ideal neoliberal de que "não existem mais fronteiras". No discurso político-econômico, essa ideia equivale exatamente à de que "as democracias agora superaram seus paradigmas de nacionalismo, tornando-se democracias mundializadas, interligadas com a política e economia global, associadas ao conceito internacional de modernidade e progresso".

"Convivência pacífica dos gêneros musicais" (lema da coluna Paçoca, de Pedro Alexandre Sanches, na revista Caros Amigos)

Desde o golpe de 1964 a direita civil-militar, político-econômica, faz um discurso parecido, promovendo a "paz social de nosso Brasil". É uma ideia associada a um conceito conservador de "paz", que é deixar tudo como está.

A paz não como um conceito elevado de equilíbrio social, mas de manutenção de forças de status e dominação prevalecentes. O que é pior, Pedro Sanches acaba, com essa frase, rejeitando a ideia das lutas das classes populares em prol da cultura popular, defendendo, por outro lado, a "cultura popular" que o coronelismo midiático impõe há decadas para nosso povo consumir e produzir.

"Os ídolos da música popular (brega-popularesca) sofrem de preconceito da crítica especializada, horrorizada pelo sucesso que tais ídolos fazem e pelos espaços que eles conquistam na sociedade urbana moderna".

No plano político-econômico, esse discurso equivale exatamente a isso: "Os conceitos de democracia ocidental sofrem a rejeição furiosa de grupos revoltosos, horrorizados pela ideia de progresso que a livre iniciativa exerce, conquistando novos mercados no mundo inteiro, superando fronteiras transnacionais".

"A periferia cria sua cultura a partir de referenciais que absorvem da cultura pop das rádios. Temos nossas Beyoncés e Lady Gagas, com sotaque paraense e gaúcho, fruto de nossa melting pop tropical, que remete aos velhos tempos de Waldick Soriano com chapéu de caubói, terno de detetive e cantando boleros com um leve acento country, mas com o sotaque regional de Caetité, interior da Bahia".

John Kenneth Galbraith, certa vez, afirmou que a "cultura do contentamento", ideologia promovida pelo neoliberalismo ortodoxo dos EUA, sempre empenhou em desenvolver no povo pobre a ilusão de sua autosuficiência, como meio para evitar as tensões sociais das classes populares.

Esse discurso, aplicado ao âmbito político-econômico, é o mesmo que dizer que o povo estabelece sua identidade "regional" ou "nacional" através de um ideal de consumo e prosperidade determinados por uma economia comandada pelos investidores do Fundo Monetário Internacional e pelo G-7. Curto e grosso: desenvolvimento sócio-econômico subordinado ao capital estrangeiro.

"São superados hoje os paradigmas de cultura popular que puristas e saudosistas tanto reclamam para nossa música. Hoje cada vez menos existem sambas puros, baiões puros, nossa música caipira está encharcada do melhor (sic) country, dos melhores boleros, hoje o samba é mais black, o sertanejo é mais caubói, os tempos da velha música nacionalista e pura acabaram, a música popular atual é mais pop, mais moderna, universal e plural".

Se isso for transferido para o âmbito político-econômico, é como dizer que as lutas sócio-políticas de outrora estão superadas. Ou seja, levando em conta que o discurso neoliberal se apoia sobretudo na superação institucional do Leste Europeu e nas políticas nacionalistas, essa retórica se fundamenta na ideia de que a democracia capitalista, atingindo seu grau de perfeição, invalidaria os movimentos nacionalistas e esquerdistas das classes populares, porque supostamente as instituições sociais podem representar fielmente os interesses populares, bastando integrar-se à legalidade prevista pela política capitalista.

Em outras palavras, tornaram-se inválidas as lutas e expressões comunistas, socialistas e nacionalistas, porque a democracia capitalista e o circo da globalização, segundo seus defensores, são suficientes para o atendimento aos interesses das classes populares.

"Esqueçam a estética, esqueçam o antigo moralismo ético. A música popular (brega-popularesca) desenvolve novos valores sociais, apavorando os puristas como os antigos ritmos populares apavoraram a aristocracia brasileira da virada do século XIX para o XX".

Se existe um equivalente político-econômico a este discurso, ele seria esse: "Esqueçam as lutas sociais, a democracia moderna estabelece novos valores, criando rupturas que revoltam tão somente as velhas classes ainda presas a ideais nacionalistas e marxistas já superadas no século XX e que tanto causaram conflitos sangrentos através de agitadores políticos e subversivos em geral".

"Liberdade total para a música, todos os ritmos, todos os estilos, tudo junto e misturado".

Sopa no mel. É isso que entidades "sem fins lucrativos" como o Instituto Millenium também pregam, no âmbito político-econômico-midiático. É a "liberdade da democracia" dentro dos princípios de livre-iniciativa do capitalismo, que servem de pretexto para a concentração de poder das empresas mais ricas. "Liberdade total" que permite a impunidade dos ricos, o privilégio decisório dos detentores do poder, a assepsia de valores sociais, morais e culturais para garantir a expansão do grande capital, a derrubada de fronteiras sócio-políticas como forma de estabelecerem impérios multinacionais, agora conhecidos como "transnacionais". "Tudo junto e misturado", na via política e econômica, são as empresas multinacionais derrubando empresas nacionais através da compra delas (que se tornam subsidiárias de grupos estrangeiros) e são os políticos conservadores que triunfam na corrupção.

A base do discurso de defesa do brega-popularesco, resumindo, é essa:

- Ruptura com tradições culturais de identidade nacional e de expressão cultural por valores estéticos, éticos e sociais. O mesmo que a ruptura com identidades nacionais e valores éticos e sociais da política e economia neoliberais.

Não seria bom Pedro Alexandre Sanches fazer uma visitinha aos seus amigos no Instituto Millenium?

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