terça-feira, 20 de julho de 2010

AUTORA ASSOCIA CULTURA BREGA À CULTURA DE MASSA



escrevemos sobre o livro Do Brega ao Emergente, de Carmen Lúcia José.

Comprei o livro porque sua abordagem sobre a cultura brega é bastante diferenciada, sem aquela choradeira apologética do tipo "vamos perder o preconceito, o Brasil todo é brega".

Embora o prefácio, feito por Waldenyr Caldas, cite o brega como "um assunto positivo", o livro de Carmen Lúcia José nada tem a ver com a abordagem apologética e até panfletária e propagandista do livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo.

Nas primeiras páginas, dá para perceber que a abordagem objetiva de Carmen, para desespero da atual tendência apologética, define a cultura brega não como uma autêntica cultura popular, mas como uma cultura de massa que usa valores ultrapassados a partir de referenciais dominantes nas elites.

Alguns trechos merecem ser citados. Vamos por dois, neste tópico. Um deles certamente causaria mal estar até no Pedro Alexandre Sanches, o "Hermano Vianna" da vez:

Enquanto a midcult toma emprestado os procedimentos da cultura superior, facilitando-os (nota deste blog: Exemplos na música são Maria Gadu e Jorge Vercilo), o brega toma emprestado procedimentos da cultura popular, estandartizanto-s e expondo-os a partir de um modelo que organiza os dados num padrão médio de informação. Para a composição da mercadoria brega, os elementos são buscados na cultura popular, trazidos ao ponto médio de informação e, aí, arranjados no interior da estrutura modelar da elite.

Em outras palavras, a mercadoria brega utiliza elementos associados à cultura popular, transformados em clichês e estereótipos - o tal "ponto médio de informação" difundido pela grande mídia - e depois são retrabalhados pelo esquema de produção midiática das elites (os empresários de entretenimento, sobretudo).

Outro trecho fala da suposta sofisticação da música brega - que eu defino como neo-brega e se observa em nomes como Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Belo, Chitãozinho & Xororó, Daniel, Ivete Sangalo e até Banda Calypso - , algo que já se observava a partir de Michael Sullivan & Paulo Massadas, nos anos 80.

(...) o brega poderia ser visto como o filho sequestrado da cultura popular e adotado para ser "refinado" pela cultura de massa. Sequestrado, porque originalmente os elementos selecionados não apresentavam valor positivo para os segmentos sociais que produziam expressões artísticas para seu próprio uso. Adotado, porque esses elementos são organizados a partir da forma de sucesso da cultura industrializada. E, finalmente, refinado, porque esses elementos tomam um banho de loja para sae parecerem com o modelo estético da elite ou para serem apresentados ocmo tendência, como quer a moda.

Neste trecho, podemos interpretar que o brega resulta na exploração parcial de elementos regionais da cultura pobre, trabalhados de forma debilitada. Os valores não positivos correspondem justamente aos valores impostos pela miséria em que os pobres vivem, pela falta de referenciais de identidade social e moral.

A indústria cultural retrabalha esses valores, criando o brega, que, quando refinado, é reformulado no visual, na tecnologia e na técnica, tentando parecer "sofisticado", conforme os valores da elite (no caso, a MPB pasteurizada), vide o caso de Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó, por exemplo, ou transformando-o em tendências da moda, como no caso da Banda Calypso e de Gaby Amarantos a tal Beyoncé do Pará.

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