sexta-feira, 25 de junho de 2010

SEPARAÇÃO?! DA VIDA REAL



Karin é uma linda jornalista, mulher brilhante, inteligente, ao mesmo tempo sexy e graciosa, que viajou pela Europa e leu longos livros inteiros de Umberto Eco, e é muito brilhante nas suas conversas. Seu hábito de leitura é tal que Paulo Coelho para ela parece bula de remédio de tão chato de se ler.

Já Agnaldo, coitado, é um empresário careta e sisudo que preside uma companhia ligada ao setor financeiro, e que, workaholic, já deixou de ler livros há muito tempo. Por pura falta de tempo. E de paciência, para não dizer falta de atenção.

Certa vez, ele confundiu Jean Baudrillard com Pierre Bourdieu quando foi procurar um livro do primeiro que sua esposa estava lendo. E, quando recebeu um convite para assistir a uma encenação da peça Vestido de Noiva, ele agradeceu dizendo que admira muito o teatrólogo Plínio Marcos, sem saber que a obra, na verdade, foi escrita por Nelson Rodrigues.

Até na elegância Karin e Agnaldo se divergem muito. Ambos querem ser elegantes. Mas a elegância de Karin é colorida, alegre, jovial, dá gosto de se ver. Já a de Agnaldo é de uma tristeza só. Em três semanas seguidas, ele chega a usar um terno preto para tudo, só mudando a gravata.

Numa certa vez, Agnaldo quase foi para a praia de terno e gravata, imaginando que iria se encontrar com um outro casal amigo. Foi preciso Karin se assustar, com o marido já enrolando a gravata, e logo dizer para Agnaldo que o casal iria para a praia, e não para um workshop de negócios. Agnaldo quase morreu enforcado com sua própria gravata com a reprimenda de Karin.

Pobre Agnaldo. Quer dizer, rico Agnaldo. Seu trabalho são apenas negócios, negócios e negócios. O máximo de diversão que ele tem são os bailes de gala numa boate chique de São Paulo. Que ele vai como se fosse a uma festa na vizinhança. E o casal mora no Rio de Janeiro. Isso quando ele não viaja para o exterior com o objetivo de...fazer negócios.

Até para ser informal Agnaldo é extremamente formal. Coitado. Quer acompanhar o charme de sua linda esposa, que se aborrece com o pedantismo do marido. Certa vez, ele disse que a pintura Guernica era uma grande obra da pintura futurista de Salvador Dali. Pobre Pablo Picasso, autor do famoso quadro, e Filippo Marinetti, criador do futurismo, tão famosos mas sem o reconhecimento do superimportante Agnaldo.

Certo dia, aliás, um certo e adorável dia de sol, Agnaldo vai sair para acampar com Karin e os filhos. Ah, sim, o casal tem dois filhos, um casal. Nós não diremos o nome dos filhos porque tanto faz ser João e Maria, José e Ana, Luís e Luíza, Ceci e Peri, que sempre dá no mesmo. Chamaremos os filhos de Fulano e Fulana, para efeito da história:

- Agnaldo, para que tanto cartão de crédito? A gente só vai acampar!!

- Karin, você sabe que sou muito precavido. Vou levar os cartões de crédito, sim. Imagine se a gente tiver que gastar alguma coisa. Temos que nos prevenir.

É bom deixar claro que Agnaldo fala sempre com aquela voz enjoada de palestrante de um seminário de negócios. É sempre assim, até em conversas de bar.

Já Karin fala com a voz de veludo de uma jornalista cujo tom de graciosidade e doçura aumenta quando ela não está trabalhando. Uma voz belíssima, charmosa, alegre, radiante.

- Puxa, Agnaldo, e você vai levar toda essa penca de chaves? Tem até a chave do armarinho do banheiro de trás, você vai levar tudo isso? Bastam só as chaves de casa e do carro!

- Mas, Karin, eu boto as chaves tudo junto, para não perder!! Sou um homem precavido, eu já falei. - disse Agnaldo, com sua voz de palestrante de seminário de negócios.

Quando chegaram ao bosque, para o acampamento, com Agnaldo vestido de camisa de botão, bermuda jeans cheia de bolsos e mocassim, porque sente horror de se vestir de forma normalmente informal, ele foi brincar com o filho Fulano, de carrinho.

- Papai, por que você só brinca comigo e não é capaz de brincar sozinho? Você gosta de brincar ou só faz isso porque é meu pai?

- Filho. - diz Agnaldo, constrangido, com aquele tom de palestrante de seminário de negócios, só que um pouco mais paternal. - Papai fica muito ocupado para essas coisas.

- Não, pai!! - grita o filho, Fulano, aborrecido. - Você não gosta de brincar!! Você só brinca comigo porque é obrigado!! Fulana, papai não gosta de brincar com a gente!!

- É mesmo, Fulano? Bem que eu percebi que ele não queria brincar de boneca comigo. Fica na mesa rabiscando umas coisas e mexendo com o laptop.

- Filhos. - disse Karin para as crianças. - Papai tem o seu trabalho na empresa. Ele vive mesmo muito ocupado.

- Nada disso, manhê! - grita Fulano. - Papai faz negócio até nos almoços sociais de domingo. Eu sei que ele só fica falando de economia e política, quase não tem outro assunto!

Com esse quadro conjugal entediante, há sempre motivo para haver separação. Mas Karin e Agnaldo não se separam. Estão sempre, sempre dependentes de uma vida confortável a dois, que garantem contatos amistosos influentes e uma boa reputação na alta sociedade brasileira.

Mas, na hora do aperto, sempre fazem compromissos em separado, Karin como jornalista, Agnaldo como empresário. Pouco aparecem juntos. E quando Karin foi perguntada, numa entrevista, qual é o homem mais bonito de sua vida, respondeu o ator George Clooney, e quando a pergunta era com quem ela levaria para uma ilha deserta, ela respondeu vagamente "com minha família", palavra que poderia excluir o marido, nas piores situações.

Mas o casal continua sempre junto. Às vezes Karin aparece sem anel de casada. Mas no dia seguinte repõe seu anel e reafirma seu "amor" pelo marido.

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