terça-feira, 22 de junho de 2010

PARA ESPECIALISTA, "ZORRA TOTAL" TRATA MULHER COMO OBJETO



O jornalista Irineu Ramos Ribeiro escreveu um livro chamado A TV no Armário, cujo tema central é a homofobia manifesta em programas televisivos. Mas, num capítulo em que ele analisa um quadro do humorístico da Rede Globo, Zorra Total, que mostra o porteiro Severino, ele vai além e analisa também o julgamento machista que inferioriza a mulher.

O quadro é caraterizado por uma sinopse básica. O porteiro Severino (Paulo Silvino) é convidado por um cineasta para fazer uma ponta num filme. Severino logo recusa o papel, alegando algum tipo de ridículo, até que aparecem moças atraentes, de generosas formas físicas, e Severino muda de ideia, aceitando o papel. Na gravação, Severino não entende o roteiro e leva bronca do diretor que, quando reclama ou explica a cena, faz gestos que Severino entende como de homossexual estereotipado.

Irineu amplia sua análise, questionando não apenas a homofobia, mas os valores de uma sociedade homocentrada, ainda presos a um padrão machista, e estuda o tratamento da mulher como objeto no referido quadro humorístico.

Que, aliás, segue aquela "tradição" do humorismo pornográfico-depreciativo lançado a partir da Era Geisel para distrair os homens (vistos pela ditadura como revoltosos em potencial), sempre reduzindo a figura da mulher a a uma coisa desejada pelo homem.

A posição da mulher, oposta à do homem, chega ao ponto da humilhação, quando ela não corresponde ao padrão de "gostosa".

Citando a atriz Cláudia Rodrigues, baixinha e de beleza considerada mediana - mas eu, pessoalmente, namoraria ela com muito prazer - , Irineu comenta:

"Severino, num primeiro momento, recusa-se a participar do quadro e reforça a sua posição de porteiro, exibindo seu crachá. Ele pega então o cartão de identificação do diretor e diz que está com a foto da Cláudia Rodrigues, outra atriz Global. Mais uma vez, usa a figura feminina para contrapô-la à posição masculina numa expressão desclassificatória".

Numa sociedade machista em que o homem-líder e a mulher-boazuda desempenham papéis separados num mesmo contexto, vide Roberto Justus e Priscila Pires, por exemplo, é lamentável que o humorismo insista em tamanha depreciação da sociedade, quando poderia investir em piadas que sejam realmente engraçadas.

Há exceções, no Zorra Total (existem bons humoristas e até o mestre Chico Anysio está lá), mas estas poderiam ser a regra.

2 comentários:

Bruno Melo disse...

Qual a diferença entre as pornochanchadas e as comédias carnavalescas da Atlântida? Se você não sabe, esses filmes eram independentes, não financiados pela Embrafilme.

E que eu saiba, você já elogiou o humor do Furo MTV, que é muito mais preconceituoso que o Zorra Total.

Coloque essa inteligência para funcionar. E não fuja da raia!

A. F. disse...

Bruno, qual a diferença entre um suco de maracujá manufaturado e um maracujá colhido na árvore? Qual a diferença entre um bosque e um escritório? Qual a diferença entre a "realidade" descrita na televisão e aquela vista nas ruas?

Não sou só eu que tenho que parar para pensar.