domingo, 6 de junho de 2010

OUÇAM A VOZ DA EXPERIÊNCIA



Millôr Fernandes sente desconfiança com pessoas que se dizem "sem preconceitos". Para ele, estas pessoas são as mais preconceituosas.

Millôr não é qualquer pessoa, é um dos maiores humoristas do país, em atividade desde adolescente e um histórico que inclui peças de teatro, uma coluna na revista O Cruzeiro (O Pif Paf), uma revista humorística (também O Pif Paf, com breves oito edições, trajetória encerrada pela óbvia intervenção das Forças Armadas, em 1964), atuação na equipe de outra revista humorística (Pasquim) e uma coluna em Veja, como um oásis lúcido dentro de uma revista alucinadamente reacionária. E ainda conviveu com gente hoje desaparecida como os cartunistas Péricles Maranhão e Henfil e o jornalista Sérgio Porto, entre muitos outros.

Ah, e Millôr ainda fez uma tradução da letra de "Feedback Song For a Dying Friend" para o grupo de rock Legião Urbana (atenção, dr. Almir Ghiaroni!), um verdadeiro tributo à poética de Renato Russo (que escreveu a letra original em inglês) e a música faz parte do hoje misteriosamente desaparecido disco As Quatro Estações.

Pois bem, com esse micro histórico de um sujeito com mais de 70 anos de carreira, justifico aqui a credibilidade de um sujeito que fala uma coisa tão desagradável sobretudo para quem se envolve com a causa brega-popularesca.

São intelectuais etnocêntricos que para cortejar o grotesco de bregas e neo-bregas abusam da palavra "preconceito" como suposto infortúnio dos mesmos (inclui até mesmo os "sofisticados" medalhões do breganejo, sambrega e axé-music que aparecem em tudo quanto é programa da Globo).

São musas popularescas - que tanto se dizem "sem preconceitos" na hora de escolher homens - que justificam o celibato pela procura de "caras legais" e se dizem "vítimas de preconceito" quando são rejeitadas por nerds, beatniks, existencialistas e outros homens excêntricos ou diferenciados.

São músicos cafonas que lotam plateias com muita facilidade, vendem discos feito água, colocam programas de rádios FM e da TV aberta no topo do Ibope e, quando tentam entrar nos circuitos pequenos de universidades do Sudeste ou eventos sérios de MPB, e são rejeitados, acusam aqueles que os rejeitaram de "preconceito".

Ficou banal falar de "preconceito" para lá e para cá, e os programas de variedades da TV aberta falam de tal forma em "ruptura de preconceito", de um jeito tolo e piegas que em nada lembra o antigo emprego da palavra para episódios mais sérios como o racismo na África do Sul ou a homofobia das autoridades nos anos 60.

Falar de "preconceito" virou uma grande malandragem que certamente constrange o bom e velho Millôr. Qualquer medíocre que quer tirar vantagem e não consegue vai logo dizendo que é "vítima de preconceito".

É como se um almofadinha que nunca foi convidado para uma festa e, querendo bancar o penetra, vai logo dizendo que é "um injustiçado", "vítima de preconceito".

Essa ideia de "preconceito" no sentido negativo anda causando muitos exageros e equívocos. Preconceito é, na verdade, ideia concebida sem alguma verificação, daí a pré-concepção.

Mas quem garante que a ideia de preconceito se restringe à rejeição? Não seriam as apologias de Hermano Vianna, Milton Moura e tantos outros uma forma de preconceito? Não seria a música brega-popularesca uma forma de preconceito, uma visão preconceituosa do povo pobre? Não seria a imprensa reacionária uma produtora de preconceitos, não somente através de editoriais raivosos contra os movimentos sociais, mas também pelo showrnalismo domesticado que superestima banalidades?

Por isso, a palavra "preconceito" é a verdadeira vítima de preconceitos. Ela, em si, é que é pré-concebida. E muitos que se dizem "sem preconceitos" é que são preconceituosos. Falta-lhes autocrítica ou mesmo uma compreensão de mundo mais adequada para eles saberem melhor se realmente "não têm preconceitos".

Em vez de nos preocuparmos com tantas ninharias, de usar a palavra "preconceito" para validar tantas idiotices, busquemos a justiça social, resolvamos as injustiças, tenhamos senso crítico para os fatos do mundo e autocrítica para nossos atos no mundo. O verdadeiro preconceito é rompido não pela simples aceitação das coisas, mas pela compreensão melhor e nem sempre confortável das coisas existentes no mundo.

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