quinta-feira, 17 de junho de 2010

O ENTRETENIMENTO É A NOVA POLÍTICA DOS BARÕES DA MÍDIA


O GRITO DE DOR DE ELDORADO DOS CARAJÁS É ABAFADO PELA MEDIOCRIDADE DO TECNOBREGA, NO PARÁ

Vamos pensar como estrategistas. Quando derrubamos um grande navio pirata e alguns piratas correm para esconder no nosso navio, o que nós imaginamos?

Se for como a crítica da mídia tradicionalmente imagina, certamente comemoramos a derrubada do navio, acreditando que todos os piratas ali ocupantes foram diizimados. E, ingenuamente, creditamos os piratas remanescentes que invadem nosso navio como pessoas que necessariamente são nossas aliadas.

Grande engano. De fato a direitona que está no Instituto Millenium assusta e ameaça, mas a direita que falta as aulas deste órgão mas que segue suas lições é que é a mais perigosa. A direita que não aparece, que não grita contra nós, pode ser o ovo da serpente.

Durante anos acreditamos que a Isto É, Bandeirantes e até Folha de São Paulo, por representarem antíteses da Veja, Rede Globo e Estadão, estavam no nosso lado. Era a chamada "mídia boazinha". Nessa época, quem alertava contra essa mídia "boa", parecia falar para o deserto. Durante muito tempo a intelectualidade endeusava a Folha, comprava e exibia sua edição diária com muito orgulho, quem era assinante do UOL tinha a impressão de ter comprado uma passagem para o paraíso celestial. A Folha, como antítese de O Globo, no âmbito nacional, carregou anos com a imagem totêmica da "imprensa corajosa" e "perfeita".

De repente, nos últimos anos, Folha tirou sua máscara "progressista" e tornou-se o "anjo caído" da mídia "boazinha". Pior: suposta antítese de O Globo, a Folha participa, através de seus articulistas, do banquete dos barões da mídia do "café Millenium" do famigerado "instituto". E começou a praticar com mais frequência os mesmos pecados das empresas dos Marinho. E não é só isso: Folha deixou vasar seu passado trevoso, de colaboradora da ditadura militar até com mais intensidade que a Rede Globo, porque ajudou o trabalho do DOI-CODI, órgão de prisão, tortura e morte no regime militar.

E agora? Refeitos do choque de ver a "boazinha" Folha passar a ser uma das grandes megeras da mídia, os críticos de esquerda ainda mantém uma mágoa com a Isto É se tornando mais reacionária e a Bandeirantes, amiga dos latifundiários, trocando o jornalismo reflexivo pelo fait divers.

Mas a ingenuidade não pára por aí. Ninguém imagina que a nova política dos barões da grande mídia é o entretenimento. Imprensa policialesca, programas sensacionalistas, música brega-popularesca. Ninguém desconfia, mas este "saudável entretenimento" é a estratégia máxima de manobra dos barões da grande mídia e do empresariado mais dominador.

Alguém acha que o grande público conhece o Diogo Mainardi, o famoso pit-bull de Veja? A periferia já ouviu falar de Carlos Alberto Sardenberg? Ou alguém tem a ingenuidade de acreditar que as pregações desse pessoal, como de Arnaldo Jabor, Gilberto Dimenstein, Miriam Leitão, José Neumanne Pinto, Eurípedes Alcântara, William Waack e outros é que combatem com eficácia os movimentos sociais? Que basta Diogo Mainardi despejar suas pregações em Veja - que o povo pobre mal consegue folhear nas barbearias e salões de beleza da periferia - ou Arnaldo Jabor despejar seu mau humor em rede nacional para as classes populares serem intimidadas com êxito pelo baronato da grande mídia?

Enquanto os críticos de esquerda pensam assim, Pedro Alexandre Sanches, feito um pirata que se salvou do barco em naufrágio, silenciosamente vai difundindo as lições da Folha de São Paulo na imprensa de esquerda, exaltando os mesmos nomes da música brasileira que os barões da grande mídia patrocinam. E ninguém estranha.

De repente, Pedro Sanches faz muito mais para o Instituto Millenium do que seus próprios membros, porque a direita mais explícita fala para as paredes, não tem sequer o senso de humor de se comunicar com a periferia. Se até o humorista Marcelo Madureira parecia ranzinza e mal-humorado nas reuniões do Millenium... E o Casseta & Planeta dando espaço para os mesmos ídolos popularescos que fazem os olhos de Pedro Alexandre Sanches brilharem.

O entretenimento é a nova política dos barões da grande mídia. O povo pobre, manipulado de todas as formas pelo poder dominante, oprimido pela fome, pelo analfabetismo, é também obrigado a se tornar "analfabeto político". O que o povo da periferia sabe das questões acerca da direita e da esquerda? O que o povo acha dos barões da grande mídia? "Ainda se concede título de barão nesse país? Ué, a monarquia não acabou?", perguntaria algum pobre um pouquinho mais avisado.

Por isso as discussões a respeito das tramóias da mídia de direita ainda se limitam a um debate de cúpula. E que se limita puramente ao jogo político propriamente dito. Mas ninguém desconfia a respeito do contraste que se faz do Pará político, com suas explosivas e trágicas tensões sociais, com o Pará do entretenimento, que mais parece o Paraíso de Adão e Eva convertido apenas em entulhos, barracos e ruas esburacadas.

Ou seja, enquanto Dorothy Stang e os agricultores de Eldorado dos Carajás morrem sob tiros, seus gritos de dor, hoje gritados não por seus corpos silenciosos, mas pelos entes que clamam por justiça, são abafados não pelo mau humor distante dos comentaristas da mídia em São Paulo. Seus gritos de dor são abafados pela barulheira cafona do tecnobrega, que a mídia de esquerda permite exaltar, sem perceber que naquele ovo lindo e redondo poderá sair uma serpente perigosa.

Quando a crise do Petróleo, no Oriente Médio, estourou, em 1973, pondo em xeque o projeto ufanista do "milagre brasileiro" da ditadura militar, os barões da mídia tiveram que se mexer antes que as tensões sociais de 1963-1964, combatidas pelo Golpe de 1964, e de 1966-1968, combatidas pelo AI-5, voltassem à tona no Brasil.

A ditadura, desacreditada com o fracasso do seu projeto econômico, enquanto a ação intensiva dos órgãos de tortura começava a criar outro fantasma, talvez outro Frankestein, da insubordinação militar dos sargentos e soldados torturadores, teve que investir na tal "abertura lenta, gradual e segura".

Mas, culturalmente, a brecha ditatorial estabeleceu um preço: promover o isolamento da verdadeira cultura popular, referência do espírito do povo brasileiro, e substitui-la aos poucos por uma "cultura" brega-popularesca que se tornaria predominante nas décadas seguintes, viciando os hábitos do povo pobre, problema que a mídia de esquerda ainda se encontra míope em compreender.

Aí, antes que a UNE, então clandestina, exploda toda sua fúria contra a tirania fracassada do governo Médici, antes que o campesinato explodisse na sua histórica revolta em favor dos mortos pelo poder do latifúndio, antes que greves se multiplicassem pelo país (o que não impediu a ascensão de um líder sindical que hoje está a encerrar seu mandato presidencial), o baronato da mídia logo fez crescer a onda brega-popularesca já testada durante o "milagre brasileiro".

E dá lhe Gretchen, Magal, Genghis Khan, Fernando Mendes, José Augusto, Wando etc, enquanto Ernesto Geisel, apavorado com o renascimento dos movimentos sindicais e estudantis, fechou o Congresso Nacional e editou o chamado "pacote de abril", em 13 de abril de 1977, que instituiu o senador "biônico" (nomeado sem a intervenção do voto popular).

A ideologia brega-popularesca significou a lavagem cerebral dos barões da grande mídia, sobretudo durante governos de cunho conservador. Falsos sambistas e falsos violeiros melosos, axézeiros arrogantes e megalomaníacos, falsos forrozeiros esquizofrênicos e superproduzidos, sem falar do grotesco mais explícito impondo a ditadura do mau gosto para um povo sedento por melhorias de vida.

É essa manobra, pela Música de Cabresto Brasileira, que controla e manipula o povo pobre, que imobiliza as classes populares diante do circo vulgar, seja grotesco ou meloso, do entretenimento.

Essa é a nova política dos barões da mídia, dos grãos-senhores do poder econômico, que através da música brega-popularesca e também da imprensa policialesca, do circo das boazudas, da mídia fofoqueira etc, para controlar as classes populares e afastá-las do debate público.

Desta forma, o povo pobre, o mais interessado pelas questões do país, fica de fora do debate que deveria ser público. Continua apanhando dos "coronéis", dos capitalistas, dos barões da grande mídia, e, dançando o "rebolation", o tecnobrega, o fricote e o "pancadão", ou se comovendo diante dos melosos cantores e grupos de "sertanejo" e "pagode mauricinho", mantém tranquilo o sono dos poderosos diante dessa "cultura popular" que não traz conhecimento, não cria valores sócio-culturais, não contribui em coisa alguma para o fortalecimento da identidade, da auto-estima e do espírito de nosso povo.

Isso os críticos da grande mídia se esquecem, e correm o risco de beberem felizes o veneno cultural que os barões da mídia dão para a mídia esquerdista. É preciso abrir o olho.

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