quarta-feira, 30 de junho de 2010

MPB NAS ESCOLAS MUDARÁ, AOS POUCOS, O MAPA CULTURAL DO PAÍS



O projeto "MPB nas Escolas", organizado pelo Instituto Cravo Alvim e que será ensinado nas escolas de todo o país a partir de 2011, é, sem dúvida, uma luz no fim do túnel. O projeto certamente irá mudar o mapa cultural do Brasil, mas essa mudança, mesmo inevitável, acontecerá aos poucos.

Até agora, a "educação" radiofônica ditava as regras e os princípios da dita cultura popular, realidade que a intelectualidade etnocêntrica ignora completamente. Até porque os antigos críticos da Bizz/Ilustrada, hoje convertidos em dublês de pesquisadores da cultura popular, não enxergavam qualquer diferença entre eles mesmos ouvindo rock na 97 Rock nos anos 80 e o pessoal da periferia ouvindo brega-popularesco nas FMs controladas por políticos ou latifundiários.

Mas, com o novo projeto, já previsto em lei federal, as rádios terão a concorrência das escolas na formação cultural dos jovens, o que fará com que, aos poucos, o mapa cultural brasileiro se altere, ameaçando a atual hegemonia dos ídolos da música brega-popularescas, confiantes que seu sucesso se prolongará por 55 anos.

O projeto "MPB nas Escolas" funde elementos do princípio da "geléia geral" e dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Da "geléia geral" tropicalista, o projeto do Instituto Cravo Alvim herdou a exposição de tudo de bom e de ruim que a música brasileira produziu, como meio de promover o debate em torno da realidade cultural do país. Dos CPC's da UNE, a herança está na revalorização da cultura popular de raiz, e no debate de sua sobrevida diante do poder da cultura de massa que domina os referenciais do povo pobre do Brasil.

Não é um projeto que irá causar uma revolução da noite para o dia, porque é difícil romper, em muitas regiões e comunidades, o poder que a Música de Cabresto Brasileira - a suposta "cultura popular" de orientação brega-popularesca que a maioria das rádios toca e faz sucesso na TV aberta - alcançou nos últimos vinte anos, tendo já rompido os limites do público rural-suburbano e alcançando até mesmo as classes médias urbanas.

Em muitas regiões do país, a música brega-popularesca é mesmo um instrumento de poder das elites no enfraquecimento cultural do povo, para facilitar ainda mais o controle social. É uma realidade nem sempre reconhecida por todos, uma vez que normalmente música e política nada têm a ver uma com a outra. Mas a própria influência política sobre as rádios que tocam a Música de Cabresto Brasileira em todas as suas matizes, do "brega de raiz" dos anos 60-70 até o "funk carioca", deixa claro as manobras políticas em torno do tema cultura popular.

Afinal, o controle das rádios e TVs no entretenimento e no lançamento de ídolos que simbolizem a domesticação do povo pobre e a transformação de elementos culturais brasileiros em estereótipos visa dominar o povo por esse entretenimento que nada contribui na produção social de conhecimento, na transmissão de valores humanos, na qualidade da criação artística.

Além do mais, as oligarquias poderão sabotar o projeto, de todas as formas, e vemos o quanto as regiões interioranas ou mesmo as capitais socialmente atrasadas do país - como Salvador, da Bahia, por exemplo - possuem um quadro escolar deficitário, com professores mal-remunerados e um programa de ensino mal-aproveitado por diversas circunstâncias (greve por atrasos salariais, feriados "enforcados", o ensino despreparado de certos professores etc).

Seja com o grotesco explícito do tecnobrega, "funk carioca", pagodão, tchê-music, oxente-music e "brega de raiz", tão cortejada por Hermano Vianna e similares, quanto a pieguice pseudo-sofisticada dos medalhões do sambrega, do breganejo e da axé-music que aparece no Domingão do Faustão, a Música de Cabresto Brasileira sempre se empenhou em ofuscar a MPB autêntica o máximo possível.

Certamente, haverá oportunistas de plantão, como vemos nos neo-bregas Alexandre Pires, que pegou carona num evento-tributo de Wilson Simonal e num evento da MPB FM, e Daniel, que entrou numa brecha jabazeira no normalmente rigoroso programa de música caipira Viola Minha Viola da TV Cultura. Como há tantos exemplos nesse sentido, de misturar bregas e neo-bregas com MPB autêntica de qualquer maneira.

Sem falar do fenômeno que chamo de "Música Paralizada Brasileira", na tendência terrível dos medalhões do neo-brega gravarem sucessivos DVDs ao vivo, discos de duetos, covers e tudo mais, num claro processo de paralisia artística, misturado com o oportunismo de realimentar o sucesso às custas de disquinhos com plateias alucinadas ou duetos e covers que supostamente associem os ídolos neo-bregas a referenciais mais nobres ou bem-sucedidos (se fazem duetos com outros neo-bregas).

Por isso, o projeto "MPB nas Escolas" não será ainda a ruptura imediata com a hegemonia brasileira. Primeiro, porque as oligarquias não vão deixar vão sabotar o projeto nas escolas de sua região. Segundo, porque os ídolos da música brega-popularesca vão se autopromover às custas da redescoberta da MPB.

Só isso representa um grande conflito entre o renascimento da cultura popular de qualidade e o hegemônico império do entretenimento brega-popularesco, que tal qual lobo em pele de cordeiro, fará mil manobras para sobreviver mesmo diante da retomada da MPB autêntica ante o grande público.

Mas, com o tempo, a MPB autêntica prevalecerá, mesmo com mil oportunismos dos neo-bregas. Isso porque os futuros alunos das aulas de MPB nas escolas irá avaliar, por comparação, entre a "música popular" de gosto duvidoso (mesmo quando pseudo-sofisticada por Daniéis, Belos, Chitões e Ivetes) e a música popular autêntica que aprenderá nas aulas.

Com a comparação, o aluno verificará, criticamente, a esquecida música boa do Brasil e a música não tão boa que ouve nas rádios e vê no Domingão do Faustão. Certamente ele será tentado, pela força natural das melodias, a ficar sempre com a MPB autêntica, e ele, tão jovem, certamente não associará o brega-popularesco a supostos momentos felizes. Porque sua felicidade futura terá uma trilha sonora bem mais edificante.

Um comentário:

MN disse...

A música brasileira continua mal das "pernas". É inaceitável que esses idiotas sintam-se os donos da verdade achando que todos devam gostar dos ritmos cretinos despejados por eles através da mídia nefasta. Ed Motta tem absoluta razão. Aliás, a música do multinstrumentista carioca é das mais bem elaboradas. Essa sim, não tem prazo de validade.