sexta-feira, 18 de junho de 2010

MORRE ESCRITOR JOSÉ SARAMAGO



Morreu o escritor português José Saramago, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Havia tomado o café da manhã em sua casa, nas Ilhas Canárias, junto com a esposa, a tradutora Pilar del Rio, quando passou mal. O editor Zeferino Coelho disse que Saramago estava doente, mas parecia estável.

Saramago tinha 87 anos e 63 de carreira literária. Era um pensador da ficção. Era um cidadão de esquerda, com expressivo senso crítico, expresso em muitos livros, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio Sobre a Cegueira, este último recentemente adaptado para o cinema, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles.

Aliás, eu havia lido Ensaio Sobre a Cegueira, em 1996, nos meus inocentes 25 anos de idade. Havia comprado o livro, quando eu trabalhava na redação do IRDEB, em Salvador. A obra é genial e sua narrativa surreal não pode ser interpretada ao pé-da-letra.

Afinal, a história de uma cidade que é tomada por um fenômeno de cegueira que só não atinge o protagonista da obra é, na verdade, uma crítica à alienação, ao conformismo, à falta de senso crítico que atingiu a sociedade contemporânea, sobretudo nos anos 90 marcados por um conformismo doentio, marcados pelo medo do senso crítico, que no Brasil atingia níveis assustadores.

A obra veio como um alerta diante da euforia da sociedade globalizada, no auge do capitalismo tecnocrático, num clima de entusiasmo neoliberal que ainda comemorava, em idos de 1995-1996, a queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu e ao estabelecimento de uma economia "mundializada", na verdade a expansão de uma lógica do capital e de desenvolvimento tecnocrático ditadas pelo G7 (grupo dos países mais ricos do mundo) através do Fundo Monetário Internacional.

Com isso, quando a Internet ainda estava no nascedouro de sua popularização, quando a rede virtual de computadores começava a deixar de ser privilégio de militares e pesquisadores universitários, José Saramago antecipou os blogueiros atuais na crítica feroz à alienação social, ao conformismo, a valores retrógrados ainda vigentes em nossa sociedade.

Saramago foi um dos importantes intelectuais contemporâneos. Foi o único escritor de língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel. Faleceu idoso, é verdade, mas é menos uma figura a iluminar, como farol, os rumos culturais da sociedade.

Nenhum comentário: