quarta-feira, 23 de junho de 2010

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA SÃO COMO O MOLEIRO DO CONTO DE OSCAR WILDE



Poucos conseguem imaginar o que está por trás do discurso "etnográfico", "sociológico" ou "pós-moderno" que jornalistas, antropólogos, sociólogos e historiadores fazem em favor da ideologia brega-popularesca.

Eles estufam o peito acusando os outros (os que reprovam o brega-popularesco) de "paternalistas", "elitistas", "etnocêntricos", quando são eles - Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo, Milton Moura, Rodrigo Faour etc - os detentores de tais adjetivos nada positivos.

Esses "pensadores" do brega-popularesco exaltam a população pobre como criancinhas simpáticas, produzindo uma cultura "qualquer nota" classificada como "natural" e "espontânea" porque supostamente não encontra intervenção da mídia nem de qualquer outra elite, mesmo a intelectual. Mas, no fundo, se felicitam com a mediocridade cultural reinante, sobretudo na música, sem desconfiar num só momento da exploração ideológica que as oligarquias fazem através de todas as tendências brega-popularescas.

Para piorar, a abordagem deles acaba por parecer com o personagem de um conto do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). É o conto "O amigo dedicado", que se trata de uma história sobre um pobre jovem chamado Johnny que cultiva lindas flores em sua casa, enquanto o moleiro, falsamente amigável, compra suas flores e faz elogios hipócritas ao floricultor.

O moleiro vive uma vida de luxo com sua família, enquanto despreza a miséria de Johnny, que, apesar de cultivar lindas flores, vive sozinho e em séria penúria. Certa vez, Johnny pediu um carrinho de mão para carregar as flores e o moleiro, que tinha um carrinho em bom estado, preferiu entregar ao jovem um outro, velho e em estado lastimável. Dias depois, Johnny morre afogado quando voltava para casa, numa noite de temporal.

A obra critica o desprezo das elites pelo que os pobres produzem de bom. Na cultura brasileira, esse desprezo se refere à cultura de qualidade, aos valores positivos e sólidos, que o povo desenvolveu até servir de fantoche das oligarquias e dos barões da grande mídia com o golpe de 1964 e a ditadura.

As elites - não os membros do CPC da UNE, que apenas queriam um diálogo com o povo - se apropriaram da música de raiz do povo pobre, a ponto de hoje um simples baião não mais contar com um novo representante dentro do povo dos sertões.

Tínhamos um músico com a força e o talento que foi Luís Gonzaga, mas hoje nem as domésticas das zonas urbanas ouvem o cantor, senão em regravações nas festas juninas que elas nem se dão conta que canções são.

Mas hoje os baiões, quando muito, são apenas curtidos por cantores universitários de classe média, para as festas sociais de profissionais liberais sisudos. Os grupos associados ao "som nordestino" de hoje e ao povo da periferia se limitam a fazer uma mistura caricata de disco music com country e, pasmem, usando um som de acordeon da música gaúcha. E isso se vende como se fosse o "legítimo regional nordestino", pelo discurso dos intelectuais etnocêntricos.

Esses intelectuais, como o moleiro, vivem sua apreciação cultural com preciosidades. Eles usurparam, dos Johnnys brasileiros de outrora, toda a discografia e cancioneiro da MPB autêntica, todo o histórico do folclore brasileiro.

Enquanto isso, os mestres desses intelectuais, os barões da grande mídia para os quais a intelectualidade etnocêntrica trabalhou e dos quais aprenderam suas lições, empurram para o povo o mais rasteiro paradão comercial, que serve de ração cultural para as tosqueiras brega-popularescas que desde 1958 são produzidas, sob os aplausos da mídia grande que finge nada ter a ver com a breguice reinante. Assim como o moleiro acha que não tem a ver com a tragédia que vitimou o jovem e pobre floricultor.

Afinal, pouco importa para o moleiro se Johnny morreu afogado porque não tinha um bom transporte para levá-lo de volta para casa. Assim como pouco importa para os Sanches, Viannas, Mouras, Araújos da vida se existe conflitos no campo, deslizamentos de terrras dos morros, enchentes nos subúrbios, seca nos sertões. Para o moleiro, Johnny era um garoto feliz. Para os intelectuais etnocêntricos, a periferia apenas vai e vem feliz nas boates de sua cidade para ouvir o mais rasteiro brega. Visão mais hipócrita de povo do que esta, impossível. É Justo Veríssimo querendo ser Albênzio Peixoto.

Vamos ver se o projeto MPB nas Escolas tirará do povo pobre o véu de cafonice que as oligarquias e o baronato da mídia apátrida colocaram.

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