terça-feira, 1 de junho de 2010

INTELECTUAIS DO BREGA-POPULARESCO NÃO SABEM O QUE É INICIATIVA POPULAR


COOPERMAE - Cooperativa de Costureiras e Artesãs de Ferraz de Vasconcelos (SP), um tipo de iniciativa popular.

É muita hipocrisia a falta de discernimento dos intelectuais que defendem a ideologia brega-popularesca, como Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, como se fosse a "verdadeira expressão cultural do povo".

Eles não sabem, ou simplesmente não querem saber, de metade da história, quanto às armadilhas do show business que atinge os rincões dos subúrbios e zonas rurais, mas também nas zonas urbanas, e que representa o esquema oculto por trás dos fenômenos popularescos.

Seu etnocentrismo vê o povo de longe, como um lindo formigueiro paradisíaco e luminoso. E a tragédia do Morro do Bumba, em Niterói? E o incêndio no bairro do Jacaré, junto ao Viaduto Noel Rosa, no Rio de Janeiro? E a pistolagem do Pará, o massacre de Eldorado dos Carajás? Não, isso não aparece, o que aparece é o "rebolation", o "pancadão", o tecnobrega.

Eles desconhecem as armadilhas do business brega-popularesco. Acham que o fato de grupos de tendências mais grotescas - como o "pagodão" baiano, o tecnobrega, o forró-brega, o "funk carioca", a "tchê music" e o arrocha - são iniciativas do povo da periferia. Pior que isso, é quando eles veem com ingenuidade o fato de que muitos desses conjuntos são armados por empresários.

Os chamados "grupos com donos" têm uma problemática que esses intelectuais etnocêntricos desprezam ou desconhecem. Acham que a tutela de um empresário - que geralmente usa o eufemismo de "produtor de eventos" ou "diretor artístico" - serve apenas para "monitorar" a carreira dos grupos.

Quanta ingenuidade, quanta ignorância. Grupos que vemos nas caras dos seus integrantes que foram inventados ou reinventados por empresários que, no entanto, são creditados à "expressão espontânea" do povo da periferia. O caráter de armação é explícito, mas em nome do espetáculo, seus ideólogos não querem admitir a realidade. Querem acreditar, piamente, que aquilo que eles veem nos palcos é fruto de uma "legítima iniciativa popular". É essa lorota que fez Hermano Vianna incluir o É O Tchan num documentário sobre folclore, enquanto seu genérico Gang do Samba era empurrado para um documentário sobre o cantor popular Riachão.

Iniciativa popular é coisa séria. É quando um grupo de pessoas das classes populares se reúne para uma causa ou um projeto. São cooperativas, são grupos em busca da justiça social, são associações, são outras iniciativas realmente espontâneas. Há a COOPERMAE, Cooperativa de Costureiras e Artesãs de Ferraz de Vasconcelos (SP), há as Mães de Acari, protestando contra a violência policial que dizimou seus filhos, como bons exemplos de iniciativas de gente do povo.

Na música, são grupos folclóricos ou de música popular autêntica que surgem sem qualquer tutela, e sem qualquer inclinação para o comercialismo frouxo da grande mídia. O verdadeiro folclore musical segue a mesma lógica do artesanato, dos rituais sociais, uma iniciativa genuína de gente do povo para a produção de conhecimento e transmissão de valores sociais através da arte e da cultura.

Não dá para creditar como "iniciativa popular" um projeto que um homem relativamente rico cria, recruta e manipula gente do povo para seguir suas ordens. O próprio caso do Aviões do Forró dá conta do business popularesco. A vocalista Solanja (Solange Almeida) se separou do marido, discutiu com o empresário do grupo, e foi embora. Iniciativa popular? A primeira dançarina do MC Créu também brigou com o empresário e saiu. Iniciativa popular? E o É O Tchan, mudando de formação a toda hora. Você não veria isso numa banda como os Beatles ou, no caso brasileiro, uma Legião Urbana.

Se fossem analisados de forma crítica e investigativa, os bastidores da música brega-popularesca revelaria detalhes estarrecedores que definitivamente dariam fim ao mito de que ela é a "verdadeira música popular". Alegações de "cultura da periferia", "voz dos excluídos", "movimentos à margem da mídia" (isso com a adesão fácil demais da grande mídia mais conservadora) perderiam completamente o sentido, revelando seu caráter falacioso.

Iniciativa popular é, repito, uma coisa séria. Mas os intelectuais etnocêntricos devem ter bebido demais. Eles vão para as danceterias dos subúrbios e ficam vendo coisas. Ficam três horas na noitada e acham que ali vão entender o folclore brasileiro, junto à pesquisa superficial de livros e filmes documentários. Já não sabem a diferença entre um escritório empresarial e uma oficina de artesanato.

Com isso, o juízo desses intelectuais para a cultura popular pode parecer generoso e bondoso, mas é falso.

Nenhum comentário: