terça-feira, 29 de junho de 2010

ETNOCENTRISMO PAULISTA A RESPEITO DA CULTURA POPULAR



Grande problema têm os intelectuais paulistanos que cortejam a ideologia brega-popularesca como se fosse a "verdadeira manifestação" da cultura popular.

Sabe-se que eles adotam uma postura etnocêntrica, e não é difícil explicar que visão etnocêntrica eles têm e que trata a cultura popular de forma estereotipada e subordinada aos padrões da grande mídia.

Nomes como Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Bia Abramo e Rodrigo Faour têm origem na crítica musical, sua formação é algo entre o Rock Brasil e a apreciação do rock e do pop internacional dos anos 80.

Imagine então que "pesquisas etnográficas" eles realizam? Vão para as danceterias e passam pelo comércio de camelôs nas ruas. Pura analogia ao que eles faziam na capital paulista, visitando boates e percorrendo a Rua 25 de Março e os sebos da cidade.

Cientistas sociais frustrados - apesar de Hermano Vianna ter mestrado e doutorado, ele está longe de ter uma reputação de grande antropólogo - , eles tentam costurar seus argumentos sobre os modismos brega-popularescos de regiões distantes (como o arrocha da Bahia, o tecnobrega do Pará, a tchê-music do Rio Grande do Sul e o "funk carioca" do Rio de Janeiro) com referenciais mais díspares possíveis de comparação.

Seu preconceito etnocêntrico acaba sendo provado na medida em que julgam tais modismos, todos de valor artístico duvidoso e resultantes de uma "educação cultural" midiática dirigida pelas elites regionais (não precisamos aqui detalhar as concessões de rádio FM feitas por ACM e Sarney para políticos e empresários simpatizantes), de acordo com a formação cultural desses "pesquisadores".

Tentam comparar a estrutura de mídia e de divulgação de ritmos como o tecnobrega, o arrocha, o "pagodão" (também baiano) e o "funk carioca" de acordo com as avaliações que seriam mais apropriadas para definir o rock alternativo paulistano. Como se não tivesse diferença alguma entre uma Baratos Afins heroicamente sustentada pelo farmacêutico e produtor musical Luís Carlos Calanca e um selo paraense investido por um grande fazendeiro da região. Ou uma rádio FM controlada por um deputado federal de Salvador (Bahia) e uma rádio alternativa feita por uma universidade paulistana.

Dependendo das comparações, que deixam cada vez mais evidente a visão etnocêntrica, ou seja, um preconceito positivo de enxergar o "outro", referenciais dos mais distantes são usados para costurar as argumentações numa base teórica verossímil, mas exagerada e discutível.

No caso do tecnobrega do Pará, costura-se as comparações com o punk rock para definir a mídia supostamente "alternativa" - claro, seus "pesquisadores" vivem em São Paulo, querem ver o Pará como uma sucursal do underground paulistano - , enquanto tenta-se comparar o povo que frequenta seus espetáculos com as tribos indígenas analisadas por Claude Levi-Strauss. E, como fenômeno supostamente cultural, o tecnobrega é também comparado com o evento da Semana de Arte Moderna, e sua (baixa) estética com o Tropicalismo, quando atribui-se aos ídolos do tecnobrega uma suposta missão provocativa.

Esses intelectuais só ouviam Manu Dibango, Specials, Miriam Makeba e Gregory Isaacs e acham que o grotesco Psirico é igual a eles. Eles ouviam Beastie Boys, Afrika Bambattaa, Grandmaster Flash e Public Enemy e acham que MC Créu vai fazer igualzinho a eles.

Eles ficavam o tempo todo nos sebos do Centro de São Paulo, no comércio da 25 de Março e nas boates da Zona Sul paulistana. Eles passavam o tempo lendo revistas londrinas, assinando o New Musical Express, conheceram o underground pela MPB da cena da Lira Paulistana ou do rock alternativo da Baratos Afins, Wob Bop e outros selos indies.

Só conheciam sua cena alternativa de São Paulo (com alguma inclinação para o melting pop londrino, mesmo a Jamaica intermediada por Londres, a África intermediada por Paris) e de repente eram convidados pelas circunstâncias a pesquisar sobre cultura popular do interior do Brasil.

Eles nem conhecem as armadilhas do brega-popularesco. Só conheceram o brega através das paródias dos Titãs (quando Titãs do Iê-iê, tendo Ciro Pessoa na formação), do Premê (Premeditando o Breque) e do Língua de Trapo. Mal puderam perceber o quanto Waldick Soriano era um cantor ultraconservador e o venderam como um "guerrilheiro vanguardista". Coitados.

Sua formação intelectual não ia além do território delimitado entre o Cassino do Chacrinha e a 97 Rock FM. Tinham que analisar a cultura popular numa pesquisa apressada nas bibliotecas da USP e da PUC-SP que não conseguiu diminuir os preconceitos etnocêntricos dessa intelectualidade.

Daí ser mole definir um modismo da música comercial como se fosse um "fenômeno etnográfico", uma "cultura pós-moderna", cheio de divagações intelectualóides, ainda que "generosas". Imagine se a disco music, em todo o seu vazio intelectual, tivesse uma retórica de defesa típica do punk rock? Village People vendido como se fossem os Sex Pistols disco? Não faz o menor sentido.

Mas no Brasil politicamente correto de hoje, Claude Levi-Strauss, Oswald de Andrade, Malcolm MacLaren, Antônio Conselheiro e Hélio Oiticica são igualmente usados a bel prazer pelos intelectuais etnocêntricos que defendem a caricatural "cultura" do brega-popularesco.

Isso tudo, a ponto desses intelectuais atribuírem aos ídolos popularescos uma "sabedoria cultural" que esses ídolos não têm. Eles mal sabem a diferença entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade e os intelectuais dizem que eles entendem de "antropofagia".

Pura lorota. O que os ídolos popularescos fazem é juntar o repertório que eles ouvem nas rádios e criar uma linha de montagem estético-musical para fazer sucesso na mídia. Tudo por dinheiro. Nada por cultura. Só a intelectualidade etnocêntrica não vê isso.

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