quarta-feira, 16 de junho de 2010

DILMA NA CARTA CAPITAL X DILMA NA ISTO É


COMENTÁRIO DESTE BLOG: O meu xará, que produz o blog Jornalismo B, comparou as duas entrevistas com a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, publicadas por revistas aparentemente "com a mesma imparcialidade".

Sabe-se que durante anos a Isto É foi tida como "progressista" e que muitos consumidores de jornalismo, sobretudo os "líderes de opinião" que compõem uma geração antiga e acomodada de blogueiros e uma geração cansada e conformista de jornalistas, pensavam que Isto É e Carta Capital tinham o mesmo perfil.

Nem a passagem de Mino Carta, editor de Carta Capital, na Isto É, nos anos 70, como na Veja, nos anos 60, significa um diferencial para a revista dos Alzugaray. Porque Mino, assim como outros como Sérgio de Souza, Cláudio Abramo, Paulo Patarra, Roberto Freire (o xará do político do PPS) e Wladimir Herzog eram jornalistas de esquerda numa época em que não havia grande imprensa de esquerda, mas uma imprensa de centro ou de centro-direita que abria brechas profissionais para profissionais esquerdistas.

Hoje, pelo contrário, há uma grande imprensa de esquerda, mais de quarenta anos depois de veículos controlados por grupos conservadores, como Folha da Tarde (dos Frias) e Realidade (dos Civita), terem sido a única opção para jornalistas de esquerda trabalharem com relativa autonomia de ação, dentro dos anos de chumbo.

O que mostra a diferença entre a imprensa de esquerda e a "mídia boazinha" que não é abertamente reacionária, mas também possui sérios limites ideológicos que ainda alinha essa imprensa "generosa" ao grupo da mídia conservadora. A Carta Capital é esquerdista, da linha petista, mas fiel ao bom jornalismo procurou fazer uma entrevista mais crítica e questionadora à candidata à presidência da República, enquanto Isto É pareceu superficial e previsível.

Dilma na Carta Capital X Dilma na Isto É

Por Alexandre Haubrich - Blog Jornalismo B

Duas entrevistas e a demonstração de que nem sempre quantidade é qualidade. No início de maio, a revista Isto É entrevistou Dilma Rousseff, candidata à presidência pelo PT. Na última semana, outra importante revista semanal, a Carta Capital, publicou entrevista Dilma.

A entrevista da Isto É, mais longa e feita por vários jornalistas, foi insossa, com perguntas um tanto vagas, gerais demais. Enquanto isso, mais curta e realizada por apenas dois repórteres – Cynara Menezes e Sergio Lírio –, a entrevista da Carta Capital toca em pontos chaves, é questionadora, incisiva, e traz dois jornalistas extremamente preparados, com grande conhecimento dos aspectos mais específicos da política, do governo e da situação do Brasil.

Alguns assuntos tratados nas duas entrevistas são os mesmos. Por exemplo, a questão da mulher na política, a atuação da entrevistada no governo Lula e a política econômica estão presentes, entre outros aspectos comuns. Porém, a formulação das perguntas demonstra uma clara diferença de conhecimento, o que reflete nas respostas da entrevistada a na possibilidade de o leitor compreender melhor seus posicionamentos e propostas. Além disso, a Isto É deixou de levantar questões importantes, como o passado político de Dilma, a falta de posicionamento sobre a revisão da Lei de Anistia e a relação do governo petista com a imprensa. Isso apesar da entrevista maior. Apesar de seu petismo assumido, a Carta Capital realmente fez perguntas fortes, realmente foi questionadora, crítica, inteligente.

Alguns exemplos da diferença na formulação das perguntas, por tópicos:

- Mulheres:

ISTOÉ – O fato de ter duas mulheres pela primeira vez concorrendo dará um tom diferente à campanha?

Carta Capital: Neste ano, o Brasil pode escolher a primeira mulher presidente. Faz diferença?
CC: Mas existe um modo feminino de governar?
CC: Já foi, nos primórdios do feminismo.
CC: Curiosamente, a senhora tem avançado menos no eleitorado feminino. Por que acha que isso acontece?

- Miséria:

ISTOÉ – No horizonte de um governo, é possível erradicar a pobreza?

Carta Capital: A senhora promete erradicar a miséria em seu mandato. Mas o Ipea fala que erradicar a pobreza extrema só é possível em 2016.
CC: Mas qual vai ser o caminho? A ampliação dos programas sociais ou o crescimento?
CC: Mas se uma grande parte da miséria, como a senhora falou, está na zona rural, tem algum problema aí. Talvez tenha faltado reforma agrária
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