terça-feira, 22 de junho de 2010

BREGA-POPULARESCO DEPRECIA A SOCIEDADE


LÉO SANTANA E VALESCA POPOZUDA SIMBOLIZAM VISÃO DEPRECIATIVA DE NEGROS E MULHERES.

O brega-popularesco não se preocupa com a ética. Como chamá-lo de "verdadeira cultura popular" se ela não desenvolve valores edificantes para o povo brasileiro?

O "vale-tudo" da música qualquer nota, da busca cega pela fama, da obsessão por noitadas, da exposição do mundo-cão na TV diante das crianças, a pieguice chorosa dos "grandes ídolos" que "visitam" Fausto Silva todo domingo, tudo isso não poderia significar a construção de um Brasil melhor, com melhor cultura, com um povo mais ativo e mais otimista.

Pelo contrário, a ideologia brega-popularesca anda destruindo a cultura popular, sob alegação de "liberdade" que apenas faz de seus defensores como Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Milton Moura, Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Raggi e outros um braço cultural não-assumido dos rancorosos colunistas de Veja, Globo, Folha e Estadão que militam no Instituto Millenium.

Será que ninguém percebeu essa analogia? Os reacionários da crônica político-jornalística falam em "democracia" e "liberdade" para defender o padrão excludente de desenvolvimento sócio-econômico. Já os defensores da ideologia brega-popularesca falam em "democracia cultural" e "liberdade cultural" para defender o padrão grotesco-piegas-esquizofrênico atribuído à cultura brasileira. Os primeiros falam em "globalização", os segundos em "cosmopolitismo cultural". Dá no mesmo. Apátridas duma figa!

Pois observa-se que negros e mulheres são também vítimas dessa ideologia degradante da "saudável cultura popular" que os intelectuais etnocêntricos tanto falam. Racismo e machismo caminham juntos no império da cafonice que toma conta de rádios e TVs e que poucos desconfiam que seja tramada pela mídia golpista.

SEGREGATION - Num país de uma história da cultura negra originalmente triste (devido à escravidão), mas batalhadora e rica, é de imaginar que ritmos como o "funk carioca" (FAVELA BASS) e o porno-pagode são usados pela grande mídia para imobilizar a luta dos negros no dia-a-dia.

Na minha já estadia em Salvador, pude perceber o quão degradante é o porno-pagode, lançado pela mídia golpista local (ACM e seus criados Marcos Medrado, Mário Kertèsz, Pedro Irujo, Cristóvão Ferreira e outros) a partir do "fenômeno" É O Tchan.

A degradação vinha logo no primeiro sucesso, "Segura o Tchan", com uma estrofe que narra um estupro ("Tudo que é perfeito agente pega pelo braço / Joga ela no meio / Mete em cima / Mete em baixo / Depois de nove meses / Você vê o resultado"), para depois apresentar os glúteos das dançarinas para o público infantil, sob um verniz de inocência expresso no visual das dançarinas, com suas cores fortes, associadas a balas, guloseimas e festas infantis, e caraterizado como uma tradução pornô das Paquitas, numa época em que o adolescentismo consumista do Xou da Xuxa estava assimilado pelo imaginário infantil.

O porno-pagode, que viria depois no Harmonia do Samba (que defendeu o estilo até 2002, quando virou sambrega para alcançar o mercado paulista) e de grupos como Psirico, Pagodart, Parangolé e outros, passou a trabalhar a caricatura depreciativa do negro, sobretudo do sexo masculino.

O negro, neste estilo musical, é definido como um bobalhão musculoso e tarado, ávido por rebolar de forma neurótica nos palcos, e musicalmente inseguro. Não é por acaso que muitas apresentações desses porno-pagodeiros se caraterizam pelos longos minutos em que o vocalista perde muito tempo falando à plateia, antes do grupo tocar a próxima música.

Os nomes são de um trocadilho que exprime o patético, o tolo. Guig Guetto, Poder Dang, Dignow do Brasil, Saiddy Bamba, Uisminoufay, são alguns desses nomes. Menos ridículos, mas não menos tolos, os nomes Psirico e Pagodart são exemplos. A exceção é Parangolé, uma apropriação oportunista do nome da principal obra do artista plástico que inspirou o Tropicalismo, Hélio Oiticica.

As letras, se não apelam para o ridículo - "O bicho vai pegar", "Tira e bota", "A cobra vai fumar", "Gueri, gueri, gueri, gueri...", "Uisminoufay, bonks bonks bom" - , vão para o machismo mais aberto, como "Tapa na cara, mamãe" ("mamãe" é uma tradução da gíria "mama" que as letras "sensuais" denominam as mulheres sexualmente atraentes), "Só na pancadinha", "É na martelada", "Toma, toma".

Tudo isso como uma forma de segregação racial não-assumida e até mal disfarçada por letras "conscientizantes" que, no entanto, revelam outro lado cruel, que é o do conformismo social, a permanência do povo pobre nas favelas em vez de lutar por residências melhores.

Em "Favela", o grupo Parangolé (do antigo sucesso machista "Tapa na Cara" e do modismo nacional do "rebolation" - REBOLEJO), do vocalista Léo Santana, promove uma visão conformista do povo favelado, apenas pedindo que a sociedade "tolere" os favelados.

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela
Respeite o povo que vem dela

Ô já ta quase na hora do meu bonde passar
Levando a galera que faz as loucuras
Pega no batente dessa vida dura
Que acorda bem cedo para ir trabalhar
Ô mas que nunca perde sua fé
Que samba na ponta do pé
O alimento da alma é sonhar ÊÊ


Ou seja, "Favela" fala de um povo pobre "alegre", que até leva uma vida dura, mas nunca sofre, como afirmam os três últimos versos, claramente defendendo a acomodação e o conformismo popular, porque aqui a ideia é que o povo sofre, mas vive feliz a sonhar.

Em "Firme e Forte", o Psirico, do vocalista e ex-músico de Ivete Sangalo, Márcio Victor, que solta uma sirene aleatoriamente, aparentemente não há "tanta alegria" como no sucesso do outro grupo, mas os versos deixam claro a propaganda do conformismo social, a "impossibilidade" do povo pobre protestar com energia:

Na encosta da favela "tá" difícil de viver,
e além de ter o drama de não ter o que comer.
Com a força da natureza a gente não pode brigar
o que resta pra esse povo é somente ajoelhar,
e na volta do trabalho a gente pode assistir.
Em minutos fracionados a nossa casa sumir, tantos anos
de batalha
junto com o barro descendo e ali quase morrer é
continuar vivendo.

Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
O meu Deus dai-me força pra outra casa levantar.


A Natureza é usada como pretexto para o conformismo social. Afinal, não se fala em poluição nem degradação ambiental, o povo perde suas casas e só resta construir de novo, não se sabe como (material de construção não é capim e custa uma boa grana).

Nota-se também o uso da "fé", em ambas as letras, como pretexto para o povo pobre se conformar. É um eufemismo para o povo esperar com alegria para que o acaso, e não a luta popular, lhes traga algum benefício, que não se sabe qual nem como.

Letras de conformismo social são também a tônica do "funk carioca", como se vê no caso do "Rap da Felicidade", de MC Cidinho & MC Doca, cuja letra se resume apenas ao pedido de inclusão do povo favelado nos benefícios da sociedade urbana de consumo. O refrão é sintomático da satisfação de ser pobre defendida pela letra:

Eu só quero é ser feliz
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência Que o pobre tem o seu lugar


Quanto ao machismo, tanto os dois ritmos, o porno-pagode e o "funk carioca", também promovem estragos semelhantes ao que o porno-pagode faz através do racismo. O lançamento e a promoção das dançarinas boazudas, com grande ênfase nos glúteos avantajados, é coisa que se iniciou com o É O Tchan e, passando pelas mulheres-frutas do "funk carioca" - com o apoio de simpatizantes que em todo caso são "mulheres-frutas" sem nome de fruta, como MC Perlla e Valesca Popozuda - , pelas namoradas de pagodeiros ou funqueiros (Gracyanne Barbosa, Viviane Araújo e Mirella Santos), ou mesmo por algumas egressas do Big Brother Brasil (Priscila Pires, Anamara, Lia Khey) e por "titias" como Solange Gomes e Nana Gouveia.

É o culto ao corpo da mulher-objeto, da forma mais grotesca, vazia, insistente. Como num processo de hipnotismo, as mulheres-objetos são maciçamente exibidas em veículos da mídia popularesca como o portal Ego e os jornais mundo-cão que custam baratinho, sempre através do pior e mais caricato erotismo feminino, numa exibição gratuita do corpo que não permite sutilezas e acaba totalmente com qualquer fantasia masculina, pois aqui a sexualidade não é saudável, é doentia, obsessiva, compulsiva, feita para o zé-povinho ser desviado de sua luta do dia-a-dia para o recreio pornográfico que esconde seus verdadeiros problemas.

Como se vê, nada existe de moralista quando se condena o grotesco do brega-popularesco. Ele degrada a sociedade, mesmo. É muito cruel, perverso, combate os movimentos sociais silenciosamente.

3 comentários:

Bruna disse...

Vou passar esse texto adiante!!!

Sabe qual é o maior problema de tentar discutir isso com as pessoas? Elas vão logo dizendo que "isso é moralismo". A população está tão alienada que não sabe mais diferenciar moralismo de SENSO CRÍTICO.

Bruna disse...

Você poderia me dizer seu nome, para eu lhe dar os dévidos créditos ao passar seu texto adiante por email?

Pode deixar como cometário em meu blog que depois eu apago...

Obrigada.

O Kylocyclo disse...

Bom, qual é o seu blog?