domingo, 6 de junho de 2010

BRASIL MACHISTA RESISTE A MUDANÇAS


AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS NÃO PARECEM SENSIBILIZAR PESSOAS COMO EDUARDO MENGA E NANA GOUVEIA.

Nada muda para um país apegado a tradições machistas como o Brasil.

Os homens ligados a cargos de liderança e decisão ainda não conseguem compreender a saturação de um modelo de "maturidade", de "sofisticação" masculina, que fazia sentido nos anos 70 mas que hoje já não dá mais conta do recado. O que era sinônimo de "bom gosto e requinte" hoje é a mais pura sisudez.

As mulheres ligadas ao culto exclusivo ao corpo, por sua vez, também não conseguem compreender a saturação de um modelo de mulher intelectualmente vazia, eternamente apegada a curtição e à ostentação do corpo sarado ou "turbinado", e que hoje as mulheres modernas conquistaram mais direitos, porém têm muito mais responsabilidade para provar que são muito mais do que corpos bonitos e curvilíneos. Direitos conquistados podem gerar deveres futuros.

Às vezes recebo mensagens de pessoas assustadas com a hipótese de um empresário de 55 anos, casado com uma moça de 33, ter de ouvir um repertório de Rock Brasil. E não se fala de coisas radicais como Plebe Rude nem em bobagens adolescentes como Supla, mas intérpretes respeitados até pelos especialistas da MPB, como Legião Urbana, Leoni, Frejat, Titãs e Paralamas do Sucesso, e cujas músicas são perfeitamente assimiláveis para o público adulto em geral.

Também recebo mensagens de pessoas acusando de "preconceituosa" qualquer crítica às mulheres-frutas e outras boazudas em geral, apavoradas com os comentários que as desqualificam por razões bastante óbvias, como a falta de inteligência, a exagerada ostentação dos dotes físicos e a obsessão por noitadas.

Claro, num país que ainda guarda sequelas da longa ditadura militar de 1964-1985, que, por intermédio dos antigos jovens direitistas dos anos de chumbo, produziu uma geração jovem reacionária, que defende o establishment do entretenimento atual como se fosse a verdade absoluta (daí a famosa fúria dos talifãs), compreende-se o conservadorismo social que, por vezes, se volta até contra este blog. Como, em outros tempos, se voltou até mesmo contra pessoas de grande respeito como o historiador e militar Nelson Werneck Sodré e o general Henrique Lott e contra grandes educadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

Queiram ou não queiram, o machismo produz tanto empresários que, entre os 40 e 65 anos, defendem um modelo de personalidade "madura" e "sofisticada" expresso pela sisudez que os contamina até no lazer, quanto boazudas que só ficam mostrando o corpo e indo para a curtição, sem mostrar qualquer coisa de interessante ou substancial. Para a cartilha machista, o homem vale pelo seu poder decisório, a mulher pelo seu potencial sexual.

As transformações sociais, no Primeiro Mundo, alertam para o problema desses dois tipos. Para empresários e profissionais liberais apegados à formalidade no lazer, ao rigor no vestuário e à sisudez no comportamento. Para boazudas em geral apegadas à curtição obsessiva, ao vestuário sexualmente apelativo demais a ponto de perder a graça e ao comportamento cheio de tolices e totalmente superficial.

As mudanças ocorrem, e não se trata de desaforo de blogueiro. São fatos sérios, que acontecem nos países do Primeiro Mundo. Não tem mais cabimento a sisudez petrificada dos executivos, empresários e profissionais liberais, ainda que ela continue existindo em países como Reino Unido, Estados Unidos e França. Não tem mais cabimento a prevalência de mulheres que só mostram o corpo - e mostram até demais - nesses países.

Como confrontar o sisudo Eduardo Menga, marido de uma jovem atriz, notável pela beleza e pela personalidade moderna, inteligente e decidida, com o milionário Bill Gates, que quebrou vários paradigmas associados ao empresário tradicional? E se a comparação for com o também brasileiro Roberto Justus, que continua escravo de um modelo rigoroso de vestuário dos granfinos de 35 anos atrás, quando o mesmo publicitário ainda era um garotão deslumbrado com o jet-set da high society da época?

Como confrontar um empresário, médico, advogado etc, que ainda usa velhos sapatos de couro ou verniz até para ir a um shopping, que mantém-se sisudo mesmo com uma jovem e linda esposa, que só quer saber de almoços formais, jantares formais e festas formais, com seus similares da Europa e EUA que começam a repensar seus estilos de vida, sobretudo a partir de descobertas médicas, de novos conceitos profissionais e de novas teorias psicológicas, sociológicas ou mesmo tecnológicas, que afetam suas relações sociais, seus modos de vestir, seus sensos de humor e até no modo de encarar a velhice futura?

Nos anos 90, durante a onda das empresas "dot com" na Europa e EUA, veio uma nova geração de empresários com uma nova visão de administração e negócios. Altamente inteligentes, eles conquistaram o poder nos negócios sem abandonar os trajes universitários e seus valores juvenis, e hoje vários deles têm em média 45 anos e exibem uma jovialidade que contrasta violentamente com os empresários que tinham a mesma média etária nos anos 70, pois estes eram quarentões com jeito e aparência de quase idosos.

Por outro lado, como confrontar uma Nana Gouveia, que com 35 anos se comporta como uma eterna menininha boazuda de 18, com a atriz norte-americana Dakota Fanning, que, com apenas 16 anos, já possui ares de diva e surpreende nas entrevistas com uma inteligência e uma sensatez incomparáveis?


DAKOTA FANNING E CAREY MULLIGAN - Mulheres que unem beleza, charme e inteligência.

As transformações sociais também envolvem, e muito, as mulheres do exterior. Elas não ficam "pagando calcinha", fazendo caras e bocas, vestindo roupas apelativas demais, ou falando banalidades nas entrevistas. As mulheres de valor, na Europa e nos EUA, sabem opinar sobre política, artes e ciência, vão às exposições de artes plásticas, curtem música de qualidade, assistem a filmes de qualidade. São mulheres que não fazem vergonha nas rodas de conversas do cotidiano.

Uma das mulheres que recentemente chamam a atenção pelo seu charme, inteligência e desenvoltura, é a atriz inglesa Carey Mulligan. De apenas 25 anos, ela já é comparada com frequência à saudosa atriz belga Audrey Hepburn, que foi o símbolo máximo de mulher inteligente e charmosa do seu tempo, e que até hoje serve de inspiração para muitas mulheres.

Queiram ou não queiram os arrogantes brasileiros que defendem tótens da mídia e do entretenimento atuais, por mais antiquados que estes sejam, essas transformações ocorreram, e não é porque estamos no Brasil que essas transformações não façam sentido aqui.

Afinal, o Brasil é um país emergente, é uma potência do futuro, e é bom se preparar para quando as transformações sociais da Europa e dos EUA passarem a valer por aqui, a contragosto de Caras, Ego, Quem Acontece, Faustão, TV Fama, SuperPop, Contigo, Babado, Fuxico, Futrico etc.

Quando os valores antiquados arrogantemente defendidos por sua patota perderem o sentido, que ninguém venha a nos dizer que não foi avisado.

Um comentário:

Marcelo Pereira disse...

Para quem acha que aparencia é o motivo de sucesso para qualquer casamento, unir empresários sisudos e mulheres inteligentes (mas bem humoradas), e nerds tímidos com boazudas infantilizadas, é maravilhoso.

O problema está na essencia, já que o nerd é tão bem humorado e inteligente como a classuda e o empresário, de idéias tão limitadas quanto as de uma boazuda.

Lembrando que o empresário sisudo e a boazuda são estereótipos de um machismo medieval que não deveria existir em tempos de "ampla modernização".