quinta-feira, 10 de junho de 2010

BIBLIOTECA VIRTUAL FAZ IDEIA DISTORCIDA DO BREGA DO PARÁ



A Biblioteca Virtual, sob o pretexto de lançar uma visão "objetiva" da música brasileira, sucumbiu aos clichês publicitários do tecnobrega. Aparentemente desenvolvendo um histórico geral da música brasileira, o texto em questão, no parágrafo dedicado à música brega e o tecnobrega, comete violentos deslizes na abordagem claramente apologética dos fenômenos.

Como se trata de um site produzido pela Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo - há um claro cheiro tucano por aí - o texto, publicado em março de 2010, se beneficia da visão paulistocêntrica da mídia e credita os fenômenos bregas e do tecnobrega como se fossem discriminados pela "grande mídia".

Num trecho, diz que os ídolos bregas do Pará fizeram estrondoso sucesso mas eram ignorados pela "grande mídia". Noutro, afirmam que o tecnobrega tem um "mercado alternativo", que veio das "periferias" mas por outro lado afirma que os ídolos do estilo "se profissionalizaram de forma impressionante, com estruturas grandiosas de luz, som e figurinos".

Você fica maluco achando que o tecnobrega e os bregas veteranos do Pará fazem estrondoso sucesso mas "não fazem sucesso algum". E, por que o estrondoso sucesso, se eles estão "fora da grande mídia". E que "mercado alternativo" é esse? É "alternativo" porque não é subsidiária das "grandes irmãs" (Sony, Warner, Universal e EMI)?

A visão é esquizofrênica. Imagine definir como "alternativo" um modismo cuja estrela principal é uma imitadora da Beyoncé Knowles, símbolo do mais manjado hit-parade do mundo inteiro? Falta de coerência, no duro!!

Imagine se você fala que a disco music tornou-se fenômeno mundial com um esquema de divulgação e distribuição próprios do punk rock? É pura hipocrisia da intelligentzia brasileira em anunciar novos modismos. Pura cara-de-pau dizeer que as gravadoras do Pará são "independentes" porque não são a Sony, nem Warner, nem Universal, nem EMI, nem Som Livre.

A filosofia dessas gravadoras nada tem a ver com as gravadoras independentes, porque têm um esquema de jabaculê, de exploração artística, de mentalidade comercial dignos da mais capitalista indústria fonográfica. Ou seja, são apenas versões rurais de uma Warner Bros Records, de uma Capitol Records, de uma Columbia Records.

Independentes mesmo são a Baratos Afins, é a Monstro Discos, é a Biscoito Fino, é a Trama Discos. Porque gravadora independente valoriza a liberdade artística, e não a fabricação de um espetáculo visando o lucro fácil.

Além disso, no ramo do entretenimento, as tensões sociais do Pará simplesmente desaparecem no discurso florido dos defensores do brega-popularesco. Não há dominação, não há controle social, as rádios de lá podem ser comerciais e ligadas a grupos oligárquicos, por sua vez ligados aos grandes fazendeiros, que "grande mídia" não existe no Pará, pelo menos é o que sugere tal discurso.

Também é uma grande coerência limitar a grande mídia à visão paulistocêntrica, das grandes redes nacionais, da mídia da Avenida Paulista, da Alameda Barão de Limeira, do Projac. Existe grande mídia regional, sim, com sua dimensão local de prepotência, domínio e controle social.

Portanto, nota zero ao Biblioteca Virtual, que se baseou no rol de besteiras que o tal livro do tecnobrega, Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música, de Ronaldo Lemos e Oona Castro, registrou para promover o modismo com uma retórica pseudo-sociológica.

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