sexta-feira, 11 de junho de 2010

ARNALDO BLOCH CRITICA O ANTI-INTELECTUALISMO DOS JOVENS BRASILEIROS


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Há poucas semanas, terminei de ler o livro Os Irmãos Kamarabloch, de Arnaldo Bloch, dedicado à sua família, ligada à história do grupo Bloch, responsável pela revista Manchete e pela TV Manchete.

No entanto, diante dos problemas financeiros do grupo empresarial, que entrou em colapso depois que faleceu o empresário Adolpho Bloch, Arnaldo Bloch, então jornalista emergente, foi trabalhar em O Globo.

Já experiente e escrevendo coluna no Segundo Caderno, Arnaldo escreveu em 2004 um texto muito interessante, sobre o anti-intelectualismo que assola os jovens atuais (e que eu mesmo pude ser testemunha nas minhas informais pesquisas sociais e virtuais). No dia que eu li o texto, não tinha dinheiro para xerox e o copiei manualmente, para leitura posterior. Todavia, o texto aqui apresentado eu copiei da Internet, mesmo.

O ANTI-CABEÇA

Arnaldo Bloch - Segundo Caderno de O Globo, 14 de fevereiro de 2004.

Uma tendência ganha fôlego em nossos dias: o antiintelectualismo. Seu porta-voz, o Anti-cabeça, está em tudo que é lugar, pronto pra lutar por sua ideologia.

O Anti-cabeça é recrutado por uma força invisível ( um deus? um fenômeno natural?), que diz: “ Onde quer que estejas, filho, abomina todo refinamento mental, toda sutileza oratória. Destrói aqueles que elaboram o pensamento complexo e abra as portas para a felicidade simplificadora.”

O Anti-cabeça pode ser ignorante ou culto. Mas nunca será inteligente.

O inteligente inculto, por sua vez, livra-se de ser um Anti-cabeça se estiver consciente de seus limites circunstanciais, e dar-se a liberdade de decidir, sem traumas, desenvolver ou não o intelecto. Mas, se for magoado, será um Anti-cabeça furioso.

Culto ou ignorante (mas sempre ininteligente), o Anti-cabeça odeia o raciocínio sofisticado e acredita que, para existir e imperar, precisa exterminá-lo ou isolá-lo. Não pode haver diálogo entre as duas esferas. O mundo é pequeno demais para caber Cabeça.

O intelectual, na visão do Anti-cabeça, nada tem a contribuir para a construção de uma sociedade melhor. Ele é sempre o Cabeça, pernóstico, mentiroso, delirante, confuso, um chatonildo que opõe-se à simplicidade deste mundo.

O Anti-cabeça vomita diante de uma arte que não seja figurativa ou decorativa. Cospe, mesmo sem ouvir, numa música cuja harmonia (palavra proscrita) seja um tantinho mais intrincada.

Acredita que a vanguarda não existe, que é sempre um embuste, e ignora interdependência/intercâmbio/processo que envolvam clássico e novo.

O Anti-cabeça pronuncia a palavra “intelectual” como se fosse um palavrão. Ou então, como se tal ser ( “o intelectual” ) não existisse na realidade, fosse invariavelmente um picareta, sujeito deletério, um sofisma ambulante, uma praga subversiva.

O Anti-cabeça dorme na platitude e acorda no banal. Acredita que o medíocre será vencedor. À noite, sonha com a uniformização de tudo num grande show que não pode parar para pensar, que transforme as vidas num zumbido permanente e alegre. Nesse show não há lugar para a expressão da tristeza, da melancolia, da angústia como formas válidas: estes são sentimentos para se extirpar do coração antes de chegar à garganta e à voz, que devemos guardar nos nossos peitos, não encher o saco dos bons e simples com roupa suja existencial.

A existência, por sinal, não é uma questão a ser pensada ou exposta, crê o Anti-cabeça. A existência apenas “é”. E ponto – porque se forem reticências a coisa já fica muito complexa. Toda a filosofia está enterrada nesta afirmativa, podemos bailar e rir. É tão fácil ser feliz!!! Só o cabeça com a sua carranca, é que não vê.

O objetivo final do Anti-cabeça é exterminar o Cabeça, que tem um poder de comunicação imediata menor e pode encontrar dificuldades em defender sua dignidade e sua honra.

O Anti-cabeça segrega, procura criar uma nova classe de degenerados, de inúteis, de incompreensíveis masturbadores mentais que nada têm a ver com o senso comum e, portanto, não devem ser levados a sério. O mundo será melhor, mais direto, mais claro, mais divertido e colorido sem eles pra perturbar. Que fiquem encastelados em seus átrios abafados e cheios de teias de aranha.

O cronista, que não é um Anti-cabeça, prescinde de declarar-se, entretanto, um intelectual. Mas saúda os Cabeças e os simples com toda a humildade.

Um comentário:

Bruna disse...

Que crônica perfeita!

Há tempos venho percebendo que quando alguém tenta incitar uma reflexão sobre alguma coisa, ou criticar qualquer coisa, as pessoas medíocres, que se sentem ameaçadas com tal reflexão, vão logo te chamando de "intelectualzinho". E o Arnaldo comprovou justamente isso, dizendo que "intelectual" virou um palavrão.

Posso pôr esse texto em meu blog?

Obrigada.