terça-feira, 18 de maio de 2010

TRINTA ANOS SEM IAN CURTIS


Em 18 de maio de 1980, o cantor Ian Curtis foi encontrado morto em sua casa, no bairro de Macclesfield, em Manchester. Tinha 24 anos incompletos e era vocalista de um conjunto promissor, Joy Division.

A trágica trajetória de Curtis mostra que o Joy Division pouco tem a ver com o que o nome sugere, “divisão da diversão”. Este nome, aliás, tem origem punk, quando o então conjunto Warsaw, que atuava no cenário alternativo de Manchester, teve que mudar seu nome para Joy Division, por causa da existência de uma outra banda chamada Warsaw (Varsóvia, em inglês).

Manchester é a famosa cidade industrial inglesa de ambiente então sombrio, tedioso, cuja fama na música girava em torno de Herman’s Hermits, The Hollies e o progressivo Van Der Graaf Generator. Em 1977, os Buzzcocks se tornaram a banda de maior repercussão, e o Fall também honrava a fama da cidade com seu som mais para pós-punk do que punk propriamente dito. O Warsaw, grupo de Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris, fazia um punk mais melancólico e agressivo, mas não chegava a ser hardcore. Note-se uma curiosidade, em algumas canções do então Warsaw, o guitarrista Sumner fazia vocais de apoio, sem imaginar que ele seria um líder de banda anos depois. Bernard tocava guitarra de maneira agressiva, com o som distorcido e cru, acompanhado pelo baixo de Hook – um baixista que toca como se fosse guitarrista – e a bateria de Morris. Às vezes o próprio Curtis fazia a segunda guitarra.

Como Joy Division, o grupo passou do punk para aquilo que se chama cold wave. A cold wave, assim como a no wave (aqui o principal expoente é o Public Image Limited de John Lydon), são uma resposta à alegria juvenil da new wave. A cold wave era melancólica, sem o glamur do pós-punk gótico (Siouxsie & The Banshees, Bauhaus), nem à raiva da no wave cética. O Joy Division passou a ter como influências o Kraftwerk, mais The Doors e o Velvet Underground da música “All Tomorrow’s Parties”.

Outra nota: nos discos do Joy Division, as letras, assim como as músicas, são creditadas a toda a banda. No entanto, as letras demonstram, pela abordagem e estilo, serem de autoria de Ian Curtis, tradicionalmente reconhecida. Conta-se que a informação “words and music by Joy Division” impressa nos encartes é apenas uma forma de evitar alarde.

Críticas sociais, melancolia, evocação a temas como as rádios livres, o universo temático de Curtis é peculiar dentro do que se fazia de punk ou pós-punk. Ele criticava sobretudo a opressão, vide “Leaders of men”, dos tempos de Warsaw, e “Atrocity Exhibition”, com as batidas “tribais” de Morris e a guitarra “serra elétrica” de Sumner, mais o baixo ágil de Hook ambientando o vocal cavernoso de Ian Curtis. Esta música é faixa do segundo álbum, Closer, mais melancólico do que o álbum anterior, Unknown Pleasures, de 1979. Closer foi lançado no início de maio de 1980, e embora tenha sido lançado antes do suicídio de Curtis, tem um clima de “álbum póstumo”, pois Curtis morreu antes do álbum ser divulgado em concertos e outras atividades. Falando em divulgação, humilhante foi o tratamento da Rede Transamérica, no período em que atuou como dublê de “rádio rock”, ao Joy Division, reduzindo a trajetória do grupo a uma perguntinha de game show, desses bem animados. E isso em 1995, quinze anos depois da morte de Ian.

A morte de Ian Curtis parece um mistério. Conta a viúva do vocalista, Deborah Curtis, que ele estava entediado com o casamento e tinha uma amante. Ela divulgou essas informações num livro a respeito do músico, lançado em 1995. Outras informações falam de uma aversão de Curtis ao “sucesso”, o medo dele assumir a turnê nos EUA e se expor a um risco de massificação. Mas haverá sempre hipóteses “prováveis”, o real motivo só Curtis mesmo sabe de seu suicídio, ocorrido há 20 anos, em 18 de maio de 1980, quando ele se enforcou depois de ver um filme do cineasta alemão Werner Herzog. Era um final-de-semana, tradicionalmente festivo, naquela época trágico em Manchester. Era o desfecho funesto de uma banda que nada tinha a ver com festa, com alegria ou fantasia.

Curiosamente é que das cinzas do JD surgiu uma banda que assumiria por vezes influências da dance music, o New Order. O reservado Bernard Sumner, que estava atuando como um discreto guitarrista do Joy Division, virou vocalista da “nova ordem”, e como guitarrista perdeu um pouco de seu desempenho, abandonando os solos agressivos, largando a distorção (só retomada em algumas faixas, como “Age of Consent”) e por vezes compartilhando os teclados junto com Gillian Gilbert e Peter Hook, com Stephen Morris fazendo a bateria eletrônica. À primeira vista o New Order parece “alegrinho”, “ingênuo”, mas isso é impressão. É apenas uma forma de esquecer o trauma da morte de Ian Curtis, cuja coleção de discos de Kraftwerk foi de muita serventia para a banda que surgiu depois do fim do Joy Division.

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