segunda-feira, 24 de maio de 2010

POR QUE A IMPRENSA ESCRITA DE ESQUERDA CORTEJA A IDEOLOGIA BREGA?



Por que será que a imprensa escrita de esquerda corteja a "cultura" brega? O que leva um setor da imprensa escrita, capaz de assumir uma postura esquerdista até mesmo diante de situações políticas no Oriente Médio e na África, onde aparentemente não entram em jogo as causas socialistas, mas no plano cultural chegam até mesmo a adotar o mesmo discurso pró-brega da imprensa golpista?

Em outros tempos, não era assim, a música de mercado - que é o que realmente é a música brega-popularesca, mesmo os supostos fenômenos "independentes" como o forró-brega, o tecnobrega e o "funk" - era questionada pelos jornalistas de esquerda, a desconfiar de toda uma demagogia que faz esses ídolos supostas vítimas de preconceito e exclusão social.

Afinal, que "mídia pequena" é o forró-brega e o tecnobrega, com toda a superestrutura que possui? Vemos o forró-brega e o tecnobrega, com suas apresentações superproduzidas, seus cantores supermaquiados, seus inúmeros dançarinos, sua equipagem sofisticada, seu poderoso lobby nas rádios, seu esquema de jabaculê.

Vemos que todos os ritmos do brega-popularesco, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, historicamente, sempre contaram com o patrocínio explícito e entusiasmado das oligarquias locais. Sempre. Essa conversa de que são "os excluídos" que tomam iniciativa no negócio é balela. Mesmo as gravadoras "independentes" que sobretudo aparecem no Pará e na Bahia são sustentadas por grandes empresários locais, que também são proprietários de terras, ou até mesmo pela lavagem de dinheiro de políticos regionais.

A Banda Calypso, por exemplo, sempre teve a carreira sustentada pelas oligarquias do Pará, possuem um bom empresário por trás, sem falar que boa parte do sucesso nacional que o grupo alcançou foi por conta das transações do empresariado local e da Rede Globo de Televisão. Vão os talifãs quererem desmentir essa realidade? Não há como, na hora do aperto eles vão ter que se esconder nas guaritas do Projac, ou nas calças dos irmãos Marinho!

É só ver todos os primeiros festivais que participam grupos de forró-brega e tecnobrega, e verá, entre os patrocinadores, empresas de eventos (ligadas às elites locais), deputados e vereadores locais, emissoras de rádios locais (ligadas a grupos oligárquicos) e emissoras de TV locais (que representam grandes redes de TV e também são ligadas a grupos oligárquicos). E as redes de eletrodomésticos, de atacado e de varejo também são responsáveis diretas pelo sucesso desses ídolos, e não a iniciativa "independente" nem o "sucesso repentino" que os etnocêntricos intelectuais do popularesco tanto alardeiam.

O fato dessa realidade não ser enxergada pela imprensa esquerdista é lamentável. Logo no âmbito da cultura os jornalistas de esquerda deixam seus questionamentos de lado, vão para a primeira danceteria a seu acesso e a primeira coisa que ouvem atribuem a uma suposta expressão da periferia. E usam um discurso falsamente sociológico, falsamente militante, que seria meramente delirante se não fosse tão sedutor e demagógico.

Será que alguns jornalistas ou intelectuais foram contaminados pela mentalidade torta do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, que tiveram Bia Abramo e Pedro Alexandre Sanches nos seus quadros? Faz sentido eles exportarem para a mídia esquerdista o que eles aprenderam sob a batuta do sr. Otávio Frias Filho?

Faz sentido eles defenderem, nas páginas esquerdistas, aquilo que é exaltado por Fausto Silva, Ana Maria Braga, Raul Gil, Gugu Liberato e até Ratinho? Faz sentido eles exaltarem hoje o que será exaltado amanhã pelo Jornal da Globo?

A indústria do forró-brega/tecnobrega repetirá o mesmo lero-lero da axé-music, que nos anos 90 também usou a retórica "etnográfica" e "militante" (com toda a choradeira em relação ao "preconceito") e hoje ela exibe seu esquema milionário e megalomaníaco. Também houve o lero-lero do "funk carioca", que usou do mesmo discurso para construir seu império. E agora será a mesma farsa adotada pelo forró-brega/tecnobrega, sob o lamentável consentimento da mídia de esquerda.

O que eles sabem de folclore, acomodados em seus apartamentos confortáveis na Zona Sul de São Paulo? Será que eles desconhecem que as mesmas elites que historicamente dizimavam agricultores e até seringueiros e missionárias que combatessem o latifúndio são as que investiram há décadas na degradação cultural brasileira que se tornou a ideologia brega?

A ideologia brega é uma ideologia que transforma o povo pobre numa manada de patéticos miseráveis vestindo a fantasia pop, tal qual os ídolos dominados pelos colonizadores eram forçados a deixar suas tradições culturais em prol de uma educação católica-medieval que impõe os valores do dominador.

Na ideologia brega, o povo é jogado ao subemprego, ao alcoolismo, à prostituição, ao comércio clandestino. Enfim, a um baixo padrão de vida. E os "valores culturais" que esse povo supostamente defende são veiculados por rádios FM locais, controladas por grupos oligárquicos regionais, e por emissoras de TV aberta idem.

Menosprezar tudo isso é fazer um péssimo desserviço para a informação. É deixar os intelectuais brasileiros numa posição vergonhosa, limitados eles a uma abordagem acrítica e meramente descritiva.

Por isso é que a mídia reacionária esnoba tanto a abordagem cultural da mídia de esquerda.

3 comentários:

O Kylocyclo disse...

A mídia de esquerda tira de letra quando o assunto é política.

Mas porque cargas d'água consegue identificar neoliberalismo na política de Israel, ou em qualquer vírgula de um artigo de Arnaldo Jabor, mas não consegue enxergar o coronelismo que está por trás do forró-brega e do tecnobrega?

Lucas Rocha disse...

Alexandre, se em setembro de 2017, fizessem, lá em Manaus, uma nova "passeata dos cem mil" contra o tecnobrega e a "calcinha music", será que, até lá, o primeiro ritmo já vai ter construído seu próprio mercado imperialista nacional, desde o topo do Monte Caburaí até o Arroio Chuí?

Bleffe disse...

Participe da campanha "Música em troca de Fraldas", que visa ajudar às crianças desabrigadas pelas chuvas no RJ:

Música em troca de Fraldas