segunda-feira, 10 de maio de 2010

PARA LEMBRAR O CASO DA ORDEM DOS MÚSICOS DO BRASIL


AS PUSSYCAT DOLLS ERAM UMA CANTORA E VÁRIAS DANÇARINAS, MAS A MÍDIA A DEFINIA COMO "BANDA": ISSO É TÃO RUIM PARA OS MÚSICOS QUANTO O AUTORITARISMO DE WILSON SÂNDOLI NA OMB.

Este texto escrevi há alguns anos, mas vale lembrar dele quando algumas pessoas insistirem em chamar grupos sem instrumentistas como "bandas".

É sintomático da esquerda brasileira, viciada em velhos estigmas. Assim como os esquerdistas brasileiros se esquecem que as armadilhas da direita são muito mais sutis e traiçoeiras, e se limitam a reconhecer apenas velhas armadilhas oriundas de um capitalismo sisudo e ortodoxo. Ninguém percebe que o capitalismo pode manipular as pessoas no ramo da cultura, e, se alguém reconhece essa manipulação, se limita a vê-la a partir da matéria bruta dos panfletos e mensagens jornalísticas.

Por isso, vemos a visão viciada de pensar a direita como se ela fosse algo imutável. Muitos ainda pensam o jabaculê ainda no contexto de 1984. A visão crítica sobre a imprensa, para muitos, ainda se congelou na tríade Globo/SBT/Estadão, ignorando a escalada da Bandeirantes ao poder pelo rádio FM. E ninguém imagina que o "funk" carioca é uma armação da Rede Globo tão grave quanto os históricos casos Proconsult (que adulterou as pesquisas para o governo carioca, tentando desfavorecer o favorito Leonel Brizola, em 1982) e a famosa eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989. Mesmo gente dotada de alguma inteligência, mesmo vendo a escancarada campanha da Rede Globo em torno do "funk", ainda acredita que o ritmo está longe do establishment e que ainda não faz sucesso. Isso é o mesmo que dar o Prêmio Nobel de Física ao coelhinho da Páscoa pelo "simples" fato do coelho, normalmente um mamífero, botar ovos de chocolate.

Enquanto condenam a campanha da revista Veja contra os agricultores sem-terra, condenação justa e indispensável, os esquerdistas no entanto não percebem que a direita latifundiária não envia somente pistoleiros para desmoralizar os trabalhadores rurais, mas arma de Zezé Di Camargo & Luciano para explorar o estereótipo do homem rural, enfraquecendo a cultura caipira que pode desaparecer do país. Ou seja, golpear os trabalhadores rurais pela cultura, que é sua expressão espiritual, garantindo assim o poderio dos latifundiários que tanto respaldaram os dois filhos de Francisco Camargo.

Caso semelhante ocorre com a classe dos músicos brasileiros. Há o episódio da Ordem dos Músicos do Brasil, que explicaremos a seguir, que tem o problema de ser comandado há 43 anos pelo mesmo interventor, o advogado Wilson Sândoli, nomeado pela ditadura militar. Os músicos certamente têm uma luta muito justa para banir os abusos de poder desta gestão e condenar os atos da mesma, mas eles ignoram uma armadilha da grande mídia que igualmente desmoraliza a classe: o mito das "bandas sem instrumentistas".

A GESTÃO AUTORITÁRIA DA ORDEM DOS MÚSICOS DO BRASIL

A Ordem dos Músicos do Brasil deveria ser uma entidade com atribuições similares à Ordem dos Advogados do Brasil. A entidade, no entanto, apresenta sérias distorções na sua administração. Por exemplo, para quem quiser se filiar à OMB, não precisa ter formação musical nem ter certificado de que fez algum curso em um conservatório ou universidade. No entanto, tornando-se filiado, há a obrigação de pagar as mensalidades e a filiação é obrigatória, contrariando a lei, que permite a livre escolha tanto para se associar quanto para se desligar de uma entidade representativa.

A "indústria das carteiras" é uma das principais queixas dos músicos profissionais, porque está depreciando a categoria, na medida em que músicos sem qualquer formação podem obter a carteira da OMB. Desempregados de outras áreas, que nada têm a ver com música, estão fazendo bico em bares e boates apenas porque sabem memorizar, com violão e teclado, alguns acordes musicais, sem no entanto saber sobre teoria musical, partituras ou mesmo discernimento quanto às tendências musicais.

O abuso de poder de Wilson Sândoli através do acúmulo de cargos e de seus artifícios para a permanência no poder, assim como o superfaturamento de contratos de artistas internacionais, ao lado do faturamento ilícito pelas carteiras de músicos filiados, faz com que a classe dos músicos, com muita razão, partisse para uma luta justa pelos reais direitos da categoria. A mobilização contra a OMB apenas se divide em duas correntes: uma pedindo a extinção da entidade, outra pedindo a sua reformulação.

O grande problema é que, vendo algumas armadilhas, não se vê outras, externas à OMB, mas que podem prejudicar igualmente a categoria dos músicos.

O MITO DAS "BANDAS SEM MÚSICOS"

É como deixar de enxergar a armadilha de um buraco camuflado. Os músicos estão corretos em lutar contra a gestão abusiva de Sândoli, mas devem tomar cuidado com outro fenômeno que pode desmoralizar a classe musical.

Trata-se do mito das "bandas sem instrumentistas", tão grave quanto os abusos da OMB. Surgida de uma interpretação errada do termo "band" relativo a boys bands, a armação, que contagiou até veículos da mídia roqueira e livros de temas badalados, transformou em epidemia o já galopante emburrecimento musical que atinge, no Brasil, níveis alarmantes. O fenômeno se refere à onda de grupos de pop descartável para adolescentes cujos integrantes apenas cantam (ou parecem cantar) e não tocam um instrumento sequer, nem caixa de fósforos.

O autor deste texto, quando participava do Orkut, se associou a uma comunidade da Ordem dos Músicos do Brasil. Buscando divulgar outra comunidade, "Banda tem que ter instrumentista", pôs uma mensagem convidando os membros da comunidade da OMB (na maioria, pessoas descontentes com os rumos da entidade) para participarem. Ninguém aderiu.

Só para se ter uma idéia da gravidade da coisa, band, no que diz a boys bands, teve o significado em português escolhido errado. Band significa "banda", mas também significa "bando", "turma". O documentário Band Of Brothers, produzido por Tom Hanks e Steven Spielberg, não fala sobre música e o título nunca iria se referir a "banda de irmãos", mas a "turma de irmãos". Mas os equívocos vieram assim mesmo. A Roadie Crew, numa resenha de discos, foi infeliz se referindo ao Menudo - que se tornou referência jocosa a um grupo de rock "engraçadinho" - como se fosse uma banda, sem aspas. O escritor Antônio Carlos Cabrera, autor dos livros Mofolândia e Almanaque da Música Brega comete erros piores. No primeiro livro, ele erra feio quando batiza um capítulo de "Bandas de garotos" e dedica-se a essas "bandas" sem músico algum e sem sequer um compositor entre seus membros. No segundo, chama o grupo Ciclone de "banda", ignorando que o grupo, que fez sucesso em 1985 com apenas uma música, "Do tipo One Way", não fazia coisa alguma a não ser fazer um coro sofrível e interpretar músicas de seus produtores. Chamar grupos assim de "bandas" é uma grande demonstração de desserviço para seus leitores.

Embora haja antecedentes mais antigos, a onda, como conhecemos, havia começado nos anos 80 com Menudo e depois New Kids On The Block e Take That. No Brasil, vieram então o Dominó e seus clones, como o citado Ciclone. Nos anos 90 é que veio a confusão, e aí os "bandos de garotos" viraram "bandas" por um simples capricho de colóquio pseudo-roqueiro dos DJs de dance music. Como se sabe, a gíria roqueira tinha por hábito chamar cantores e grupos de "bandas", genericamente. Mas isso tinha uma razão: no rock, mesmo os cantores solo tinham uma banda por trás. Ozzy Osbourne tem uma banda lhe acompanhando. Morrissey também. Mas no pop dançante, isso não ocorre.

No pop dançante, quase não existem bandas. Só antes dos anos 80 é que se ouvia falar em verdadeiras bandas de pop dançante, mas a tecnologia permitiu que hoje haja grupos em que há apenas um DJ e vários vocalistas-dançarinos.

No caso das boys bands - na verdade, "turmas de garotos" - , vieram grupos como Backstreet Boys, N'Sync, Boyzone, entre tantos outros. No ramo feminino, as girl bands - na verdade, "turmas de garotas" - vieram com Spice Girls, All Saints e mais recentemente Pussycat Dolls e Girls Aloud. Principalmente as Pussycat Dolls, às quais virou vício a imprensa brasileira referir as garotas como uma "banda". Com um agravante de que é praticamente uma vocalista e um coro, que fica ocioso a maior parte do tempo.

MÚSICOS VÃO "DANÇAR"

A maior desvantagem disso tudo é o "reconhecimento popular", motivado pela mídia, dessas "bandas" sem instrumentistas e às vezes sem compositores. Pouco importa se, desfeito o grupo, tardiamente seus integrantes passam a ser compositores e instrumentistas, porque aí é outra trajetória.

Isso vai desestimular as pessoas a se tornarem músicos. Afinal, "ser músico" também é apenas "dançar e cantar". Já não basta o papelão que se fez com a palavra "artista", quando qualquer um que aparece na mídia, mesmo sem ter o que fazer, recebe este nome?

O que será daqueles que, para serem músicos, preferem ensaiar seus instrumentos e estudar composição pra valer, se prevalecer aquela visão de que, para "ser músico", basta apenas caprichar no guarda-roupa, no visual e dançar e cantar (e, muitas vezes, cantar muito mal, porque para qualquer problema, há o Pro-Tools para "arrumar" a voz)? Certamente a caravana dos verdadeiros músicos passará adiante no seu caminho, apesar dos latidos da mídia.

Voltando à Ordem dos Músicos do Brasil: certamente os músicos não ligarão para boys bands e derivados porque acham que isso é piada adolescente. Mas o problema é que os adolescentes crescem e sua burrice ganha um verniz de "inteligência", de algo impositivo. E, dependendo dos arrogantes aborrecentes, eles, crescidos, são capazes de resolver a situação no braço, em defesa dos "dotes musicais" (?) das Pussycat Dolls. E será mais uma noite tranqüila para Wilson Sândoli, que dormirá feliz ao som delas, do Menudo e dos Backstreet Boys.

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