domingo, 16 de maio de 2010

PARA CERTOS INTELECTUAIS, "POVO" SÃO MESMO OS DISC-JÓQUEIS E PROGRAMADORES DE RÁDIO



A quem interessa o juízo etnocêntrico de intelectuais de classe média alta que, fazendo defesas engenhosas da música brega-popularesca, tentam promovê-la como se fosse a mais nova rebelião popular do nosso país?

Acham que, por umas visitas a danceterias de subúrbios, a camelôs nas ruas, podem dar uma definitiva visão do que é "a verdadeira cultura popular", praticamente desconecendo as armadilhas da indústria cultural.

Residentes em apartamentos confortáveis, eles pelo menos deveriam ser mais sinceros no seu julgamento elitista sobre o que é povo, em vez de creditar como um suposto folclore o establishment da música comercial de caráter nacional ou regional.

A visão etnocêntrica e os argumentos ao mesmo tempo engenhosos e delirantes - no meio do caminho até Malcolm McLaren (!) é usado para explicar o fenômeno do forró-brega, por exemplo - , caprichando no marketing da rejeição (que aposta na risível tese de que um artista é bom quanto mais ele for rejeitado pela crítica), tornaram-se a visão oficial da cultura popular, supostamente fiel à realidade do povo, mas cheia de falhas e contradições.

É só ler os artigos que gente como Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo, Hermano Vianna, Milton Moura, Paulo César Araújo, Rodrigo Faour e outros escrevem sobre a música brega-popularesca para vermos uma série de falhas, de envergonhar gerações e gerações de intelectuais do Primeiro Mundo, que nunca estudariam os fenômenos da música comercial local de forma meramente descritiva e apologética.

Em primeiro lugar, todos eles entram em contradição quando tentam creditar as tendências bregas e neo-bregas, presentes no hit-parade de suas regiões ou mesmo do "paradão" nacional, como se fossem fenômenos "emergentes" que nunca fizeram sucesso.

Em segundo lugar, é a ideia que eles têm de que grande mídia, grandes centros e grande sucesso se limita ao eixo Rio-São Paulo (sobretudo São Paulo), como se o Brasil só faz sentido se aparecer na Avenida Paulista. É o princípio do "paulistocentrismo", aqui questionado.

Em terceiro lugar, eles desprezam, ou simplesmente se recusam a reconhecer quem patrocina, investe ou, não obstante, sustenta ou controla esses grupos de "música popular" que aparecem em veículos tipo Central da Periferia, Sexo MPB ou nos artigos musicais tendenciosos de Caros Amigos e da Revista Fórum.

Mal sabem, por exemplo, que praticamente todos os estilos popularescos do Norte e do Centro-Oeste - breganejo, "sertanejo universitário", tecnobrega, forró-brega - são financiados pelo mesmo poder latifundiário e midiático que persegue e mata os manifestantes sem-terra e todos aqueles que afrontam o poder coronelista dessas regiões, que têm nas capitais de seus Estados a vitrine para seu poderio político e econômico.

Da forma que argumentam a "cultura popular", a impressão que se tem é que, para intelectuais como Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, o conceito de povo é apenas um pouco mais generoso do que o parodiado por Chico Anysio através do personagem Justo Veríssimo.

Para eles, o "povo" são mesmo os programadores de rádio e TV, e os disc-jóqueis de FMs e casas noturnas, porque são eles que, na verdade, estabelecem os "referenciais" que eles entendem como a "verdadeira música popular brasileira".

Coitados dos brasileiros, que não tiveram um cenário intelectual fértil, dotado de análises críticas quanto à cultura de massa e a indústria cultural, sobretudo nos EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha. Mesmo que as ideias de cultura de massa, indústria cultural e até da "teoria hipodérmica" (corrente da Teoria da Comunicação que trata a mídia como um manipulador irreversível, diante de um público radicalmente passivo) sejam discutíveis, mesmo assim isso não permitia que as análises sobre fenômenos de massa se limitassem a uma apreciação descritiva e apologética.

E olha que essas discussões, nesses países, aconteceram, pelo menos, desde a primeira metade dos anos 20, quando a cultura de massa ainda era relativamente crescente (as redes de rádio e a indústria fonográfica haviam surgido na década anterior). No Brasil, onde a cultura de massa definiu suas caraterísticas na década de 1960, as discussões, salvo honrosas exceções, foram estéreis e passivas.

Mas, a julgar pelo etnocentrismo que transforma as classes populares em receptores passivos dos sucessos do brega-popularesco, em meros consumidores da música brega-popularesca que seus ídolos, patrocinados pelo empresariado do entretenimento, executam, chega-se a conclusão mesmo de que, na visão míope dessa intelectualidade "tão boazinha", quem conduz mesmo a cultura popular são uma minoria de programadores e DJs que selecionam o que deve ser curtido em dada época. Seja "rebolation", tecnobrega, "sertanejo universitário" ou os velhos breganejo, sambrega, axé-music, brega setentista e outras tendências da Música de Cabresto Brasileira.

E pobres do Antônio Conselheiro, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Hélio Oiticica, Jackson do Pandeiro, Tom Jobim e outros que forem usados indevidamente para sustentar a retórica demagoga desses intelectuais.

Um comentário:

Edilson Trekking disse...

E na Exposição Agropecuária de Dourados MS se apresentou uma dupla de breganejo e a "banda" dejavu, só que não se sabe qual dejavu, já que existem 11 com o mesmo nome. E também haverá apresentação de várias duplas durante a semana. Essa é mais uma prova do apoio do Agronegócio ao brega-popularesco.
Alguns jornalistas e blogueiros desinformados ou mal-intencionados comentaram com tanto orgulho que parecia que tinha vindo a banda U2 prá fronteira.