sexta-feira, 14 de maio de 2010

O MACHISMO E O MEDO



Nos últimos anos, o machismo vive num clima de medo. Muito medo.

Não se fala do "destemido" machismo criminoso e vingativo que, a curto prazo, transforma as mulheres em cadáveres e, a médio e longo prazo (mas, não obstante, a curto prazo também) os próprios machistas em pessoas de altíssima vulnerabilidade para doenças graves ou para a insegurança nas ruas. Fala-se do machismo "dócil" e "simpático", que consegue convencer as pessoas de seus valores "tradicionais" tão fora do nosso tempo, mas praticados silenciosamente por muita gente.

É o machismo que determina que os homens sejam valorizados na sua capacidade de comando, através do poder financeiro, que lhes permite ter o privilégio decisório em muitas situações. É o machismo que determina que as mulheres optem pela reginada inferioridade na escravidão doméstica-religiosa, ou para servirem ao recreio sexual dos machos, vendendo seus corpos para a indústria do entretenimento.

Pois não é que, no Brasil, os dois entes-padrão da sociedade machista, o macho-líder e a mulher-escrava, antes modelo de casal indissociável nas sociedades conservadoras, passaram a se evitarem um ao outro, como se sentissem uma repugnância mútua.

O macho-líder, sem evoluir-se na sua personalidade sisuda, passou a se cercar de mulheres que são o oposto do que exigia a cartilha machista. Mulheres de personalidade forte, comunicativas, inteligentes, com ótimos referenciais culturais, passaram a se tornar esposas desses homens. É como se eles, vendo seu barco prestes a afundar, têm que embarcar noutro que antes não era de sua estima para não ficarem à deriva.

Por outro lado, as musas-crias do machismo, as escravas-do-lar que se converteram em "marias-coitadas", e as escravas-do-sexo que se converteram nas "popozudas" em geral, passaram a viver numa solidão ao mesmo tempo irremediável e suspeita. E, assim como o macho-líder, hoje convertido em profissionais liberais e empresários sisudos, procurou mulheres de perfil interessante para se casarem, as "marias-coitadas" e "popozudas" procuram homens que, embora esteticamente sejam inferiores ao padrão, sejam dotados de uma personalidade diferenciada. Só que, do contrário dos machos-líderes, que conseguiram o que queriam, as modernas musas-crias do machismo não conseguiram os homens que desejavam.

É claro que esse desejo por cônjuges diferenciados não é fruto de um novo sentimento humanitário ou conscientizado dos dois entes da ideologia machista. Antes é uma forma de sobrevivência sócio-cultural e sócio-econômica ante aos avanços da sociedade.

As pressões do empreendedorismo e de outros novos conceitos na teoria da Administração fazem com que o macho-líder convertido num "terno-e-gravata falante", espécie de versão contemporânea dos antigos condes e viscondes do Segundo Império, os fazem buscar uma fachada conjugal-familiar moderna.

Daí que o macho-líder, talvez pesquisando as revistas femininas e conhecendo o que pensa a mulher contemporânea, a veja como um modelo de esposa que ele, por sua espontânea vontade, não tem a menor necessidade em desposar, mas é induzido a desposar de qualquer maneira porque é essa mulher que será o trampolim para o marido no mundo dos negócios. Pois um executivo, empresário, médico, advogado ou engenheiro que tenha uma importante mulher ao seu lado tem mais chances de estabelecer contatos mais influentes para sua ascensão sócio-econômica.

Por outro lado, as musas-crias do machismo parece que pararam no tempo, em que pese elas também quererem se passar por "modernas". As "marias-coitadas" pararam na infância, brincando com seus afilhados, tentando reproduzir no contexto da solteirice a vida das jovens esposas nobres do patriarcalismo rural. Só que, em vez de filhos, afilhados e sobrinhos. E, em vez de poesia, as novelas da TV, breguice romântica (Fábio Jr., Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano), o Big Brother Brasil, as revistas de fofocas.

As "popozudas", por sua vez, pararam na adolescência. Esnobes, arrogantes, traiçoeiras, exibidas, viciadas em noitadas, numa sensualidade barata e forçada, seja pelo físico quase roliço de glúteos enormes, seja pelas roupas em cores aberrantes e cheias de adereços. Elas até criaram um subproduto mais light, as "marias-bobeiras", que fisicamente não são tão exageradas e no comportamento são menos exibidas, mas não deixam de ser astutas nem arrogantes ou esnobes.

Em comum, as "marias-coitadas" e as "popozudas" (e as "marias-bobeiras" entre umas e outras) tentam recusar pretendentes que são justamente o que elas querem ou foram educadas a querer: homens robustos que, dentro de seus ambientes sociais, representam grande status social e símbolos de uma masculinidade influente.

A razão mais provável desta recusa é a pretensão dessas mulheres em parecer independentes, da mesma forma que a aparente afeição por homens com menos status social é uma forma de dar a impressão de que elas não são exigentes nem interesseiras, desejando homens que pareçam menos capazes de sustentá-las ou dominá-las. E a desculpa mais comum para essa "nova posição" é a tão surrada alegação da "falta de preconceitos".

Também tem a questão delas em evitar com que, se casando com homens de grande status estético ou econômico, elas fossem acusadas de "golpe do baú" ou de se sujeitarem ao protecionismo do macho mais robusto. O que comprometeria a busca pela suposta imagem de "independentes" que essas mulheres buscam, reputação tão falsa porque, não raro, há o sustento de mães, irmãos mais velhos nas vidas dessas moças.

MEDO - Tanto nos dois casos, do macho que exerce posições de liderança e da fêmea que exerce posição de escravidão doméstica ou sexual, há o medo de parecerem deslocados, antiquados e repulsivos.

A ideologia machista, que durante décadas dominou por um lado subúrbios e zonas rurais e, por outro, influiu nas aristocracias mais tradicionais, de repente caiu em descrédito e seus antigos adeptos tentam uma aparente mudança de posição que não é uma opção pessoal, mas uma escolha tendenciosa, visando a sobrevivência pessoal e mesmo a ascensão social em novos contextos.

Mas isso mostra também que há todo um desejo de fuga. O machismo tradicional não mais deslumbra as pessoas e causa grande rejeição na opinião pública. Por isso, os homens machistas correm atrás de parceiras que disfarcem o machismo de seus maridos, cuja sisudez já causa constrangimento até nos colunistas sociais.

E as mulheres machistas correm atrás de parceiros que não pareçam tão fortes nem ricos, mas inteligentes, para dar a impressão de que essas mulheres não precisam ser sustentadas nem protegidas. Qualquer probleminha, elas recorrem às suas mães ou aos irmãos mais velhos.

Só que esse teatro pós-machista ainda vai mostrar seu desfecho e reunir novamente os homens-líderes e as mulheres-escravas que mal conseguem disfarçar seu caráter retrógrado em perspectivas pretensamente modernas.

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