sexta-feira, 14 de maio de 2010

NÃO SE FAZ MÍDIA DE ESQUERDA COM BREGA-POPULARESCO



Grande erro da mídia de esquerda. Contrata certos jornalistas ou ativistas que pensam que o brega-popularesco é uma rebelião popular e montam uma retórica convincente que seduz a todos.

É aquela coisa. O cara vai para uma danceteria de subúrbio ou circula entre camelôs e acha que qualquer coisa que rola lá é "a verdadeira cultura popular". Aí cria um discurso delirante que envolve tudo: Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Malcolm McLaren, Hélio Oiticica, Luís Carlos Prestes e o escambau.

É essa retórica que fez o "funk carioca" (FAVELA BASS) a maior fraude musical realizada nos últimos anos no Brasil. Só que o rico discurso, que tentava fazer uma comparação surreal do "funk" com os mais diversos fatos históricos e culturais do Brasil, foi desmoronado pela simples execução dos CDs e pela simples observação de suas apresentações ao vivo, em ambos os casos de uma ruindade de doer, de um grotesco que constrange até mesmo as mentes mais liberais (não nos esqueçamos que até a moderna Elke Maravilha se sentiu constrangida com o "funk carioca").

A mídia de esquerda faz bonito quando os questionamentos envolvem fatos politicos. Até mesmo em relação ao Oriente Médio a mídia esquerdista adota uma posição, no caso em favor dos palestinos, enquanto atribui Israel a uma nação manipulada pelos interesses imperialistas dos EUA.

Mas, no ramo da cultura, o fato estarrecedor é que neste caso o discurso que vimos na revista Fórum e na Caros Amigos se afina, completamente e com todas as palavras, com o que o Segundo Caderno de O Globo e a Ilustrada da Folha de São Paulo já escrevem sobre o brega-popularesco. Isso é assustador.

Semanas depois do tecnobrega virar capa da esquerdista revista Fórum, a moça da capa, Gabi Amarantos, a "Beyoncé do Pará", apareceu no Domingão do Faustão, da Rede Globo. Antes de toda a retórica "etnográfica" aparecer na Caros Amigos, Brasil de Fato e outros veículos esquerdistas, o "funk carioca" aparecia nas primeiras páginas de SC e Ilustrada com exatamente a mesma retórica, as mesmas alegações, a mesma choradeira de "vítima de preconceito".

De que adianta Pedro Alexandre Sanches, que, para quem não sabe, veio da Folha de São Paulo, fazer na imprensa esquerdista o MESMO DISCURSO que Hermano Vianna, por intermédio de Regina Casé, veiculou na Rede Globo de Televisão?

O brega-popularesco está historicamente ligado às classes dominantes. Daí o nome de Música de Cabresto Brasileira. Ninguém escolhe a música a fazer sucesso, vai um latifundiário e seu "laranja" - geralmente um empresário de entretenimento - montar um grupo de forró-brega e fortunas inteiras são investidas para esse grupelho (que normalmente faz um som subordinado ao pop dançante estrangeiro) fazer sucesso, seja em Belém, Goiânia, São Paulo ou Porto Alegre. Mas também em Niterói, Belo Horizonte ou Florianópolis.

POR QUE A MÍDIA DE ESQUERDA E A MÍDIA DOMINANTE DANÇAM AS MESMAS MÚSICAS?

TODOS os ritmos e tendências da Música de Cabresto Brasileira são financiados, com gosto, pelas elites dominantes. Daí que não tem cabimento a imprensa de esquerda cortejar o brega-popularesco, o mesmo que faz sucesso no programa do Fausto Silva. Se, no ramo político, a mídia de esquerda se diverge energicamente à mídia dominante, por que ambos acabam dançando as mesmas músicas?

É como diz Dioclécio Luz, jornalista e escritor, comprometido com a verdadeira esquerda, não se faz revolução com breganejo e derivados. O breganejo foi o primeiro ritmo da Música de Cabresto Brasileira a fazer sucesso nacional de forma sistemática e organizada, embora só recentemente tenha ingressado com força no mercado fluminense, até pouco tempo atrás hostil aos vaqueiros musicais de mentirinha.

Gilberto Dimenstein baixa o cacete verbal nos professores em protesto. A Caros Amigos vai em socorro deles. Mas, quando o assunto é o "funk carioca", Folha e Caros Amigos usam rigorosamente o mesmo discurso, com a mesma cara-de-pau em querer empurrar o grotesco ritmo para as escolas.

Não dá para fazer um discurso bonito, de que os ídolos popularescos "representam" a população pobre, são "vítimas de preconceito", são "linchados" pela crítica etc, puro discurso do "marketing da exclusão". Você toca o CD do Waldick Soriano e acaba convencido de que ele era ruim, mesmo. Você toca o CD de Michael Sullivan e é uma pieguice de constranger. Você toca o CD de "funk carioca", seja Mr. Catra, Gaiola das Popozudas, Marlboro e o que for, e verá o quanto tudo isso é patético.

A axé-music e sua alegria falsificada é vergonhosa de se ouvir, o Asa de Águia, por exemplo, cheira a mofo até nas canções inéditas. Zezé Di Camargo & Luciano e Alexandre Pires com aquela breguice de luxo também não convencem musicalmente, porque não há a tão alardeada música caipira nos primeiros, nem o tão prometido samba no segundo.

Daí que, ouvindo os CDs e conhecendo realmente quem é que financia, difunde e patrocina o sucesso desses "artistas" dessa cultura popular de mentira, é que qualquer tentativa de apreciação deles vai por água abaixo. Pouco importa se tais ídolos sofreram de fome na infância, dormiram em estação de trem, tiveram irmãos assassinados etc, se a música que eles fazem é ruim.

E de que adianta "perdermos o preconceito" se o que os CDs tocam são muito ruins, se a música que eles apresentam ao vivo machucam nossos ouvidos? Basta usarmos outros artifícios e fingir que eles são uma maravilha? Perderemos o "preconceito" com o sucesso dos ídolos popularescos, mas passaremos a ter preconceito com o nosso prazer, tendo que suportar e fingir gostar de CDs abomináveis só porque seus cantores passaram fome, têm mães doentes, irmãos assassinados etc. Se for por este raciocínio, até Fernandinho Beira-Mar mereceria o Prêmio Nobel da Paz por causa de sua origem pobre.

Isso é uma falta de respeito com a cultura brasileira, um patrimônio que não pode ser privilégio de uns meros lotadores de plateias em micaretas, vaquejadas e "bailes funk".

A cultura envolve transmissão de conhecimentos e de valores. É inútil criticarmos as manobras políticas da direita, se louvamos os cantores e conjuntos musicais patrocinados por essa mesma direita. Como é inútil defender Alexandre Pires, Belo, Vítor & Léo, Banda Calypso, Mr. Catra e baixar a lenha na Rede Globo que tanto ajudou, decisivamente, no sucesso deles.

É preciso passar para a esfera cultural a preocupação crítica contra as manobras da direita, porque os entes políticos já sabem que são odiados. Sejam os políticos do PSDB, sejam os jornalistas associados ao Instituto Millenium. Eles até se satisfazem em ser atacados, enquanto seus capatazes musicais são defendidos nas páginas de Fórum, Caros Amigos, Brasil de Fato e outros.

Mas a verdade é essa: a música brega-popularesca, por mais que pareça associada às populações pobres - mito que no fundo é uma grande farsa - , deve muito às elites que dominam o jogo político e econômico de nosso país. Não fosse José Sarney, ACM, Fernando Collor, Rede Globo, Instituto Millenium, Folha de São Paulo, Veja, Contigo e Caras, o brega-popularesco não teria chegado aos lares da classe média, não teria ganho o verniz de "verdadeira cultura popular", essa mentira descarada que a mídia lança e cuja gravidade poucos percebem.

Mas a mídia golpista, a cada dia, prova cada vez mais que é a maior responsável por essa "cultura popular" que aparece nas rádios e TVs do país. Se a imprensa de esquerda continuar desconhecendo isso, terá sua reputação comprometida ante o público.

O sorriso de um Alexandre Pires, de uma MC Perlla, de um Zezé Di Camargo ou Bell Marques, se reproduz com mais intensidade no de um José Serra, e mais ainda no de Otávio Frias Filho, o inesquecível ex-patrão e mestre de Pedro Alexandre Sanches.

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