sábado, 29 de maio de 2010

NÃO DÁ PARA MISTURAR MPB COM MÚSICA BREGA-POPULARESCA



Para os defensores da Música de Cabresto Brasileira - denominação que lhes causa horror, obviamente - , juntar seus ídolos com a MPB é visto como um "processo lindo" em que pretextos sentimentalistas como a "inclusão social", a "ruptura de preconceitos" e o "reconhecimento de nossa verdadeira diversidade" são evocados tendenciosamente, para jogar os ídolos popularescos no panteão da Música Popular Brasileira, recurso hábil para recuperar ídolos medíocres à beira do ostracismo.

Só que tudo é lindo na teoria, tudo é romanticamente maravilhoso no discurso, "tudo junto e misturado" parece uma frase democrática. Mas não esqueçamos que as forças mais reacionárias são as que mais falam em "democracia", e que, na prática, esse discurso sentimental, de palavras lindas e dóceis, não se efetua na prática.

Talvez beneficiado pelo hábito dos brasileiros em só ouvir música quando estão papeando com os amigos, de preferência bebendo cerveja, ou quando se ocupam em outras atividades, como lavar carro, por exemplo, a música brega-popularesca não pode ser devidamente avaliada em audições mais atentas, tendo apenas o ouvinte e o toca-discos num processo de comunicação entre o sucesso musical e aquele que o escuta.

Se houvesse esse ritual da pessoa parar em sua sala ou em seu quarto para ouvir um CD, com atenção e concentração, veria a ruindade e a mediocridade da música brega-popularesca, mesmo nas canções supostamente "lindas", que são de uma pieguice de causar constrangimento.

A audição atenta vale muito mais do que o marketing, do que os aplausos da plateia do Faustão, do que a fúria dos "talifãs", para avaliar a qualidade ou falta de qualidade de uma música. Mais do que o suposto sucesso de um ídolo do momento.

É esse ritual, somente entre o ouvinte e a música em questão, pode demolir muitos discursos apaixonados ou arrogantes, desesperados ou persuasivos, que cerca a Música de Cabresto Brasileira. A audição mais atenta derruba muitos "grandes cantores" cujo talento medíocre é dissimulado por uma estrutura de superprodução e por um marketing agressivo em todos os sentidos, sobretudo entre os talifãs.

MÚSICA BOA VERSUS MÚSICA NEM TÃO BOA ASSIM

Juntando MPB com a música brega-popularesca, dá para perceber que, na verdade, se junta a música boa com a música nem tão boa assim. A boa vontade não faz a música ficar boa. "Ah, mas aquele cantor de 'pagode romântico' sofreu tanto no começo da carreira, veio sozinho do interior...", dirá essa pessoa, que na prática é forçada, pelo sentimento politicamente correto, a aceitar aquele cantor medíocre que a mídia golpista transforma em "grande sambista" sem que ele de fato entenda de samba.

Coloque Tom Jobim ao lado de Waldick Soriano. Na teoria, é muito lindo, democrático, generoso. Mas preste atenção numa música como "Wave" e compare com "Eu Não Sou Cachorro Não". Com toda a boa vontade, não dá para ver as músicas como sendo a mesma coisa, e no fundo a música de Waldick acaba expressando má qualidade, não dá para esconder a ruindade com um sentimento de piedade que beira à hipocrisia.

Nos duetos, é a mesma coisa. A música "Sinônimos", sucesso recente de Zé Ramalho, teve uma regravação pela dupla Chitãozinho & Xororó com o mesmo cantor, e se nota muito bem a diferença. A gravação original, só com Zé Ramalho, é sóbria, bela, expressiva. Já a regravação mostra o contraste entre a boa voz grave do cantor paraibano com a desafinação da dupla breganeja.

Também fica estranho ver um cantor de perfil performático e concretista, como Arnaldo Antunes, fazer duetos com o artífice do neo-brega, Michael Sullivan (que ainda cooptou Marisa Monte, Carlinhos Brown e até Daniel Jobim para sua tendenciosa volta à mídia). Mal comparando, é como se juntássemos, no plano dos estudos do nosso país, esquerdistas como o economista Celso Furtado e o educador Paulo Freire ao lado dos neoliberais Roberto Campos e Flávio Suplicy de Lacerda. Ou, no plano da Igreja Católica, seria como se juntássemos a Teologia da Libertação com os militantes do Opus Dei.

Há muitos outros casos de duetos envolvendo um intérprete de MPB autêntica com ídolos popularescos, e quase todos eles caem no esquecimento, embora vários causem momentâneo burburinho na mídia, que se autopromove às custas do mal-estar que os fãs de Música Popular Brasileira sentem com tais duetos.

O mal-estar não pode ser resultante de qualquer sentimento de moralismo, preconceito ou inveja, mas pela preocupação de que a mediocridade musical, pelo sucesso comercial que obtém nas rádios, relegue a segundo ou talvez a último plano a música de qualidade que outrora atraía um público maior do que o atual.

Além do mais, a aparente bondade de juntar bregas e neo-bregas à MPB não deixa marca. São geralmente covers que os ídolos popularescos gravam ao lado de medalhões da MPB para se autopromoverem. São gravações que nunca ficam na História, e que, passada toda a relativa badalação do momento, caem no mais absoluto esquecimento, por mais que a mídia se esforce em evitar este destino certo.

Um cantor carioca, considerado um dos maiores mestres da MPB e filho de conhecido historiador, foi convidado para fazer dueto com uma dupla goiana de "sucesso". A música em questão foi uma música italiana que o cantor conheceu no exílio, durante a ditadura, e que fez uma versão originalmente gravada por ele e um renomado grupo vocal de MPB.

A versão com a dupla goiana só rendeu badalação no lado popularesco, nas revistas, jornais, programas de rádio e TV e sites, que "comemoraram" a junção da dupla, símbolo do sucesso comercial, com o veterano cantor, símbolo do prestígio artístico.

Mas, no lado da MPB, ficou uma grande indiferença. O citado cantor, numa grande entrevista em jornal de grande circulação, simplesmente não falou do tal dueto, como se ele nunca tivesse havido. Simplesmente não sentiu a menor necessidade de falar de um fato que, na prática, é insignificante.

No mais, misturar música brega e neo-brega com MPB acaba tendo o mesmo sentido que reunir, hipoteticamente, o colunista de Veja, Diogo Mainardi e o blogueiro Altamiro Borges para produzirem, juntos, um jornal independente. A estranheza, por mais boa vontade que se tenha, é inevitável, e os problemas futuros, bem prováveis de acontecer.

Em tese, tudo fica lindo, democrático, inclusivo. Mas, na prática, o mal-estar e o contraste na ideologia, no método e tudo mais, ficam evidentes. Aí não há argumento "bondoso" que desminta o equívoco da situação.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Alexandre, já entendi seu texto. Mas eu queria te fazer uma pergunta: se misturassem, numa mesma passarela, divas como as Martha Rocha e Vasconcelos, Adalgisa Colombo, Ieda Maria Vargas, Vera Fischer, Tônia Carrero, Luiza Brunet, Juliana Paes e Natália Guimarães com mocreias INJUSTAS como Geisy Arruda, Gretchen, Nana Gouvêia, Renata Banhara, "mulheres-frutas", ex-participantes do "Big Brother Brasil" e ex-dançarinas de pagode, será que não iria acontecer a mesma coisa entre a mistura do ex-titã Arnaldo Antunes com o NEOLIBREGAL Michael Sullivan?