sexta-feira, 7 de maio de 2010

GREVE NÃO PODE SER ABUSIVA, MAS CRIATIVA



Um dos grandes erros da esquerda é de ver a greve como uma medida absoluta e que pode ser realizada sem qualquer contexto, porque até o nada é contexto para realização de greve.

A greve é um direito dos trabalhadores para protestar contra abusos, contra limitações de toda natureza em seu cotidiano de trabalho. Dentro das condições sociais permitidas, a greve é um direito inalienável, legítimo, saudável. Só não é quando a greve se torna monótona e ameaça os direitos de outras pessoas.

Eu fui prejudicado pela greve de bibliotecários da Universidade Federal da Bahia porque eu estava estudando para o concurso do IPHAN, há cinco anos. Meu irmão Marcelo, do blog Planeta Laranja, ainda estudava na UFBA - eu já havia me formado anos antes - e pegou emprestado alguns livros para estudar. Mas não eram os livros certos para o programa de estudos, e quando pedi para o Marcelo trocar os livros por outros, houve a greve que durou dois meses. Fui prejudicado por isso, porque não consegui passar no concurso.

Além disso, será que as greves têm que ser sempre através de paralização de atividades, de férias coletivas forçadas? Que lição tem uma greve que não passa de uma folga improvisada, quando a maioria dos trabalhadores fica em casa e apenas alguns sindicalistas e raros manifestantes se reúnem para discutir os rumos da greve?

Greve não pode ser assim. A greve não pode ser abusiva, tem que ser criativa. Greve que se limita a ser mero feriado coletivo, ao sabor dos membros sindicalistas, não pode ser considerada digna. E a maior parte dos trabalhadores não sabe bem o que se decide sobre a greve.

Em tese, assembléias são convocadas, mas a convocação não passa de um pálido convite. A própria classe não é estimulada a fazer o debate, porque ela é jogada no conforto das férias forçadas e por isso chamá-la para a reunião é algo muito cansativo.

Seria melhor que se repensassem as greves. Até porque a mera paralização, por si, já deixou há muito de assustar os patrões, que até riem às costas dos trabalhadores. Isso, para não dizer das greves pelegas dos rodoviários, que servem mais para pressionar os reajustes das passagens. Fica um ato que não surpreende, não agrada a multidão, não traz credibilidade aos sindicalistas, e tudo acaba se restringindo a uma mera manobra ao sabor da vaidade sindical.

As greves deveriam ser criativas e rápidas. Por exemplo, uma greve dos rodoviários mais eficaz é a operação catraca livre. Poderiam haver, também, pequenos manifestos, de acordo com a natureza do trabalho. Por exemplo, numa greve de bibliotecários, poderia haver uma apresentação de peça de protesto, em vez da paralização. Duraria pouco tempo, e os trabalhadores poderiam voltar ao trabalho.

Por isso mesmo, é preciso que a esquerda deixe de ser burocrática e reveja suas táticas de protesto. As greves monótonas, meras férias forçadas, não assustam os patrões, e, se inquietam a sociedade, é irritando os cidadãos quando os serviços básicos se encontram prejudicados. Ou nos casos como o meu, que não pude arrumar a bibliografia exigida pelo concurso do IPHAN por causa de uma greve de bibliotecários da UFBA. Não fosse tal transtorno, já seria eu hoje um servidor estável da instituição, num cargo de nível superior.

A greve foi feita para favorecer os trabalhadores, e não como expressão dos interesses políticos de sindicatos nem para alimentar as vaidades pessoais dos sindicalistas.

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