domingo, 23 de maio de 2010

FORRÓ-BREGA, TECNOBREGA E DERIVADOS VIOLENTAM CULTURA REGIONAL



O sucesso das tendências bregas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste preocupa. Eles representam a mediocridade musical que ameaça a cultura regional desses lugares. Tomam como ênfase a música estrangeira, dos ritmos latinos à disco music e à regravação aleatória de sucessos radiofônicos, que nada tem a ver com a inclusão de elementos estrangeiros para enriquecer uma expressão local.

Aqui, a influência estrangeira quer mesmo é anular a expressão local, pois de local mesmo só existe a caricatura, de forte ranço provincianista e matuto, estereotipado, patético. Por isso nada tem a ver com os princípios de antropofagia cultural pensados por Oswald de Andrade há cerca de 80 anos.

Alguns dos ritmos herdeiros do brega original de Waldick Soriano e Odair José, no norte do país, vem desde os anos 70. Os primórdios do forró-brega remetem a Carlos Santos, precursor da lambada, através de arremedos de ritmos caribenhos acrescidos a um brega acelerado, usando instrumentos de forró para simular regionalidade.

Era a época da ditadura militar adaptando o "milagre brasileiro", já desmoralizado, a políticas estaduais de desenvolvimento econômico, ufanismo populista conservador e políticas locais de implemento do turismo, daí a preocupação em forjar, na fachada, a regionalidade que nunca existiu na música brega dos primórdios.

Pois com a lambada e a influência dançante de Odair José, veio a lambada, depois o forró-brega e outras tendências igualmente caricatas do popularesco nortista e nordestino. Recentemente, ritmos como o arrocha, o tecnobrega e o forró-brega (este também conhecido como oxente-music), tornaram-se o establishment do entretenimento das cidades do Norte e Nordeste brasileiros.

Mas, debaixo dessa fachada "regional" que pouco convence, senão os etnocêntricos do Sul-Sudeste como Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, para não dizer o reacionário Eugênio Raggi, esses ritmos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiros não conseguem esconder a subordinação estética aos ritmos caribenhos que fazem sucesso no Sudeste dos EUA (como a Flórida) e à disco music.

Esses ritmos estrangeiros não aparecem nas músicas do forró-brega e no tecnobrega, por exemplo, como complemento da expressão local, mas como verdadeira influência dominante e dominadora do colonialismo midiático dos EUA, por intermédio das emissoras de rádio FM e de TV aberta que determinam o gosto do grande público.

Só o hype de perspectiva etnocêntrica - que vê o povo pobre como uma massa de patéticos sorridentes, felizes com seu sofrimento e com sua vida medíocre - permite exaltar esses ritmos de qualidade artística bastante duvidosas. Se fosse uma mera piada, um humorismo popularesco, o forró-brega, o arrocha e o tecnobrega, entre outros, serviriam para alguma coisa. Certa vez, na TV Bahia (afiliada da Rede Globo em Salvador, Bahia), um telejornal, entrevistando os cantores de arrocha Silvano Sales e Nara Costa, pediu para que eles fizessem a dança do arrocha. Sem exageros, os dois rebolavam, semi-agachados, com as mãos nos joelhos, da forma mais patética e ridícula possível.

Mas o preocupante mesmo é a máquina de eliminar a cultura regional que representa o mercado do forró-brega e do tecnobrega. A maioria das músicas não é mais do que patéticas versões de músicas estrangeiras, não havendo praticamente qualquer criação autoral, com exceção de algumas músicas bem medíocres, dessas que qualquer chapista de carro faz e vende para o empresário de um grupo de forró-brega mandar seus criados gravarem.

Pior é que até mesmo nomes como U2, New Order e até Angra são massacrados por esses grupos desses estilos. O Calcinha Preta chegou ao cúmulo de trucidar a música "The Unforgettable Fire" a bela e melancólica canção do U2, que nem é um grande hit da banda irlandesa.

A escolha de sucessos estrangeiros ainda reforça a postura pedante desses intérpretes "regionais", dando a falsa impressão de que eles estão sintonizados com as tendências do mundo inteiro. E ainda usam a manobra de lançar vídeo no YouTube antes de tocar nas rádios, para dar outra falsa impressão, a de que eles não estão relacionados ao establishment da grande mídia. Quando na verdade estão relacionados, sim, e de qualquer maneira atuam em função dessa grande mídia, mesmo sendo esta a mídia regional, mesmo sendo esta atuante tão somente numa região metropolitana.

Não há como usar os pretextos de "antropofagia", ou apelar para o discurso da globalização, da universalidade de linguagem ou mesmo a tese da "recriação" para defender o forró-brega, o tecnobrega ou similares. Esses ritmos são patéticos. A qualidade artística é extremamente ruim. A atitude é mais do que caricata, mas levada a sério demais.

Por isso, dá pena que a MPB autêntica não consegue mais espaço no país, sobretudo na região Norte. É lamentável que não haja um único cenário de MPB autêntica em várias partes do país. É triste vermos, por exemplo, que Billy Blanco e João Donato, os grandes mestres nortistas da Bossa Nova e da boa música brasileira, sejam absolutamente desconhecidos e desprezados para a maior parte dos seus conterrâneos.

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