quinta-feira, 6 de maio de 2010

FECHAMENTO DA AV. RIO BRANCO SERÁ UM ERRO GRAVÍSSIMO



Muitos dos piores erros só são reconhecidos tardiamente. No calor do momento, a imprudência e imprevidência humanas não conseguem perceber os malefícios de dadas decisões, e muitos erros gravíssimos, de consequências funestas, aparecem sob a máscara de atitudes acertadas, seja por ignorância, seja por interesses restritos a determinados indivíduos ou grupos.

O que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, pretende fazer, certamente, irá marcá-lo negativamente no futuro. O absurdo fechamento da centenária avenida Rio Branco, fatalmente, causará transtornos futuros para os cariocas, principalmente para o trânsito, que ficará cada vez mais caótico.


PRÉDIOS NA CINELÂNDIA, NA PRAÇA FLORIANO PEIXOTO, ESQUINA DA AV. RIO BRANCO COM A RUA EVARISTO DA VEIGA.

A escolha de uma grande avenida, movimentadíssima principalmente nos horários de pico, para se transformar num gigantesco, inútil e megalomaníaco calçadão, provavelmente cortado apenas pela avenida Presidente Vargas, foi festejada por Paes, pelos empreiteiros contratados e pelos tecnocratas do transporte coletivo, que acreditam em "fórmulas milagrosas" associadas a continhas matemáticas para resolver os complicadíssimos engarrafamentos que cada vez mais piorarão.

Em 1998, tecnocratas atuantes na Universidade Federal do Rio de Janeiro bolaram o lamentável projeto "Rio Bus", que retrocederia o transporte coletivo carioca para o pior que acontecia entre 1960 e 1964. Menos ônibus em toda a cidade, mais carros, e fim da ligação Zona Norte-Zona Sul. Além disso, previa-se a padronização visual, a promiscuidade operacional (várias linhas seriam, cada uma, operada por mais de uma empresa) e, para fazer o gado (o povo) dormir tranquilo, haveria sistema integrado, como se fosse suficiente um cidadão pegar vários ônibus pagando uma só passagem. Pior: não haveria garantia do cidadão que pegasse um ônibus de Madureira para o Centro, sentado, fosse embarcar num ônibus do Centro para Copacabana com a mesma sorte. Se ele for viajar em pé, tem que ser assim.

O projeto não foi adiante, mas mesmo assim seus técnicos foram muito arrogantes e, dotados de estrelismo, reclamaram por que um projeto "tão genial" não foi aprovado. Mas hoje parte desse projeto ameaça ser implantado, complicando demais a vida dos passageiros.

A padronização visual, sabemos, irá confundir seriamente os moradores, sobretudo os mais pobres e provenientes da Baixada Fluminense, que diariamente utilizam os ônibus do Rio. O risco de pegar, na Pavuna, um ônibus da linha 942 (para Penha) pensando pegar o 779 (para Madureira) será enorme, e o bilhete único não irá compensar o ônibus errado pego, uma vez que não se trata só de dinheiro gasto, mas de tempo gasto também.

No caso do fechamento da avenida Rio Branco, Eduardo Paes, que assim como no projeto da padronização visual, adotou a decisão sem fazer qualquer consulta popular e de forma quase sigilosa, não explicou o que fará realmente com o trânsito, diante de tão brusca alteração. Haverá novo mergulhão? Para onde irá o trânsito com o fim da pista viária da Rio Branco? Transferir pura e simplesmente os veículos para as avenidas Passos, em direção à Praça Tiradentes, e Alfred Agache, em direção à Praça 15, não adiantarão, porque o fluxo nessas avenidas já é muito intenso.


A PASSEATA DOS CEM MIL, UM DOS MAIORES PROTESTOS CONTRA A DITADURA MILITAR, FOI REALIZADO EM JUNHO DE 1968 NA AV. RIO BRANCO, COM OS MANIFESTANTES ANDANDO NO SENTIDO OPOSTO AO DOS VEÍCULOS.

Mas até para manifestações sócio-políticas seria complicado. É verdade que a Praça Floriano será preservada para manifestações, da forma como elas ocorrem hoje, mas uma passeata como a que foi a Passeata dos Cem Mil, um dos maiores protestos contra a ditadura militar, realizado em 26 de junho de 1968, não chegariam a ocorrer de forma eficaz por causa das barricadas que, na prática, seriam os canteiros e outros obstáculos similares ao que vemos na Rua Uruguaiana. Uma coisa é desafiar os carros e ônibus num momento de indignação política. Outra coisa é ser desafiado por obstáculos fixos na trajetória natural de seu protesto.

Eduardo Paes é relativamente jovem como político. Com 40 anos, não tem a vivência histórica para perceber o grave risco que faz ao querer transformar a Rio Branco num grande calçadão. Eu, apesar de ser um ano mais novo que ele, pois tenho 39 anos, tenho os pés no chão e sei do valor histórico e social dos lugares e monumentos.

É verdade que a avenida, quando foi inaugurada em 1905 pelo prefeito Francisco Pereira Passos, causou um violento impacto na população carioca de então, na medida em que foi uma larga rua que pôs abaixo uma porção de residências e estabelecimentos comerciais. Mas, descontadas as limitações de interesse no planejamento urbano e no justo deslocamento da população para outros locais, a avenida representou um desenho moderno na arquitetura urbana da cidade. O mesmo se pode dizer da avenida Presidente Vargas.

Mas hoje, a ideologia das "paisagens de consumo" alertada pela arquiteta Lia Motta, a partir da ideia da competição internacional das capitais turísticas do mundo, faz o Rio de Janeiro ser vítima de todo um projeto arquitetônico falsamente preciosista, falsamente histórico, com praças copiadas de Madrid, Roma e Paris. Verdadeiros desertos de mármore, bruscamente erguidos sobre praças e logradouros que até foram alterados com o decorrer do tempo, mas pelo menos foi pela natural evolução da sociedade.

A avenida Alfred Agache estava uma bagunça, nos anos 80? Sem dúvida, mas eu mesmo pude conferir, nas minhas andanças por lá entre 1974 e 1990, o quanto a avenida falava para nós, como um legítimo ambiente histórico socialmente construído. Mas nos anos 90 a avenida teve seu curso sócio-histórico interrompido, por conta de um projeto de arquitetos espanhóis que transformou a Praça 15 num deserto de mármore, com um canto ocupado por mendigos e converteu a avenida Alfred Agache num escuro túnel, cheirando a urina e expressando insegurança. Isso fez com que a maior parte dos passageiros se mudasse para a Rua Primeiro de Março e também várias linhas de ônibus mudaram o destino da Praça 15 para o Castelo.

CIDADE DE PRIMEIRO MUNDO NÃO SE DEFINE COM PRAÇAS "IMPONENTES"

É uma grande ilusão que deslumbra o prefeito Eduardo Paes a de que uma cidade de Primeiro Mundo se define por suas praças grandiloquentes, pretensas passarelas da arrogância turística, de um teor falsamente histórico, de um teor colonial caricato, feito apenas para os passeios de turistas desavisados.

O grande problema não é somente isso. O fechamento da Rio Branco para veículos automotivos representa também um violento desperdício financeiro, que poderia ser aproveitado, isso sim, para medidas mais dignas de Primeiro Mundo, como a despoluição da Baía da Guanabara e do Oceano Atlântico, para a substituição de favelas por casas populares. Isso sim, por trazer qualidade de vida para o povo, seria elevar o Rio de Janeiro para o nível primeiro-mundista sonhado.

Mas se Paes se preocupa mais com bobagens como pintar os ônibus de um mesmo uniforme - variando apenas conforme o tipo de ônibus ou percurso - ou fechar a grande e movimentada avenida Rio Branco, enquanto no caminho entre o Galeão e o Centro do Rio estão gigantescas áreas de favelas, e a Baía da Guanabara mostra uma poluição gritante. Mas Paes, coitado, político novato e relativamente inexperiente, talvez tenha que aprender, no futuro, com os erros que se mostram mais evidentes e desastrosos no decorrer dos tempos.

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