sábado, 29 de maio de 2010

"EU QUERIA FAZER MPB..."



Em tese, todo mundo quer fazer MPB. Do choroso breganejo ao funqueiro mais desbocado. Do axéxeiro parasita ao pagodeiro metido. A MPB parece ser o paraíso do Eden em que a mediocridade cultural tenta seguir a cartilha positivista ensinada pela grande mídia.

Sabemos do fenômeno da "música paralisada brasileira", em que os cantores da MPB autêntica são discriminados pelo mercado e somente suas músicas antigas são divulgadas, enquanto os medalhões do brega-popularesco, os donos do mercado musical, gravam sucessivos DVDs e CDs, sucessivos duetos, sucessivos covers, contrariando a pretensão de serem reconhecidos como os "atuais criadores de nossa música".

Vemos vários casos de cantores de sambrega e de porno-pagode que começaram, respectivamente, em grupos de samba "sério" e de samba-reggae. Jovens que eram apenas uns entre tantos percussionistas de grupos de samba-reggae que se tornaram vocalistas do mais ridículo grupo de porno-pagode. Cantores de grupos de bailes cariocas da Zona Norte, que tocavam de samba-enredo a sucessos antigos do samba, que se converteram no mais viscoso sambrega. Há outros casos, em outros estilos.

É um caminho muito perigoso. O cantor, quando criança, ouve música brasileira no rádio - é a sua única forma de absorção de valores culturais, ainda que artificialmente - , nos anos 80, e nos anos 90 vê na música brega o caminho imediato para o sucesso. Se é a fórmula do sambrega, ele se inspira tanto em Wando quanto nas lições de Michael Sullivan e Paulo Massadas adaptadas para o ritmo sambista, sobretudo através das gravações de Alcione. Se é breganejo, ele se inspira em Waldick Soriano adaptado para instrumentos de moda de viola.

Esse caminho fácil da música cafona, com discos de capas ridículas, com visual patético, com músicas de doer os ouvidos, tornam-se sucesso pelo esquema jabazeiro das rádios. "Entre Tapas e Beijos", "Depois do Prazer", "A Barata", e outras canções lamentáveis, se grudam feito chiclete de bola nas mentes do público. Versos totalmente ridículos tipo "Chega de plantar loucura / No campo do meu sentimento" e "Nós dois embaixo do chuveiro / Amor com cheiro de xampu", tornam-se a "poesia" tosca consumida ingenuamente pelo povo pobre, às custas do que a grande mídia empurra para o gosto popular.

São cerca de cinco anos e cinco CDs de sucesso, sempre com esses sucessos medíocres, um igual ao outro, seja um sambrega que ora imita Lionel Richie, ora parodia Zeca Pagodinho, seja um breganejo que ora imita Bee Gees, ora parodia o Clube da Esquina. No embalo, soul music dos EUA pasteurizada em ritmo pseudo-sambista, country music pasteurizado em ritmo pseudo-caipira. Duetos com apresentadoras infantis, apresentações em programas de TV de quinto escalão, fazem parte da maratona para o sucesso desses ídolos medíocres.

Mas eis que, de repente, esses ídolos da mediocridade que apareciam fácil nas piores revistas de fofocas e nos piores programas de TV, ganham um banho de loja e aparecem, feito penetras em festa, em eventos relacionados à MPB, com a ajuda de uma poderosa rede de televisão.

Da noite para o dia, seus CDs passaram a ser superproduzidos, e eles preenchem parte do repertório desses álbuns com covers que variam entre o mais manjado sucesso de MPB e alguma música esquecida do cancioneiro brega. Os sambregas vão logo parasitando o cancioneiro sambista, ou então a música de Djavan. Os breganejos vão parasitando o cancioneiro caipira, ou então a música de Milton Nascimento. E, de recheio, uns jogam Luís Ayrão e Benito di Paula no meio, e outros fazem o mesmo com Moacir Franco e José Augusto.

Mas há outros casos. O porno-pagode tenta parasitar a música de Riachão e Jackson do Pandeiro. A axé-music, como ritmo camaleônico, é o que mais parasita em relação à música em geral, se autopromovendo às custas desde a Bossa Nova até o Rock Brasil.

O pretensiosismo é tal que todo mundo adota uma postura oportunista quando as circunstâncias permitem. Os ritmos mais grotescos ou dançantes, do "funk carioca" ao forró-brega, tentam se autopromover às custas de comparações oportunistas ao Tropicalismo, do qual também a axé-music corre atrás, como um cafajeste cobiçando a herança de alguém. Já o sambrega e o breganejo, que evocam valores "tradicionais", há a autopromoção às custas de antigos seresteiros autênticos como Nelson Gonçalves e Lupicínio Rodrigues, rebaixados a culpados pela pieguice das "duplas sertanejas" e dos "pagodeiros românticos".

As críticas negativas, evidentemente, são inevitáveis. Afinal, não dá para não sentir incômodo quando a mediocridade musical começa a ocupar espaços onde a música de qualidade reinava. Afinal, a música de qualidade fala por si mesma, a música medíocre, ao contrário, fala pelo marketing persuasivo e obstinado da grande mídia.

De repente, a MPB autêntica perde espaços de divulgação e expressão, tomados gradualmente pela mediocridade brega-popularesca. A MPB autêntica, quando muito, se torna apenas uma coadjuvante, para não dizer figurante, do gosto musical do grande público. E isso quando falamos apenas da MPB que figura em trilhas de novelas da Rede Globo e que são conhecidos dos "especialistas" de classe média, aqueles intelectuais etnocêntricos que, só eles, ouvem MPB autêntica mais rara, enquanto defendem o pior do brega-popularesco como se fosse a "cultura da periferia".

Aí, quando a rejeição pesa, vem o "marketing da rejeição", que é a tentativa de promover o cantor ou grupo como "bom" através da repercussão negativa da crítica. Aí o cantor explora sua pretensa imagem de "vítima", faz uma estranha publicidade com a rejeição que sofre. Tenta reverter a impopularidade através desse truque.

Aí, torna-se tarde demais. A mediocridade foi feita em vários discos de sucesso. Os ídolos primeiro expuseram seus erros artísticos, sua ignorância, sua mediocridade, e, quando tentam alcançar os espaços da MPB autêntica e muita gente reage em protesto, os ídolos se fazem de vítimas e tentam fazer muitos artifícios. Como os covers tendenciosos de MPB e os sucessivos DVDs, CDs, discos de duetos, tanto para disfarçar a incompetência artística diante das cobranças do mercado.

Só que isso não adianta. Gravando covers de MPB, os ídolos do brega-popularesco parecem "alunos aplicados" fazendo o "dever de casa" (embora o resultado seja sempre sofrível). Mas, no ramo autoral, continuam na mesma mediocridade dos seus primeiros LPs.

A lição que fica é que a mediocridade artística custa muito caro. Os pesados investimentos da grande mídia, seu poderio sobre o gosto musical popular e a base de apoio de intelectuais convertidos em ideólogos faz o sucesso da música brega-popularesca se prolongar. Mas é um preço muito, muito caro, que não traz garantias de que os grandes ídolos brasileiros de hoje deixem suas marcas para a posteridade, coisa que nem as visitas semanais ao Faustão, nem as capas em rodízio em Caras podem garantir.

Ninguém nasce sabendo, mas os verdadeiros artistas preferem deixar suas fases de aprendizado no anonimato. Não vão transformar a mediocridade inicial em sucesso. Tornam-se discretos no aprendizado, até atingir a qualidade desejada. Ele não ia transformar seus rascunhos em milhões de discos vendidos e depois perseguir a popularidade a todo custo. Ele tem humildade, não tem pretensiosismo. Virtudes que os sorridentes ídolos da música brega-popularesca não têm.

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