domingo, 9 de maio de 2010

A "DANÇA DO TAMANDUÁ AFRICANO" ÀS AVESSAS



Caiu a ficha. O "rebolation" (REBOLEJO) e o "funk carioca" (FAVELA BASS) são ritmos descartáveis, meramente dançantes, convertidos pela mídia gorda a "danças folclóricas". O percurso inverso do que ocorreu no filme Namorada de Aluguel - Patrick Dempsey e Seth Green que o digam, porque atuaram no filme - com a "Dança do Tamanduá Africano".

Acho que já disse isso. No filme, de 1987, o personagem Ronald Miller, interpretado por Dempsey (o mesmo galã de Grey's Anatomy foi o nerd no longa oitentista), viu na televisão a apresentação de uma dança folclórica para ver que coreografia usaria para o baile de sua escola. Sem saber que era uma dança folclórica, a Dança do Tamanduá Africano, ele copiou a coreografia e, apresentando no baile da escola, a transformou num modismo dançante entre seus colegas.

Pois o "funk carioca" e, mais tarde, o "rebolation" - há notórias semelhanças no apelo porno-grotesco do "funk" e do porno-pagode baiano, que fizeram com que ambos evitassem fazer sucesso nacional juntos, ao mesmo tempo - , vendo a mina de ouro que é o rótulo de "folclore", passaram a vender a pretensa imagem de "movimentos etnográficos".

Alguém avisou ao DJ Marlboro, certa vez, ao vê-lo preocupado com mais um vai-e-vem do modismo funqueiro, de que ele deveria cortejar e adular os cientistas sociais e os produtores culturais para perpetuar o modismo do "funk", se possível empurrando o ritmo até para festivais de música de vanguarda, como Tim Festival e Abril Pro Rock. O truque deu certo, diante do dinheiro que rola por trás e de tanta gente crédula que existe por aí. E hoje até o tecnobrega usa essa manobra, se impondo até para as platéias do (ex)vanguardista Recbeat.

Pois a reportagem de capa do Segundo Caderno de O Globo - sinal dos tempos, de autoria de Carlos Albuquerque, o Calbuque do Rio Fanzine - se apóia nessa ideia de meros ritmos dançantes vendidos como "danças de vanguarda".

Coitado do twist, ritmo da virada dos anos 50 e 60 que nunca teve a pretensão de se apropriar dos louros da Contracultura. Mas o "funk carioca" e o porno-pagode - este usando pretextos "tropicalistas" - tentam se vender como "movimentos etnográficos" e até os pagodeiros baianos, recentemente, passaram a trocar as letras imbecis como "o bicho vai pegar", "a cobra vai fumar", "tapa na cara, mamãe" ou mesmo "uisminoufay, bonks bonks bom" por letras tendenciosas que supostamente evoquem o orgulho negro ou falem do duvidoso "orgulho de ser pobre". Os turistas estão de olho e o porno-pagode já é conhecido até pelo músico estadunidense Arto Lindsay.

Esse pretensiosismo todo em vender ritmos ridículos como "danças de vanguarda" mostra o quanto o pós-modernismo hoje está em crise. O ideal pós-moderno, que durante anos esteve à margem da mídia e do establishment do entretenimento, agora se serve dele numa relação de conveniência e de troca de interesses.

Funciona dessa forma. O hit-parade e o establishment lúdico-comportamental usam a intelectualidade para perpetuarem seus modismos sob o rótulo de "vanguarda", nem que seja pela via fashion (que envolve visual e comportamento), e a intelectualidade ganha mais visibilidade analisando até mesmo o fenômeno MC Créu sob uma ótica pretensamente etnográfica e uma retórica "pós-moderna". Qualquer Britney Spears e Lady Gaga, dóceis ovelhinhas brancas do hit-parade, são transformadas em "transgressoras" a partir dessa retórica muito bem construída pela intelectualidade tendenciosa.

Alguns astutos mais pretensiosos talvez tentem converter o matuto MC Créu num pretenso poeta concretista, já que Paulo César Araújo, em similar pretensiosismo, tentou converter os ídolos da música brega setentista em supostos cantores de protesto.

O próprio Carlos Albuquerque como autor da reportagem mostra o quanto os tempos mudam. Pessoas que antes lutavam pela vanguarda cultural do Brasil hoje entregaram os pontos para o establishment.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.