terça-feira, 25 de maio de 2010

COLLOR ESTÁ NO PTB, MAS SEU PAI LUTOU CONTRA JANGO



O que permite a memória curta de nosso país. Mesmo no nosso passado recente, Fernando Collor acabou reabilitado pela Editora Três, pela juventude reacionária que frequenta o Orkut e pelas manobras da ocultação da verdade histórica, que permitem à população sofrer de memória curta, não obstante um verdadeiro Alzheimer histórico.

Fernando Collor, numa dessas manobras do tendenciosismo político atual, hoje está no PTB. Sim, o antigo Partido Trabalhista Brasileiro fundado em 1946 por Getúlio Vargas. Embora o avô de Collor, Lindolfo Collor, tenha sido ministro de Vargas, a essas alturas ele já havia passado para a oposição ao líder nacionalista.

Mas, vamos juntar as peças de um passado histórico nem sempre lembrado pelas pessoas (e, às vezes, é escondido por aqueles que têm medo do austero juízo da História).

O pai de Fernando Collor de Mello - e genro de Lindolfo - foi o senador alagoano Arnon de Mello (1911-1983), ligado ao Partido Democrático Cristão (PDC), atual PP (Partido Progressista). É famoso o episódio do senador Arnon em 29 de Novembro de 1963, quando ele cometeu um crime em pleno Senado Federal, que a fortuna das circunstâncias permitiu que fosse ocorrer já em Brasília, porque no Rio de Janeiro teria rendido um escândalo de gigantescas proporções.

Arnon de Mello era desafeto do também alagoano Silvestre Péricles, que, ironicamente, era do mesmo PTB. Silvestre gostava de andar armado, e Arnon resolveu imitar o inimigo. Já tendo enfrentado vários conflitos, Arnon entrou no Congresso Nacional para fazer um discurso provocativo contra o rival, que por sua vez conversava com Artur Virgílio Filho, também por ironia do PTB amazonense, e pai do tucano Artur Virgílio Neto (PSDB-AM).

Silvestre, revoltado, gritou "Crápula" e tentou avançar contra Arnon, que sacou sua arma e fez Péricles se esconder ao chão e, como em trincheira, sacar dali sua arma. O senador João Agripino Maia (UDN-PB), tio do hoje senador José Agripino Maia (DEM-RN), atracou-se em Silvestre para tentar tirar-lhe a arma.

Em seguida, o senador acreano José Kairala, do PSD, tentou ajudar Agripino Maia, mas foi mortalmente atingido por um dos tiros dados por Arnon. Kairala, suplente do senador José Giomard, faleceu pouco depois. Silvestre e Arnon foram detidos, mas os ventos da politicagem permitiram que ambos saíssem absolvidos. Foram beneficiados pela imunidade parlamentar e continuaram seus ofícios no Senado.

Poucos anos antes do incidente, Arnon de Mello e sua esposa, Leda Collor, estavam entre os diversos colaboradores diretos do temível IPES, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, que foi uma espécie de Instituto Millenium dos anos 60. A essas alturas o filho Fernando já era um adolescente e acompanhava com gosto todo o empenho do pai no grupo ideológico que mais se empenhou para derrubar João Goulart, então presidente da República e figura maior do Partido Trabalhista Brasileiro, depois de Vargas.

Não é preciso dizer que Arnon de Mello passou depois para a ARENA, o partido ditatorial que, na prática, era reencarnação da UDN (União Democrática Nacional), de quem herdou seus princípios ideológicos.

Se o avô de Fernando Collor, Lindolfo, tão cedo rompeu com Vargas e apoiou a Revolta Constituinte de 1932 - realizada pelas oligarquias da República Velha e apoiada até pelo conservador jornal O Estado de São Paulo - e o genro de Lindolfo atuou na direita brasileira, não é preciso dizer que o próprio Fernando Collor iniciou sua carreira na ARENA.

Por isso mesmo só o perecimento histórico do Partido Trabalhista Brasileiro, hoje reduzido a mero acampamento partidário de direitistas "arrependidos", tal qual o PDT, PSB e PPS, pode explicar o fato de Fernando Collor estar no PTB. O partido foi destruído na sua alma por conta de um antigo conchavo político entre Golbery do Couto e Silva - "intelectual" da Escola Superior de Guerra, colaborador do IPES e um dos estrategistas políticos da ditadura militar, da qual foi também ministro - e Ivete Vargas, filha de Getúlio, que pressionaram contra Leonel Brizola, que saiu do partido para fundar o PDT (que, com a morte de seu fundador, virou também outro sarcófago político semelhante ao PTB).

Só mesmo o PTB se manter como sigla, mas com os princípios ideológicos todos extintos - em contraposição à UDN, que manteve seu projeto político-ideológico mudando a sigla para ARENA, PDS, PFL e DEM - para que um político direitista como Fernando Collor seja aceito como membro do partido. Que foi o mesmo partido do desafeto de seu pai Arnon.

Nenhum comentário: