quarta-feira, 12 de maio de 2010

ANTES QUE ALGUÉM CONSIDERE 'CENTRAL DA PERIFERIA' UM CLÁSSICO DA TV...


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Antes que algum desavisado e incauto considere o programa Central da Periferia um clássico da televisão brasileira, vamos relembrar um artigo de quatro anos atrás de Ricardo Calil comentando o programa.

Central da periferia é reacionário e autocongratulatório

Por Ricardo Calil - 14.05.2006

O programa “Central da periferia”, apresentado pela Globo aos sábados, e o quadro “Minha periferia”, exibido pelo Fantástico aos domingos, partem de um conceito louvável: mostrar que as favelas e outros cantões pobres do país não produzem apenas episódios de violência, mas também ricas manifestações culturais.

Além do enorme poder de comunicação da apresentadora Regina Casé, o “Central da periferia” conta com algumas idéias interessantes, como mostrou o episódio deste sábado: apresentar o punk da banda Cólera como semente do movimento de contestação da periferia, juntar Olodum com Salgueiro, Jair Rodrigues com Rappin’ Hood.

Mas, na ânsia de combater preconceitos e semear auto-estima, o programa incorre no problema oposto: apresentar uma visão idealizada da periferia, usar a origem pobre dos artistas como único critério de qualidade, retratar seus moradores quase como “bons selvagens”.

“Central da periferia” mostra de passagem alguns problemas da favela, como a falta de saneamento básico. Mas, na visão do programa, esses obstáculos, enfrentados sempre com um sorriso no rosto, só ajudam a transformar o povo da periferia em um pessoal mais bem-resolvido.

No programa de sábado, um velho barraco de madeira – no meio das casinhas de alvenaria de Heliópolis, em São Paulo – foi praticamente elevado à categoria de exemplar artístico remanescente do estilo “favela vintage”.

Aqui vai uma pequena seleção de chavões proferidos no episódio de sábado que reforçam essa visão conformista: “Quem mora na periferia é alegre por natureza” (do cantor e compositor Leandro Lehart); “Na favela eu me sinto mais gente” (do rapper Rappin’ Hood); “Alegria é uma força revolucionária” (da apresentadora Regina Casé).

Por trás de sua falsa aparência de modernidade, “Central da periferia” talvez seja a atração mais paternalista e reacionária da TV brasileira hoje. Mas há um problema ainda maior no programa: sua feroz autocongratulação. Regina Casé nos lembra a cada cinco minutos como a Globo está fazendo história por abrir espaço para esses pobrinhos tão criativos (da mesma forma que ocorreu alguns meses atrás com “Falcão – Meninos do tráfico”). Na “Central da periferia”, não basta ser bacana. É preciso gritar a plenos pulmões que se é bacana.

Boa parte dos convidados do programa – como Leandro Lehart, Exaltasamba, Limão com Mel – bate cartão em programas populares, como os do Gugu e Gilberto Barros. Só que esses apresentadores nunca se vangloriaram por isso. A lógica do sistema dipensa explicações: eles vendem mais discos, nós aumentamos a audiência. Mas na Globo, que sempre teve enorme receio de parecer popularesca, essa fórmula precisa ser mascarada por lições sobre a periferia de seus PhDs em povão.

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