terça-feira, 27 de abril de 2010

A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA DOS FÃS DE MÚSICA COMERCIAL



"Meu ídolo tal é comercial? Só porque lota plateias e vende um milhão de discos? E o seu, babaca, não é comercial, não?"

Substitua "meu ídolo" por Beyoncè, Chiclete Com Banana, Zezé Di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Bon Jovi, Waldick Soriano ou similares.

Substitua "e o seu (ídolo)" por New Order, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Smiths, Police, Jethro Tull, João Gilberto, Flávio Venturini ou similares.

É aquela velha violência psicológica dos fãs de música comercial. Velha não no sentido cronológico, porque esse recurso da juventude reacionária vem lá dos anos 90, que, para mim, é o mesmo que ontem (coisa antiga, antiga mesmo, para mim, é de 1974 para trás). Velha, no sentido ideológico, de ideias retrógradas, ultrapassadas, vindas de uma juventude que se diz "moderna" e quer fazer suas opiniões prevalecerem na marra, daí o reacionarismo rabugento e esquentadinho.

É claro que existe música comercial e não-comercial. Esses idiotas não reconhecem isso. Quando fulano diz que um artista não-comercial é "comercial", usando argumentos superficiais e confusos - como, por exemplo, o músico não-comercial ganhar dinheiro por sua música - , é porque, na verdade, o fulano quer defender a reputação dos intérpretes comerciais. É como se ele quisesse, por exemplo, colocar uma cantora de axé-music no primeiro time da MPB. Sílvia Telles é que foi mercenária. Arre!

Ganhar dinheiro, por si só, não significa comercialismo. Significa o natural ganha pão. E o verdadeiro artista não usa o dinheiro como causa em si própria. Quando se fala em arte não-comercial, não se fala que fulano faz música de graça, mas que o dinheiro não é o motivo da produção artística. É só uma consequência, a arte não busca garantir o faturamento fácil, a arte é a expressão natural da consciência humana.

Na música comercial, todavia, o dinheiro manobra cada passo do cantor ou grupo. Não se trata de manifestação natural da consciência humana, da expressão do espírito, da expressão da beleza. Se trata de uma produção artificialmente artística, que é tendenciosa em si, porque o dinheiro torna-se a musa maior desse intérprete. Por exemplo, se a cantora de axé-music ver que a moda não é mais gravar samba-reggae e sim covers de Bossa Nova, então ela vai fazer esses covers, não por vontade natural, mas porque é o imperativo do mercado.

Vejam o som do New Order, por exemplo. Um grupo de pessoas esquisitas, saídas do sombrio Joy Division, que teve vocalista que se suicidou e tudo. Gente fazendo uma mistura excêntrica de rock com dance music, capaz de compor disco music com o mesmo astral sombrio dos tempos do Joy Division. O que é "Blue Monday", por exemplo, senão uma disco music glacial? Os caras não querem saber de moda, Bernard Sumner não está aí se as pessoas gostam ou não do talento dele (que, cá para nós, é inegável). Peter Hook, hoje meio brigado com os parceiros e fora do NO (hoje convertido em Bad Lieutenants), não quer tirar satisfação alguma, quer tocar seu baixo conforme seus neurônios e seu temperamento pedem.

Já uma Beyoncè é muito tendenciosa. Se a moda é fazer músicas com som de fliperama, ela tem que fazer. Se a moda é dançar algo parecido com o rebolation (REBOLEJO), ela dança. Não porque ela quer, mas porque o mercado pede. Beyoncè é marqueteira, assim como Lady Gaga, isso da forma mais mercantil possível. Nada de arte, nada da pessoa fazer o que realmente quer, mas porque é o que o mercado unificado do gangsta rap e do charm (erroneamente chamado de rhythm and blues) impoem, pedem, determinam. É um mercado que pede moças lindas e esculturais como Beyoncè, ou falsas esquisitonas como Lady Gaga.

A lógica da verdadeira arte é o artesanato. A lógica da "cultura" comercial é a indústria. Na verdadeira arte, está a expressão do espírito e a transmissão social de conhecimento. O dinheiro só vem como consequência e efeito, mas não é o fim da produção artística. Na "arte" comercial, está a linha de montagem, as fórmulas de mercado, o desejo puro de lucro fácil, imediato e maior.

Portanto, se o pessoal gosta de música comercial, que goste, mas que não fique adotando discursos reacionários e pseudo-cabeça. Não banquem os engraçadinhos acusando os artistas não-comerciais de comerciais. Também não venham dizer que a finalidade maior do ser humano é ganhar dinheiro. E também não venham posar de esquerdistas, se apresentam argumentos tão neoliberais. Deixem de ser hipócritas, se odeiam mesmo hipocrisia. E respeitem quem não está incluído nos padrões mercantis do hit-parade.

2 comentários:

Lucas Rocha disse...

Acho que os jovens atuais são, ideologicamente, bisnetos dos oligarcas da República Velha... Será que a Mulher Melancia odeio mesmo a música breganeja?

Bruna disse...

Muito bom!

A esmagadora maioria da população sequer conhece o mundo musical que está fora da grande mídia. Como não tem parâmetros, aceitam qualquer lixo. Os artistas só se aproveitam dessa estupidez.


Muito engraçado o conceito de "música de fliperama" da Beyoncé. Eu costumo denominar de "música de loja", já que são as típicas musiquinhas medíocres impossíveis de serem apreciadas, e que só servem pra serem usadas como fundo musical de loja de roupas...