segunda-feira, 19 de abril de 2010

QUEM VAI INVESTIGAR A CORRUPÇÃO EM SALVADOR?



Há muita sujeira na mídia e nos transportes em Salvador, Bahia. Certa vez, um blog chegou a denunciar um esquema de corrupção em torno da AGERBA, agência que controla, entre outras coisas, o transporte coletivo intermunicipal da Região Metropolitana de Salvador.

O sistema de ônibus soteropolitano - comandado pelo sindicato patronal representado pela patética sigla SETPS (com a risível pronúncia "setépis") - é tão estranho que existe até um esquema chamado "Frota Reguladora" que na prática é como se as empresas legalizadas imitassem o esquema de ônibus piratas. Além disso, as linhas são distribuídas sem obedecer critério de regiões de bairros e os ônibus são até desconfortáveis (bancos de plástico que doem nos quadris e nas colunas).

O sistema de "pool", que já é desnecessário porque uma linha de ônibus fica mais eficaz quando é servida por uma única empresa, desde que a ela seja cobrada um serviço responsável, em Salvador ganha um sabor de politicagem mais explícita. Duplas de linhas como 0342 e 0344 (Rodoviária Circular A e B), e S002 e S011 (Aeroporto e Praia do Flamengo para o Campo Grande), poderiam ser distribuídas de forma que uma linha ficasse com uma única empresa, mas isso não acontece. Além disso, há estranhos casos de linhas em pool em que uma das empresas contribui com apenas um carro, como é o caso das linhas 1348 (Canabrava / Lapa) e 1475 (Águas Claras / Pituba).

No rádio, vemos a hegemonia tanto das rádios de música brega-popularesca, que alimentam o mercado jabazeiro que envolve os blocos de axé-music na capital baiana, e outras tendências popularescas. Mas há também o chamado "Aemão de FM", programas de locutor, noticiários ou jornadas esportivas, em que a politicagem é escancarada, com o envolvimento de políticos, empresários, fazendeiros e dirigentes esportivos.

A herança das concessões politiqueiras de Antônio Carlos Magalhães, antigo chefe político do Estado, quando era ministro de José Sarney, dá o tom da politicagem e da presença de políticos ou "laranjas" no quadro acionário das emissoras de rádio. A programação "aemizada" dá o tom da politicagem, com conchavos com os "cartolas" e com opinionismos e denuncismos que dão o falso tom "imparcial" dos programas, enquanto por debaixo dos panos impera o tendenciosismo e as brigas entre desafetos político-empresariais.

A corrupção existe e não sou eu nem você quem inventou isso. Até porque ela existe, mas os detalhes e pormenores são bastante desconhecidos. Por isso, quem é que vai investigar esses esquemas de corrupção?

Vemos blogueiros ou cronistas baianos que, salvo honrosas exceções, não fazem senão um teatrinho jornalístico em que se limitam a copiar, e muito mal, a abordagem crítica de Carta Capital e Caros Amigos, com pinceladas de Isto É, e para certas coisas se comportam feito crianças deslumbradas, sobretudo quando o assunto é rádio.

E, quando qualquer bobagem sobre transportes coletivos em Salvador é lançada, eles se comportam como crianças obedientes. Se é para manter bancos de plásticos até em linhas longas para o subúrbio ferroviário, tudo bem. Se é para as empresas manterem um visual esbranquiçado que confunde os passageiros, tudo bem. Esses apáticos críticos da mídia na Bahia mais parecem mendigos que, de tão acostumados com a sujeira, já não sentem o fedor que está em sua volta.

É necessário romper as amarras do corporativismo. No caso dos transportes, a coisa também é complicada, porque o "setépis" é anunciante de praticamente toda a mídia soteropolitana. Jabaculê mal-disfarçado, mordaça travestida em verbas publicitárias. No caso do rádio, como os jornalistas poderão investigar a corrupção, se tem aquele medo de botar os amigos e ex-colegas na cadeia?

Ha 20 anos, o jornalista e ativista social Fernando Conceição se encorajou em investigar, como free lancer, o esquema de corrupção da segunda gestão de Mário Kertèsz como prefeito de Salvador. Fernando fez o trabalho para o jornal A Tarde, descobrindo depois que o então prefeito havia criado, com um cúmplice, duas empresas fantasmas que desviaram dinheiro do Governo Federal para as fortunas pessoais dos dois. O dinheiro seria para obras de urbanização de Salvador, que foram paralisadas e terminadas depois pelos sucessores.

O esquema de corrupção custou a vida política de Kertèsz, engenheiro apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães e que, também em 1990, foi nomeado por ACM interventor do Jornal da Bahia. Kertèsz deu o golpe mortal, sendo autor material do interesse de ACM em acabar com o JBa, na medida em que destruiu a linha editorial do periódico, convertido no mais abjeto tablóide populista. Mas Kertèsz, deixando a vida política, virou uma espécie de "Cidadão Kane" baiano, e, como dublê de radiojornalista, engana tudo e todos, seduzindo até a esquerda baiana e ludibriando os soteropolitanos com o espetáculo de tendenciosismo que a Rádio Metrópole e o jornal Metrópole fazem dentro da mídia baiana.

Infelizmente, o ex-prefeito de Salvador reverteu a decadência política numa reputação midiática que equivale a uma espécie de Roberto Marinho doméstico, mas metido a um "militante anti-mídia", numa retórica demagoga moderna que pega os críticos da mídia baiana de surpresa, desprevenidos. Em nome da visibilidade, esses críticos se silenciam diante desse grande espetáculo de corrupção, que é o maior mas não é o único que ocorre na capital baiana.

Vale lembrar que o grosso da corrupção e do tendenciosismo não ocorrem só na Rede Bahia (grupo dos herdeiros de ACM), mas dos antigos filhotes políticos de ACM, como Marcos Medrado, Mário Kertèsz, Pedro Irujo, Cristóvão Ferreira Jr. e outros, gente ligada à politicagem midiática, e que por isso não pode ser vista como "mídia alternativa" em relação à mídia carlista propriamente dita.

Contestar a corporação carlista e aceitar os demais "coronéis" eletrônicos soa o mesmo que um paulista falar mal da Rede Globo mas beijar as mãos dos Frias, Civita, Saad e Mesquita, os barões midiáticos de São Paulo.

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