quinta-feira, 1 de abril de 2010

QUANDO SE COMEMORA PELO "SERVIÇO" FEITO


Em 1986, houve uma comemoração de quatro compositores pela diluição que fizeram na Música Popular Brasileira, tornando-a subordinada ao comercialismo mais piegas.

Sabemos que Lincoln Olivetti & Robson Jorge (este falecido), apesar de originários da soul music brasileira, foram encomendados pela indústria fonográfica, nos tempos da ditadura militar, a pasteurizar a MPB, obrigando os cantores da MPB autêntica a gravar baladas românticas, se quiserem vender discos e divulgar seus trabalhos no rádio.

A dupla foi responsável tanto pela lapidação musical do brega Fábio Jr., então desfeito das aventuras estrangeiras como Mark Davis, quanto pela diluição de artistas como Simone, tornando a MPB escrava de arranjos piegas e climas pomposos. Nessa época, até a mixagem dos discos tornava a música brasileira difícil de ouvir, com o som da bateria bem baixinho e fraco, em contraponto ao som açucarado e alto dos teclados. E a indústria fonográfica torrava grana mandando seus contratados gravarem em Nova Iorque, mais por questão de marketing do que por razões técnicas.

A pasteurização da MPB por Lincoln Olivetti e Robson Jorge deixou a música brasileira tão asséptica e chata que acabaram abrindo caminho para o Rock Brasil, que empolgou mais a juventude por sua linguagem.

É certo que, embora tenha alguns discos com a mesma mixagem enjoada da MPB pasteurizada, como os primeiros discos de Barão Vermelho e Kid Abelha, os roqueiros brasileiros representavam a renovação artística que a MPB não apresentava.

Por outro lado, em 1984 Michael Sullivan, ex-Fevers e ex-brega exportação, e Paulo Massadas, ex-Lafaiette e Seu Conjunto, transformaram a música brega em algo luxuoso. No entanto, eles também absoveram as lições da MPB pasteurizada, que receberam pronta dos outros compositores, e cooptaram artistas como Fagner, Alcione e Roupa Nova para integrar o mesmo cenário piegas junto com Fábio Jr., José Augusto, Xuxa e Trem da Alegria.

Com o sucesso comercial das duas duplas, os quatro resolveram compor juntos uma música intitulada "Amor Perfeito", para comemorar o enfraquecimento da MPB autêntica que incomodava os militares nos anos 60. E, para gravar a música, chamaram Roberto Carlos, um cantor que, ídolo jovem nos anos de chumbo (apesar da fase inicial de Roberto, entre 1959 e 1975, ser musicalmente bem legal), tornou-se símbolo do romantismo conservador que abriu caminho para a expansão brega dos anos 80 e 90.

Daí os arranjos pseudo-fusion de "Amor Perfeito" e seus versos "grudentos" ("Eu conto os dias / Conto as horas pra te ver / Já não consigo te esquecer / Cada segundo é um minuto sem você / Sem você), que se tornaram sucesso certo nas rádios mais bregas. E que, anos depois, ainda resgataria o sucesso comercial do Chiclete Com Banana (abalado com denúncias de sonegação fiscal contra Bell Marques), que tomaria emprestado a música para temperar o repertório da axé-music (outro ritmo de raízes conservadoras), a ponto de ser também regravado por Cláudia Leitte.

Como capangas se reunindo para conferir os lucros, Olivetti, Jorge, Sullivan e Massadas resolveram compor uma canção e chamar Roberto Carlos, ídolo da classe média conservadora, para gravar. E fizeram a festa do brega romântico, preparando o terreno para a hegemonia popularesca da década seguinte em diante.

Um comentário:

Caíque disse...

Caro autor do blog,

no dia em que você conseguir escrever um arranjo como Lincoln ou Robson escreviam, poderei pensar na possibilidade de considerar o comentário "A pasteurização da MPB por Lincoln Olivetti e Robson Jorge deixou a música brasileira tão asséptica e chata que acabaram abrindo caminho para o Rock Brasil, que empolgou mais a juventude por sua linguagem." Mas, como dizia a saudosa Elis Regina, a grande questão é que quem escreve sobre música não sabe a diferença entre uma semicolcheia e uma lacraia. Será que vc faz parte deste grupo? Ou é um arranjador fantástico da MPB?