segunda-feira, 19 de abril de 2010

PIMENTA NEVES, TRAIDOR DA IMPRENSA DE ESQUERDA


MUITO ANTES DE BALEAR A NAMORADA, PIMENTA NEVES APUNHALOU PELAS COSTAS A IMPRENSA DE ESQUERDA.

Muitos já ouviram falar do Pimenta Neves criminoso passional, que tirou a vida da própria colega e namorada Sandra Gomide, por motivo fútil e sem oferecer à vítima qualquer chance de defesa. Muitos conhecem a impunidade que fez do ex-jornalista o "rei da pizza com pimenta", um Judas em potencial que deixou as grades na época da Semana Santa.

Mas poucos conhecem que Antônio Marcos Pimenta Neves fez coisa tão pior para nossa imprensa. Mais PiG do que ele, impossível. É um mistério seu verdadeiro perfil ideológico no começo de carreira, em 1958, mas ele, filho de um político do interior paulista, havia trabalhado em jornais progressistas como Última Hora, inicialmente como crítico de cinema.

Como jornalista, não deixou marcas. Seu jornalismo não fedia nem cheirava, mas diante de tantos personagens que fizeram história no jornalismo, pode-se dizer que Pimenta Neves era um pouco acima do medíocre. No fundo, fazia corretamente o dever de aula. Era, todavia, homem de contatos muito importantes, o que fez deslanchar no status quo depois de aparentemente estar ligado profissionalmente ao jornalista Cláudio Abramo.

Cláudio Abramo, irmão de Perseu Abramo e uma das figuras de destaque do jornalismo de esquerda, tendo atuado corajosamente durante a ditadura militar, numa dessas coincidências de destino tinha Pimenta Neves trabalhando em sua equipe. Isso ocorreu sobretudo na época em que a Folha da Tarde, único jornal remanescente das três "folhas" que se fundiram e viraram a Folha de São Paulo, viveu um breve período como jornal esquerdista. Isso foi por volta dos anos 60, começo da segunda metade. No Rio de Janeiro, o Correio da Manhã se destacava como jornal oposicionista ao regime militar que, por boa fé, inicialmente apoiou, devido à aversão ao governo João Goulart.

Passada a breve fase esquerdista da Folha da Tarde - postura tolerada por Otávio Frias de Oliveira, devido a questões mercadológicas - , com a saída de Cláudio Abramo, por consequência do enrijecimento da ditadura militar, Pimenta Neves foi escolhido para adaptar o projeto de Abramo para uma linha mais acomodada, inofensiva ao regime militar. Aos poucos, esboçou um jornal direitista, que Pimenta deixou ao sair do jornal.

Ao longo dos anos 70, Pimenta Neves esteve à frente da extinta revista conservadora Visão. Foi também consultor do Banco Mundial, o que diz muito ao direitismo dele. Bem entrosado com os grandes capitalistas, Pimenta foi para O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil e Folha de São Paulo. Virou protegido e aliado das grandes elites. A ponto de, na época do seu crime contra Sandra Gomide (jornalista que ele conheceu nos tempos da Gazeta Mercantil, periódico hoje extinto), cometido em 20 de agosto de 2000, a imprensa paulista orquestrou uma sutil proteção ao criminoso, por claros interesses corporativistas.

Quando eu lancei o zine homônimo a este blog, foi pouco depois deste crime. Ironicamente, "morria" um jornalista e "nascia" outro. Eu estava em Salvador, e quando ouvi a notícia do crime de Pimenta Neves em Ibiúna (cidade do interior paulista antes conhecida pelo Congresso da UNE reprimido pouco antes do seu início, em 1968, com todos os integrantes presos), pensei que era um crime cometido por um editor de um jornaleco de Ibiúna. Mas não foi, foi um crime cometido por um editor de O Estado de São Paulo, o histórico jornal conservador da família Mesquita.

Um dos lances irônicos relacionados a Pimenta Neves é que seu substituto no comando editorial do Estadão foi Sandro Vaia, cujo prenome é a forma masculina da vítima do antecessor. Quanto ao sobrenome, uma palavra cuja ideia está associada à reprovação por meio do grito individual ou coletivo, dá um trocadilho interessante. A substituição teria dado uma manchete muito engraçada: "VAIA NO LUGAR DE PIMENTA NEVES".

Durante um bom tempo a imprensa paulista mais conservadora - Veja, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo - protegeu Pimenta Neves. A grande imprensa, como um todo, impediu que até mesmo jornais regionais (que se servem de agências de notícias ligadas à imprensa sudestina) colocassem o caso de Pimenta Neves nas seções ou retrancas policiais. O crime por ele cometido e seus reflexos eram sempre noticiados na seção País, normalmente reservada a fatos políticos ou a notícias comuns de âmbito nacional.

Na época do crime, apenas a imprensa humorística protestou contra o crime de Pimenta Neves. A revista Exame Vip, com relativa autonomia editorial em relação à Editora Abril, que publica a revista, criou uma tabela divertidíssima comparando o Abominável Homem das Neves e o Abominável Pimenta das Neves, concluindo que o famoso monstro polar é mais inocente que o ex-jornalista. Na imprensa carioca, destaca-se os trocadilhos jocosos do fictício colunista Agamenon Mendes Pedreira, cria do Casseta & Planeta, entre a palavra "furo de reportagem" e os "furos" que Pimenta deu em Sandra Gomide.

Somente alguns anos atrás, quando houve o júri popular que fez manter a impunidade a Pimenta Neves, a grande imprensa teve que mudar a postura, reprovando a figura do ex-jornalista. Mesmo a revista Veja, que tentou tratar Pimenta Neves como um coitadinho, teve que mudar seu procedimento. O motivo disso tudo estava na pressão da imprensa carioca, sobretudo do Jornal do Brasil, que veiculava textos e reportagens que, na prática, desqualificavam a reputação de Pimenta Neves.

Só para sentir a coisa, enquanto a imprensa paulista, a princípio, definia Pimenta como um "sofredor" que vivia "preso em sua própria casa" e toma diariamente anti-depressivos, a imprensa carioca já revelava o outro lado, do arrogante ex-jornalista mas ainda poderoso socialmente, que ia armado para os eventos chiques. A famosa arrogância de Pimenta Neves pode ser comprovada quando ele, recuperado de um coma induzido, explicava, irritado, o crime que ele cometeu contra Sandra Gomide.

A ascensão de Pimenta Neves na imprensa paulista mostra o quanto ele, trabalhando discretamente na imprensa de esquerda, na medida em que se ascendeu profissionalmente tornou-se traidor do jornalismo progressista, se entrosando com setores mais conservadores da imprensa de São Paulo. Um traidor que, aparentemente, não se revelava em artigos ou seminários, mas nos bastidores da imprensa paulista.

E, assim como a imprensa reacionária, Pimenta acabou cometendo também mau jornalismo, pois, pouco antes de matar Sandra Gomide, Pimenta cometeu deslizes sérios como editor-chefe, criando manobras fúteis no Estadão. Um caderno de TV do Estadão teria sido tendenciosamente editado como meio de pressionar moralmente a colega e já ex-namorada.

Mas mesmo nos seus últimos atos como jornalista, antes da aposentadoria - num país sério, Pimenta teria o registro de jornalista cassado - , o criminoso, dizem, se comportava como um dublê de editor-chefe da imprensa paulista, exigindo uma cobertura "imparcial" sobre seu caso e reprovando quando as reportagens desfavoreciam a reputação dele.

A experiência de Pimenta Neves na conservadora imprensa paulista está documentada no livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti. Já sua experiência na equipe de Cláudio Abramo foi documentada no livro Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Ora bolas. Pimenta Neves apenas seguiu o roteiro inerente à a esquerda brasileira: o roteiro da traição.

Um dia, esquerdistas traem a população e se aliam à direita quando, onde e como convém, e às vezes roubando o programa da direita. Vide Lula...