sábado, 10 de abril de 2010

PARANGOLÉ DENUNCIA QUE SOFREU RACISMO


DANÇARINA DO PARANGOLÉ DENUNCIA CASO DE RACISMO, MAS ESTILO MUSICAL DO GRUPO ESTIMULA TAIS ABORDAGENS.

A dançarina Xênia Bispo, do grupo baiano Parangolé, disse em entrevista que o grupo sofreu racismo, quando, hospedado em um hotel em Araxá, foi definido por uma funcionária como "um bando de pretinhos desgraçados". Numa discussão, a funcionária alegou que o adjetivo "desgraçado" não foi ofensivo e depois pediu para o grupo autografar um CD para a neta. Ironicamente, Xênia disse: "um abraço para a sua neta desgraçadinha".

Sou contra qualquer tipo de racismo, e também não vou apoiar grosserias como esta. Sou coerente, e não vou disparar comentários racistas mesmo para artistas medíocres. Sem, portanto, apoiar a atitude boçal da funcionária do hotel, tem que se reconhecer, no entanto, que o estilo musical do Parangolé, o porno-pagode (nome dado por causa das explícitas motivações "sensuais" do estilo), em suas caraterísticas estimula a reação das pessoas racistas. Desde os tempos do É O Tchan.

O estilo trabalha o negro como uma figura "engraçadinha", que rebola de forma afobada, grosseira e quase andrógina, sem qualquer finalidade performática, diga-se de passagem. Afinal, é uma música comercial e não um happening músical-performático. Tanto é verdade que, mercadologicamente, é visto como um sub-produto da axé-music.

Ideologicamente, o porno-pagode é a resposta baiana do "funk carioca" (FAVELA BASS). Ambos têm o mesmo apelo "sensual" e há indícios de que tenham feito pacto para que os dois não façam sucesso simultaneamente em todo o país, para que o "funk" trabalhe primeiro seu crescimento no mercado.

Conquistada sua reserva de mercado, o "funk" liberou espaço tanto para o porno-pagode virar sucesso nacional, quanto para o breganejo entrar no mercado fluminense a partir dos seus cantores "universitários". Por isso, entre o sucesso do Harmonia do Samba e o "rebolation" do Parangolé, houve um intervalo de dez anos.

O apelo caricato e grotesco do porno-pagode é tal que os nomes dos grupos remetem a palavras "engraçadinhas" e ridículas como Psirico, Pagodart, Saiddy Bamba, Guig Ghetto, Uisminoufay, Poder Dang e Dignow do Brasil. Parangolé teria sido uma exceção como nome, já que, por uma questão de pedantismo, se apropria do nome da principal obra de Hélio Oiticica e símbolo do Tropicalismo, movimento bajulado pelos cantores e grupos da axé-music.

As músicas também remetem a palavras "engraçadinhas". Por exemplo, uma música do Pagodart - que chegou a lançar uma música machista, "Tapa na Cara" - que inspirou o nome de outro grupo, Uisminoufay, tem um refrão que praticamente diz apenas "Uisminoufay / Bonks-Bonks-Bom". O que significa isso, eu não sei.

Uma vez, eu passei por uma loja de eletrodomésticos do Shopping Iguatemi, em Salvador (Bahia), e estava rolando um vídeo com o Parangolé. Léo Santana estava parado no palco, dando risadas e andando para lá e para cá e, de repente, dava saltos patéticos sem motivo algum.

A própria música "Rebolation", do Parangolé, tem um título ridículo, derivado da palavra "rebolejo", e que não é mais do que uma reciclagem do rebolado pós-Tchan dos grupos pagodeiros baianos. Num país que abrasileirou com prazer a palavra inglesa football, a expressão "rebolation" é o cúmulo do absurdo.

Por isso, o próprio apelo patético do porno-pagode, que trabalha numa abordagem caricata do negro, acaba dando margem a comentários racistas. Acabam dando a impressão de que o negro é todo risadinha e só quer saber de rebolar. Mesmo quando tenta ser "socialmente conscientizado", como na música "Favela", também do Parangolé, acaba indo na mesma retórica do "orgulho de ser pobre" dos funqueiros, que causa conformismo no povo pobre e oculta o lado dramático das moradias precárias que, recentemente, voltou ao debate público através da tragédia do Morro do Bumba, em Niterói.

Num país que tem uma cultura negra riquíssima e uma infinidade de personagens negros do passado e do presente (e que continue sendo no futuro) de grandioso valor, do saudoso geógrafo Milton Santos ao ator Lázaro Ramos, passando também por negras admiráveis (a atriz Ruth de Souza é um dos inúmeros exemplos), não há a menor necessidade da caricatura rebolativa do porno-pagode.

É certo que o negro não precisa sempre explorar culturalmente seu sofrimento. Mas dá para o negro ser alegre sem ser patético. O blues, o samba, o reggae e os verdadeiros ritmos populares, que não se limitam a lotar plateias, mas a transmitir arte de qualidade, conhecimentos e valores sociais sólidos, mostram isso.

Na África, há ritmos populares genuínos, de qualidade artística reconhecida e que são alegres. O grupo vocal Ladysmith Black Mambazo é um exemplo que me vem à mente, com seu belíssimo coro que traz alegria pela sua harmonia e beleza melódica.

Por isso, o ato de racismo que vitimou o Parangolé foi ridículo, abominável e pode até render cadeia, conforme permite a lei. Mas também não inocenta em todo o grupo baiano, que se insere no próprio conceito mercadológico de um ritmo musical que domestica e distorce a imagem do negro baiano, que nada tem do que grupos como Parangolé, Psirico e similares simbolizam.

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