sexta-feira, 9 de abril de 2010

MÍDIA GOLPISTA PARECE CONIVENTE COM O MACHISMO VINGATIVO


ENTREVISTA DO APRESENTADOR RATINHO AO EX-ATOR GUILHERME DE PÁDUA, UM DOS ASSASSINOS DA ATRIZ DANIELLA PEREZ.

A grande mídia segue a tradição machista, como reza o pacote da ideologia conservadora na qual a mídia segue, às vezes de forma explícita, noutras de forma sutil.

Quando Doca Street lançou, em 2006, seu livro Mea Culpa "explicando" o crime que ele cometeu contra a socialite mineira Ângela Diniz, a mídia adotou postura unilateral, com direito a Doca aparecer arrumadinho na Rede Globo, só que um tanto cafona e decadente, como se fosse um meio-irmão de Jacinto Figueira Júnior e Waldick Soriano.

O ex-playboy deu entrevista para Rede Globo, Época, Folha e o escambau querendo minimizar a culpa pelo seu crime, enquanto noutras vezes processava produtores de TV e de cinema que tentassem produzir reportagens ou longas-metragens lembrando o famoso crime da Praia dos Ossos, em Armação dos Búzios (RJ) do final de 1976.

Só a revista RG Vogue, cujos sócios brasileiros são ligados a Mino Carta, da revista de centro-esquerda Carta Capital, que contesta o baronato da mídia golpista, se encorajou a entrevistar uma filha de Ângela Diniz. A grande mídia, sobretudo Folha, Veja e Organizações Globo, preferiu ficar com a visão do criminoso, porque, para ela, soa "mais jornalístico".

Juntando isso ao tratamento VIP que a imprensa paulista deu ao colega Pimenta Neves - postura que só mudou com a pressão da imprensa carioca, que bateu pesado contra o "rei da pizza com pimenta" - e até ao tratamento cordial que a imprensa dava a Guilherme de Pádua, a mídia golpista tem um quê de machista e se torna sutilmente indiferente ao sofrimento dos parentes e amigos da inocente vítima feminina. Pimenta Neves chegou ao ponto de nunca ser colocado nas retrancas policiais da imprensa paulista, ele sempre entrava na seção "País" e similares, como se ele não tivesse cometido um crime hediondo (mas legalmente classificado como apenas doloso), mas praticado um inocente ato político de âmbito nacional.

Agora o assunto é a entrevista no Programa do Ratinho do ex-ator Guilherme de Pádua, o "Alexandre Nardoni" dos anos 90 quanto à repercussão do seu crime, juntamente com a então esposa Paula Thomaz, que mataram a atriz Daniella Perez, a golpes de tesoura, no final de 1992. O fato ofuscou até o impedimento político de Fernando Collor (que, como Ratinho e De Pádua, se deram bem na mídia). Daniella foi filha da dramaturga Glória Perez.

Guilherme - que, como Pimenta, daria um ótimo "judas" para o sábado de Aleluia, porque ambos saíram da prisão em época próxima da Semana Santa - não conseguiu explicar as razões do seu crime. Até certo ponto, Ratinho se estressou e se irritou com o entrevistado. Também, por que ele chamou o hoje evangélico De Pádua para a entrevista? Tudo pelo Ibope, né? E por sinal com muito trouxa dando ouvidos ao Ratinho.

A entrevista irritou Glória Perez e outras pessoas, como o também dramaturgo Aguinaldo Silva, que, num comentário irônico no Twitter, sugeriu que Ratinho entrevistasse depois Fernandinho Beira-Mar, o casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá (assassinos da filha dele, Isabella Nardoni), ou que fizesse uma entrevista psicografada do ditador Adolf Hitler.

Mas a mídia deu mais destaque à entrevista de Guilherme. A Folha não enfatizou muito o comentário de Glória Perez no Twitter, e, se a Rede Globo é solidária a ela, é pelo fato da novelista ser contratada da casa. E Guilherme de Pádua, posando de injustiçado, quando em outros momentos teve surtos de terrível arrogância, tanto que uma vez ele ameaçou processar a própria Glória Perez por declarações que ela deu sobre o assassino da filha. Como se o crime que Guilherme cometeu não bastasse...

O machismo deveria ser desmoralizado e combatido no nosso país. A truculência masculina contra mulheres inocentes, até agora só rendeu um leve arranhão na ideologia machista como um todo. É evidente que, por baixo dos panos, os próprios machistas assassinos também vivem sua tragédia. Afinal, são pressionados pelo ódio da sociedade contra suas impunidades judiciais. Podem sair do Brasil, mas não podem ir a um reencontro com antigos colegas dos tempos de escola. Podem ir para qualquer lugar, mas não podem ir aonde os entes queridos de suas vítimas estão.

Abomino completamente o machismo, sobretudo esse machismo vingativo, sanguinário e sem respeito ao ser humano, um machismo escravo de instintos, cruel e enrustido, um machismo que ainda vive no século XIX e quer resistir firme ao século XXI. A ponto de machistas impunes tentarem até mesmo ter novas namoradas, surpreendentemente belas e inteligentes. Um machismo que quer, de todo modo, controlar a emancipação feminina, se apropriando de nossas melhores mulheres. E deixando os antigos sub-produtos do machismo (boazudas e marias-coitadas) para os homens de bem.

É preciso dar um basta a essa vida de bem-bom dessa facção violenta dos machistas de nosso país. Sobretudo ao sutil e discreto consentimento da grande mídia, que deve ser desmascarado sem medo.

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