quarta-feira, 14 de abril de 2010

MÍDIA DE ESQUERDA DEVERIA COMBATER IDEOLOGIA BREGA


MENDIGOS EM BRASÍLIA - A ideologia brega nada faz senão condenar o povo à degradação social através da cultura.

A mídia de esquerda deveria deixar de restringir o discurso contestatório ao âmbito político e prestar atenção às armadilhas de âmbito cultural que a ideologia brega-popularesca acumulou nos últimos 50 anos, e ver o lado da gravidade disso tudo.

Um verdadeiro "Morro do Bumba" cultural pode desabar, mostrando o lixão cafona que axezeiros, breganejos, sambregas e funqueiros escondiam por debaixo de suas roupas perfurmadas. A alma de Waldick Soriano penetrando em Alexandre Pires, Zezé Di Camargo, & Luciano, Exaltasamba e até MC Leozinho. As lições de Gretchen seguidas pelas Sheilas do Tchan, pelas "mulheres-frutas" e até mesmo por Ivete Sangalo. Mas os neo-bregas "não são bregas", porque há quem se iluda com sua pseudo-modernidade.

A hegemonia brega-popularesca, que acumulou tendências como o "brega de raiz" e as diversas tendências pseudo-regionalistas dos anos 80 para cá, faz 20 anos de implantada. A MPB autêntica, genuína, tão acessível no pré-1964, até agora não recuperou seu carisma diante do grande público. Mas hoje, o que vemos? Dóris Monteiro, Edu Lobo, Carlinhos Lyra, todos injustiçados. Emilinha Borba e Lúcio Alves morreram injustiçados. A música brasileira autêntica, abandonada, desprezada, boicotada. Waldick Soriano, "injustiçado"? Fala sério, a mídia dá todo espaço para ele, quem não percebe é porque bebeu demais, ou tem a mente falha mesmo.

A cultura é uma atividade na qual se transmitem valores, crenças, saber. É a personalidade cultural de um povo. É a expressão do espírito individual ou coletivo de uma comunidade. E a música é uma parte, embora significativa, da cultura.

Portanto, de que adianta criticar José Serra, Otávio Frias Filho, William Waack, se aceita o "funk carioca" de bom grado? De que adianta falar mal da Miriam Leitão se fica babando com as boazudas ocas do Big Brother Brasil? De que adianta falar em "barões da grande mídia", de forma bem pejorativa, se faz tietagem com Alexandre Pires e Zezé Di Camargo & Luciano?

O pessoal todo da política, PSDB e DEM, sabe que dá as caras a tapas. O pessoal da mídia golpista, também. Diogo Mainardi sabe muito bem que ele é odiado por muita gente, e ele não faz segredo disso, ele mesmo escrever para provocar, é de propósito. Miriam Leitão e Alexandre Garcia sabem que seus comentários irritam muita gente. Otávio Frias Filho, Kennedy Alencar, Gilberto Dimenstein, todos eles sabem que muita gente vai reprovar tudo aquilo que eles escrevem.

Só que, quando intelectuais e blogueiros de esquerda esquecem as armadilhas culturais, todos os políticos e jornalistas do bloco golpista ficam tranquilos. Otávio Frias Filho pode ser frito a óleo quente pela blogosfera, se o "funk carioca" estiver a salvo, ele dorme tranquilo. Logo, logo, sai uma reportagem sobre os MCs disso, as "mulheres-objeto" daquilo, na primeira página de Ilustrada e o Instituto Millenium vai para o Bar Millenium comemorar com chope.

Alexandre Garcia e Miriam Leitão podem ser espinafrados pela blogosfera, mas se os breganejos, sambregas e axézeiros, em rodízio, aparecem felizes no Domingão do Faustão, a fauna da selva global pode dormir bem tranquila.

A música brega-popularesca distrai o povo enquanto os abutres do "livre mercado" cometem seus abusos impunemente. Se a blogosfera reduz seu foco à esfera política, menosprezando as armadilhas em torno da cultura, sob o pretexto de que se trata de um "inocente entretenimento" e que "gosto não se discute", estará sendo lesada seriamente, visto que para a divulgação dessa cultura de gosto duvidoso existe uma mídia bem-estruturada. E que essa mídia bem-estruturada é aquela que estabelece conchavos com grupos políticos detentores do poder.

A hegemonia da música brega-popularesca de 1990 para cá foi efeito da farra de concessões de rádio de ACM e Sarney para empresários e políticos aliados. Entre outras consequências, fez multiplicar seriamente as FMs supostamente dedicadas ao "povão", a maioria esmagadora delas controlada por latifundiários, deputados, senadores. E que exercem um papel explícito de controle social e manipulação e dominação das classes populares.

Então, como é que ainda alguns intelectuais de esquerda, traídos pela memória curta que ainda vicia muitos brasileiros, tratam o brega-popularesco como se fosse "rock alternativo", como se nunca tivesse acesso na mídia e nem feito sucesso algum? Essa intelectualidade se mostra isolada no seu etnocentrismo predial, no seu bairrismo de luxo, porque só ela ouvia a melhor MPB e, depois, por puro paternalismo, julga a música brega e seus derivados como se fosse o "verdadeiro folclore do nosso povo". Atitude cínica de pequenos-burgueses - ah, esse termo está meio caduco, é? - que desconhecem ou esqueceram os fatos históricos.

Por exemplo, os símbolos da baixaria cultural de 1990-1992, segundo se observava muito na época, eram Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires (então no Só Pra Contrariar), Leandro & Leonardo, Chiclete Com Banana e Beto Barbosa. Hoje eles são vistos como "sofisticados" e o reacionarismo dos seus defensores intimida quem faça alguma crítica contra eles.

Outro exemplo. O "funk carioca" de 1990 era risível, patético, caricato, bobo. Muito bobo. Seus intérpretes, zé-manés sem talento vocal, fazendo uma paródia de cantiga de roda com uma batida eletrônica que mal saía do som do "pum". Hoje esses mesmos caras se protegem sob o rótulo de "funk de raiz" e são vistos como "militantes sociais", "revolucionários esquerdistas", enganando muita gente que mal sabe que esses mesmos funqueiros "de esquerda" alimentaram suas carreiras às custas de muito vereador direitista que era aliado entusiasmado do então presidente Fernando Collor de Mello.

Por isso mesmo, é bom que a pauta cultural esteja incluída na abordagem dos blogueiros de esquerda. Se os jornais estabelecem seções culturais em suas páginas, a blogosfera crítica deveria incluir, também. Afinal, se a crítica não ir para o âmbito cultural - que envolve política, sim, porque os detentores do poder não querem que o povo se emancipe culturalmente - , vai que o abatido e derrotado Otávio Frias Filho renasça como fênix quando a Ilustrada anunciar o MC Créu como o "novo Tom Jobim".

Um comentário:

Lucas Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.