quinta-feira, 15 de abril de 2010

DISCUSSÃO SOBRE FAVELAS ACABA EM MANIQUEÍSMO IDEOLÓGICO


MORRO DOS PRAZERES, FAVELA DO RIO DE JANEIRO, CONTÍGUA AO BAIRRO DE SANTA TERESA, ATINGIDA PELA TRÁGICA TEMPESTADE DA SEMANA PASSADA.

Sou de esquerda, mas não posso fazer vista grossa a certos exageros ou equívocos que a esquerda faz, sobretudo no Brasil, um país declaradamente capitalista, complexo demais para visões socialistas presas ao rigor ideológico, temporal e geográfico de seus maiores teóricos.

A esquerda, assim como a direita, nesse episódio da trágica tempestade que atingiu o Rio de Janeiro no começo deste mês, investe num duelo ideológico maniqueísta, no que diz às críticas aos motivos que geraram o terrível infortúnio coletivo.

A esquerda insiste radicalmente na urbanização de favelas e critica de forma generalizada a remoção das casas, sem ver que áreas realmente podem ser urbanizadas nem considerar as condições que podem garantir uma remoção justa, sem danos para os desalojados.

A direita, por sua vez, tenta culpar o povo pela ocupação desordenada do solo, ignorando que são as próprias elites que, através de taxas caríssimas de compra de casas, contribuem para que as classes pobres se desloquem para as áreas de risco, que é o que elas podiam arranjar para construir, de forma precária, suas humildes residências.

Por isso uns e outros não se entendem e esse debate tolo só prejudica o povo pobre. Além disso, vendo que a retórica esquerdista dominante fala em prender o povo nas favelas, seguindo a lógica dos empresários funqueiros - que, embora contem com o apoio das Organizações Globo e com a Folha de São Paulo do temível Otávio Frias Filho, também tentaram fazer lobby com setores de esquerda - , e a retórica direitista quer que o povo viva fora de apartamentos com algum conforto nas cidades, então as classes pobres se encontram sem amparo algum, se para uns são obrigados a ficar eternamente em áreas degradadas, porque "ser pobre é mais bonito", e para outros são proibidos a ter uma residência mais digna, porque "são gente ralé".

O povo assim fica num mato sem cachorro, e que por enquanto tem casas. Mas depois ocorre um deslizamento e o mato não será mais do que um simples lodo cobrindo cadáveres inocentes e injustiçados.

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