quinta-feira, 1 de abril de 2010

BREGA-POPULARESCO É HERANÇA DA DITADURA MILITAR


INCÊNDIO NA SEDE DA UNE, NO RIO DE JANEIRO, EM ABRIL DE 1964.

A música brega-popularesca, que representa a pasteurização da cultura musical brasileira e a domesticação das classes populares, é herança da ditadura militar. Pouco importa, aqui, se políticos do PT ou PSOL passaram a dar apoio a esses ritmos, ou se a intelectualidade de esquerda elaborou um discurso em defesa deles, porque a massificação das tendências popularescas ao longo dos anos cresceu de tal forma que, de tão dominante, ilude a todos com seu caráter falsamente ecumênico.

Não é coincidência que os primeiros ídolos bregas, como Waldick Soriano, Nelson Ned e Agnaldo Timóteo, passaram a fazer sucesso nos primeiros anos da ditadura militar. Como não é coincidência que o primeiro ritmo neo-brega a fazer sucesso na redemocratização consolidada sob o controle da direita através do governo Fernando Collor ter sido o breganejo. Tanto o "brega de raiz" como o breganejo (ou a dita "música sertaneja"), que sempre demonstrou ser mais herdeiro de Waldick Soriano do que de Cornélio Pires, tiveram sua raiz no latifúndio, foi lançado e recebeu o apoio das elites conservadoras de suas regiões de origem.

A hegemonia da Música de Cabresto Brasileira - que certos defensores cinicamente definem como a "verdadeira MPB", que lota vaquejadas, prostíbulos, micaretas, feiras de agropecuária, "bailes funk" e auditórios da TV aberta - se originou na intenção das oligarquias regionais em barrar o avanço dos verdadeiros ritmos brasileiros no gosto popular, intensificados sobretudo pelos debates culturais dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE).

Essa preocupação ocorreu de tal forma que, mesmo antes do Golpe de 1964, as oligarquias regionais e o empresariado paulista se apressaram em promover os primeiros ídolos cafonas (quando a palavra "brega" ainda não existia; ela é de 1972). Tudo para contar o avanço da Bossa Nova e o resgate dos ritmos regionais brasileiros - sobretudo através de poderosos artistas da nossa música, como Luiz Gonzaga, Cartola, Zé Kéti e Dorival Caymmi - no gosto popular e na renovação musical brasileira.

Daí que Waldick Soriano, apadrinhado pela conservadora elite de Caetité (BA), foi fazer sucesso em São Paulo. E que um tal Orlando Dias, do sucesso "Tenho Ciúme de Tudo", foi lançado em 1958 pelo poderoso empresário Abraão Medina, da loja O Rei da Voz, pai dos irmãos Rubem e Roberto "Rock In Rio" Medina.

Mas o sucesso de 1964, sobretudo nos prostíbulos e botecos - lugar que as oligarquias do latifúndio reservavam para o lazer do povo subordinado - , dos primeiros ídolos cafonas, foi um meio das elites dominantes regionais de eliminar, ou pelo menos, minimizar, os efeitos transformadores dos CPC's da UNE que, em suas "UNE-volantes" faziam turnês de esclarecimentos e debates com as classes populares, em diversos aspectos da cultura brasileira, como teatro, cinema, música etc.

Também não é de estranhar que a primeira fase da música cafona, no Brasil, seguiu literalmente a cartilha "desenvolvimentista" dos ministros da ditadura militar, como Roberto Campos, Otávio Bulhões e Delfim Netto. Assim como o projeto econômico deles pregava um desenvolvimento da indústria brasileira através de material obsoleto do Primeiro Mundo, a música brega, nos seus primórdios, se valia no desenvolvimento da cultura popular através de tendências musicais obsoletas.

É só perceber que Waldick Soriano, por exemplo, emulava serestas e boleros numa época em que a Bossa Nova estava no auge e as verdadeiras serestas e boleros foram deixados para trás. Mais tarde, Odair José e Paulo Sérgio, entre outros, foram fazer arremedo de Jovem Guarda quando a própria Jovem Guarda já havia acabado.

BRASILIDADE FORJADA - A preocupação, no entanto, das elites que controlam o entretenimento no Brasil a partir da ditadura militar, é forjar uma brasilidade depois que o Tropicalismo causou impacto pela sua mistura de referências regionais brasileiras e o rock.

Outros motivos que fizeram a música cafona a forjar uma brasilidade foram a campanha do "Brasil Grande" que teve a Copa do Mundo de 1970 como carro-chefe e a frase "Brasil: Ame-o ou Deixe-o" como lema, e os projetos econômicos regionais que seriam implantados no Brasil do AI-5: a "Revolução Agrícola" e a política turística de Salvador (Bahia), entre outros.

Dessa forma, a música caipira, por exemplo, inicia sua diluição na década de 70, com a assimilação, por motivos mercadológicos, dos arranjos chorosos das baladas de Bee Gees e outros ídolos piegas lançados em 1968. A princípio os ídolos caipiras originais, como Tonico e Tinoco e outros, eram orientados a gravar canções piegas, até porque na música caipira os intérpretes não são os próprios arranjadores. Mas depois, o próprio mercado se encarregava de recrutar jovens cantores que seguiriam de forma obediente às regras mercadológicas. Chitãozinho & Xororó foi a primeira dupla nesse esquema.

Fora isso e alguns vestígios de "brasilidade" brega, seja pelo sambão-jóia de Benito di Paula e similares, seja pelo forró-brega mal-disfarçado nos primeiros sucessos de Gretchen, só nos anos 80 ela se tornaria mais evidente, através do avanço do breganejo, do advento da axé-music e da lambada (que já surgiu nos anos 70 a partir da diluição do baião pela disco music). Tinha também o romantismo das composições de Michael Sullivan & Paulo Massadas, que lapidaram a música brega para ela ser consumida pela classe média no Sul e Sudeste, inspirando as tendências neo-bregas dos anos 90.

Nos anos 90, através da democratização condicionada pelos grupos conservadores em torno dos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, o brega-popularesco avançou, com as tendências neo-bregas (que fundem a música brega original com as pasteurizações feitas em torno da fase mercantilista da MPB de 1979-1988). Veio então o sambrega (ou "pagode mauricinho"), o crescimento do breganejo, o avanço da lambada (que viria a resultar no forró-brega) e da axé-music.

O crescimento dessas tendências neo-bregas representou o modelo de "diversidade musical regional" que as oligarquias que foram premiadas pela farra radiofônica do governo José Sarney desejavam para o povo.

É risível que os defensores e teóricos do brega-popularesco digam que nós, defensores da MPB tradicional e de raiz, queremos idealizar a cultura popular. Quando, na verdade, foram esses defensores que compartilham uma visão idealizada de "cultura popular", baseada num povo frouxo, resignado, numa música de gosto duvidoso, que não transmite conhecimento, que mal consegue traduzir uma verdadeira expressão musical de caráter popular.

O BREGA-UNIVERSITÁRIO - 45 anos depois do acordo MEC-USAID, diversas tendências derivadas da música brega passaram a ganhar suas vertentes "universitárias". O sambrega, o forró-brega, o breganejo e mesmo o brega setentista, todos eles têm seus intérpretes "universitários": Sorriso Maroto, Caviar Com Rapadura, Vítor & Léo, Dário Jeans, Luan Santana, Stephany, Jeito Moleque, entre tantos outros.

A intenção das oligarquias que controlam o mercado brasileiro é evitar mais uma vez que o velho fantasma dos CPC's da UNE voltem através da Internet. Cria-se o brega-popularesco "universitário" seja para neutralizar a redescoberta da MPB autêntica através de veículos como You Tube e EMule (um dos "descendentes" do Napster), seja para evitar que a inclusão digital do povo resulte numa transformação no gosto musical dos internautas emergentes.

Dessa maneira, força-se a classe média e, agora, a universitária - já domesticada por sucessivos projetos de sucateamento da educação superior, do acordo MEC-USAID até a onda de universidades privadas da Era FHC - , a consumir música brega, antes que o povo pobre redescubra a MPB autêntica. Da mesma forma, veteranos ídolos do neo-brega gravam sucessivos covers de sucessos da MPB autêntica para que o público esqueça as versões originais, inspirados na "pegadinha" de Chitãozinho & Xororó, que se apropriaram a música "No Rancho Fundo" quando poucos se lembravam da antiga música e reconhecem a autoria original de Lamartine Babo e Ary Barroso.

Dessa forma, o golpismo cultural brasileiro tenta a todo custo domesticar o povo, forçar o máximo de popularidade para que a verdadeira cultura não reconquiste os antigos espaços de divulgação. Pelo contrário, as elites lutam para que a MPB autêntica perca até mesmo os poucos espaços que até hoje tem.

Sintoma disso são as manobras bregalizantes que a rádio carioca MPB FM, cujo sócio, o Grupo Bandeirantes de Comunicação, foi pivô de um episódio infeliz contra os lixeiros. Seja através da perigosa linha editorial do programa Sexo MPB, de Rodrigo Faour, que permite incluir até É O Tchan e "mulheres-frutas", seja pela inclusão dos neo-bregas Alexandre Pires e Péricles (Exaltasamba) no projeto Samba Social Clube, seja na inclusão de Benito di Paula e Odair José no programa Clássicos MPB e na contratação de Preta Gil (fã do mais grotesco brega) para apresentar o Noite Preta FM (com direito a ter Xuxa Meneghel escolhendo músicas no programa de estreia), a MPB FM expressa o desespero dos grupos detentores do poder econômico e político de nosso país em barrar o máximo possível a evolução cultural de nosso povo.

Evolução, para essas elites, só se for de mentirinha, com Alexandre Pires gravando música de Ataulfo Alves e Zezé Di Camargo & Luciano gravando 'Tristeza do Jeca". Mas é o brega-popularesco se apropriando até mesmo do cancioneiro da MPB, como que quisesse apagar da memória popular os artistas originais, e transformasse a Música Popular Brasileira em refém dos ídolos popularescos.

Cabe tomarmos muito cuidado, porque o golpismo cultural imobiliza muito mais as classes populares do que a repressão política e a verborragia raivosa dos reacionários do Instituto Millenium. Graças ao brega-popularesco, temos um povo em sua maioria domesticado, resignado e impotente ante os mandos e desmandos dos donos de poder no Brasil.

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