segunda-feira, 8 de março de 2010

POR OUTRO LADO, ELITES ESTIMULAM CASAMENTOS SEM AFINIDADE



As manobras da grande mídia e das elites em geral, se por um lado desestimulam, nas classes pobres, a união de casais afins, nas classes abastadas se estimula não somente o casamento entre pessoas sem a menor afinidade, como se aconselha a estabilidade dessas uniões sem amor.

Isso cria, no Brasil, um fato pouco lembrado e pouco discutido, que representa uma mudança de orientação da ideologia machista, que, para preservar os dedos, mudou em parte os anéis de sua supremacia sobre as mulheres.

Nem precisamos nos lembrar dos grotescos casos explícitos de "Golpe do Baú", relações interesseiras sem a menor sutileza, verdadeiras aberrações conjugais que não tardam a gerar escândalos.

Lembremos, aqui, apenas das relações comportadas e sutis entre homens que são dotados de poder político ou econômico com mulheres dotadas de beleza, charme e inteligência. Mulheres emancipadas, que são muito mais do que corpos bonitos, mulheres ótimas para conversar e que transmitem boas ideias.

Boa parte dessas mulheres, no Brasil, acaba se casando com grandes empresários, profissionais liberais ou executivos, sejam bem mais velhos ou ao menos com a diferença etária correspondente a um irmão mais velho (sendo ele de dois a quinze anos mais velho que ela). O que significa, para o coitado do brasileiro comum, que, para se casar com uma mulher capaz de lhe mostrar ideias e valores bacanas, de render uma excelente conversa e lhe trazer lições e conhecimentos para sua vida, esse brasileiro tem que, ao menos, montar alguma empresa, tipo um restaurante numa rua movimentada do Leblon, ou ao menos ser diretor de cinema, advogado ou engenheiro.

Se esse brasileiro comum não for mais do que um nerd que ainda mora com os pais, que mal tem uma formação de bacharel e cuja rotina nos fins de semana é assistir a comédias de Marcelo Adnet na televisão, além de ter sentimentos de perfeito cavalheiro no trato com as mulheres, seu destino, infelizmente, é namorar uma mulher que se enquadre no perfil de Tati Quebra-Barraco, Joelma do Calypso ou Mulher Melão ou, na "melhor" das hipóteses, uma insossa garota "normal" de "boa pinta" do Big Brother Brasil. Tipo uma Priscila Pires da vida.

Mas nem sempre quem tem dinheiro e poder é dotado de uma personalidade admirável ou atraente. E aí chega a maioria de empresários, profissionais liberais e executivos - não vamos falar das exceções, que existem, mas elas mal têm espaço em Caras, coitadas - que, exemplar nos seus desempenhos profissionais, são completamente decepcionantes na hora do lazer.

Por isso a mulher que, além de ser atraente - mas pode ter uma beleza modesta - , se interessa muito por Artes, por Política (mas sem a obsessão chata dos homens no assunto), tem boas ideias, exerce o senso crítico e é independente até para ouvir música, sem depender das ridículas rádios popularescas, tem o destino sofredor de se casar com o primeiro banana de plantão que demonstre que possui ou uma empresa, ou um escritório, um cargo de mando etc, e ainda ter de aguentá-lo até as circunstâncias determinarem.

Essas mulheres emancipadas pagam pelo fardo de serem casadas por homens sisudos e completamente sem graça, que essencialmente não passam de paletós falantes, num fenômeno de casamentos sem afinidade que até existe no Primeiro Mundo, mas não é tão comum quanto no Brasil.

Não fosse o estado de espírito preso ao planejamento estratégico, esses homens "amantes" do terno-e-gravata, das bebidas alcoólicas ingeridas por vaidade (refrigerante é pra criança e suco de frutas é pra doente, acreditam) e das formalidades sócio-profissionais, certamente teriam passado vergonha nos momentos de lazer, pois graças à estratégia eles podem ser chatos, superficiais e artificiais nos referenciais, na conduta e nas conversas. Por exemplo, são capazes de falar sobre artes plásticas tendo apenas um conhecimento superficial do assunto, mas dando a falsa impressão de que conhecem profundamente suas obras.

O contraste desses homens, que são a mesmice travestida de elegância, bom gosto e requinte, só porque eles exercem cargo de comando de alguma coisa, contrasta com a personalidade dinâmica e ensolarada de suas esposas, porque, enquanto estas conseguem aliar inteligência e prazer, sendo as mesmas brilhantes mulheres na profissão e fora dela, seus maridos são brilhantes apenas quando conseguem rendimento econômico em seus empreendimentos ou profissões liberais. Eles ficam com aquele ranço profissional terrível, que os faz, na reunião de amigos, ele agir como se estivesse numa reunião de negócios, falando basicamente de política e negócios. Ou então falando, de uma forma apenas um pouquinho mais coloquial, como se estivesse expondo um seminário sobre Economia e Negócios.

Como maridos, mais parecem meros tecnocratas da relação conjugal. Ficam assistindo a canais de notícias e pensam que, fora isso, de diversão só existe futebol e DVDs de pop adulto estrangeiro. Saem com a mulher e os filhos no acampamento mais preocupados com as chaves do carro e da casa. Estressados na sua rotina profissional, tratam a saudável algazarra dos filhos com o mesmo jeito aborrecido de quem está no congestionamento das ruas na volta para casa. Usam bermuda ou calça jeans com tênis com tamanha má vontade, mas em eventos chiques mal conseguem esconder a vaidade quando aparecem com os mesmíssimos ternos, gravatas e sapatos de verniz.

No entanto, tais casamentos, completamente insossos, permanecem estáveis não pela afinidade do casal, cuja inexistência ou, quando muito, insignificância, é gritante até quando a esposa, se famosa, dá uma entrevista tipo "pingue-pongue" (palavra-chave e ideia dada pelo entrevistado) e responde o ítem "homem bonito". O marido é a última pessoa que seria lembrada pela própria mulher que, além disso, quando responde com quem levaria junto para uma ilha deserta, ou essa mulher responde "os filhos", ou então se limita a dizer secamente "ficaria com minha família".

A durabilidade desses casamentos, portanto, não pode se equiparar com os autênticos casamentos estáveis, não muito comuns em nossa sociedade, por serem feitos por pessoas com natural afinidade entre si.

Os casamentos artificialmente duráveis o são pela paciência da mulher e pela habilidade do marido em "gerenciar" a relação. Além disso, todo um sistema ideológico de valores cria um clima de dependência psicológica do (bastardo) casal. O casal não é apaixonado, até sente algum "amor", mas os filhos são envoltos numa dependência psicológica dessa forjada união, dependência que também se observa nos amigos, nos vizinhos, numa rede de relações sociais nas quais a relação conjugal está inserida.

Além disso, a própria mulher classuda se torna "refém" da relação. Ela tem condições de viver solteira, bem mais condições do que uma dançarina de "funk", por exemplo, mas o "sistema" a faz ter medo da separação. O marido também tem medo de ser um "ninguém" sem a esposa. Ou, melhor dizendo, ele é um ninguém cujo sentido está em ser marido daquela mulher interessante e dinâmica. É um "banana de gravata" casado com uma bela mulher. Sem a bela mulher, é um "banana de gravata", um mero patrão sem primeira-dama de coisa alguma, é um rei que, sem rainha, se sente um destronado.

O que prova o quanto o machismo é uma ideologia inferior, totalmente mesquinha, em que a nulidade masculina precisa sempre do trampolim social de uma grande mulher. O machismo chique da maioria dos empresários, profissionais liberais e executivos expressa baixa auto-estima, disfarçada pelos truques da elegância, da formalidade e da "maturidade" que o padrão sisudo de comportamento oferece.

Mas um casamento que se torna duradouro sem amor é como um objeto que, conservado por fora, apodrece por dentro. Mas quando a podridão se amplia e destrói o verniz da conservação, não dá para esconder o objeto podre que se torna irrecuperável.

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