terça-feira, 2 de março de 2010

PAULISTOCENTRISMO PERMITE DOMINAÇÃO DE OLIGARQUIAS REGIONAIS



Analisar as armadilhas da grande mídia apenas sob o ponto de vista de São Paulo é um grande perigo. Mesmo considerando episódios regionais do poderio da grande mídia de caráter regional - que não deve ser confundida necessariamente com afiliadas regionais das grandes redes, embora elas sejam incluídas no caso - , a abordagem paulistocêntrica, a transformação de São Paulo num filtro até mesmo para as queixas de manipulação e poder no interior do país, é um perigo que deve ser levado em conta, pelos efeitos que pode causar, de propósito ou por puro consentimento.

Isso é um alerta diante do vício de críticos da grande mídia em reportar apenas o que acontece de abjeto no eixo Rio-São Paulo, sobretudo em São Paulo. Ou da atitude hipócrita de certos críticos da grande mídia localizados no Paraná, para os quais as queixas sobre a prepotência oligo-midiática do Norte/Nordeste soam como zumbidos de marimbondos, a ponto de apagar qualquer texto que mostre o poderio da grande mídia além da Av. Paulista e do corredor midiático Jardim Botânico-Jacarepaguá, nas comunidades em que o tal paranaense organiza no Orkut.

Também não adianta depender tão somente de uma Caros Amigos ou Carta Capital para que denúncias sobre a prepotência midiática do Acre, por exemplo, tenham repercussão. Coitado do jornalista paraense ameaçado de morte por um "coronel" midiático local e quiser escrever sua queixa num texto dessa comunidade "contra" a mídia golpista no Orkut. Se sua denúncia não aparece primeiro na Caros Amigos, ele será tratado como um zé mané metido que não vive as delícias da regionalidade cultural.

Isso, da parte de um jornalista paranaense que, surdo aos apelos do jornalista paraense, no entanto arrogantemente se acha o guardião da cidadania e da informação, um sujeito que enxerga os problemas de sua comunidade em Curitiba, mas é incapaz de enxergar os problemas de Santarém, Xapuri, Barreiras, Santana do Paranapanema. Ou seja, como "herói da opinião pública", esse jornalista paranaense que controla a comunidade "contra" a mídia golpista no Orkut possui um raio de ação limitado, portanto não pode ser herói, não pode ser superherói, não posse ser coisa alguma. Se algo errado acontece além da Av. Paulista e do corredor Jardim Botânico-Jacarepaguá, ele permanece indiferente. Neste caso, ele é até pior do que a mídia golpista que ele critica, pela negligência que age com isso.

A visão paulistocêntrica, mesmo quando tenta acatar as denúncias da violência midiática do interior, desde que elas sejam difundidas primeiro pela mídia paulista, é um perigo na medida em que o resto do país permanece impotente para reagir ao poderio regional das grandes mídias locais.

Sem reagir a esse poderio regional, o poderio de cada oligarquia dominante em cada região se mantém, se fortalece. Se a reação não vem a cavalo, mas de um avião vindo de São Paulo ou Guarulhos, os oligarcas ficam tranquilos. Em caráter federal, eles são apenas vilões distantes, cujo poder é apenas verbalmente contestado, ou remotamnte punido em frágeis medidas judiciais. Mas, em caráter regional, eles são os reis com poder não-assumido, porque eles são os "excluídos da nação", já que as coisas são interpretadas sob o ponto de vista dos grandes centros sudestinos.

A indiferença ou a subestima a esse poderio regional permite que na grande mídia regional sejam veiculadas críticas à grande mídia nacional. Assim, a grande mídia regional veste o disfarce de "mídia excluída", adota o discurso da mídia nanica, o que é por demais patético.

A grande mídia regional que não tem vínculos com as grandes redes, então justifica seu poder regional pelo relativismo de pequenez se comparado ao poder federal das grandes redes. Ou seja, como "não é" a grande mídia sediada em São Paulo, detentora de poder de difusão federal, pelas redes de distribuição e transmissão, então "não pode ser" a grande mídia, no sentido de grande rede, no sentido territorial.

No entanto, o poderio regional, em dimensão suficiente para afirmar sua prepotência local, manipulando as populações de forma aliciatória ou opressiva, se afirma, se estabiliza e se fortalece. Para piorar, certos críticos da grande mídia, reféns da obsessão pela visibilidade, fazem apenas críticas corretas da grande mídia paulista, mas se comportam feito criancinhas deslumbradas diante da grande mídia regional, a pretexto desta "dar espaço às mais diversas visões da sociedade".

Diante de tanta coisa acontecendo na "mídia boazinha" de todo o país, onde muitas coisas assustadoras acontecem na mídia "menos reacionária" nacional ou regional, é bom estar de alarme. É bom que os críticos regionais da grande mídia desconfiem das armadilhas da grande mídia regional, que não pode ser tratada como se fosse uma "mídia nanica com mais dinheiro", não pode ser vista como "mídia emergente".

O poder regional da mídia tem que ser contestado na sua dimensão regional. Em caráter estadual ou metropolitano, essa mídia já exerce poder suficiente de controle social para que se reaja a ela com indiferença ou subestima. É preciso romper com o monopólio da visão paulista, até porque as realidades de Salvador, Xapuri, São Luís, Santana do Paranapanema, Uberlândia, Santarém, são diferentes da de São Paulo. As regiões têm suas peculiaridades, e têm, também, seus contextos de poder midiático.

Aqui vale aplaudir o pioneirismo dos gaúchos, que criticam o poder da mídia sem esperar o filtro da Av. Paulista. Pode ser RBS, Bandeirantes gaúcha, Ulbra, o que for. Onde a prepotência midiática acontece, os críticos gaúchos reagem. Sem essa lorota de "mídia nanica com mais dinheiro".

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