terça-feira, 9 de março de 2010

O OUTRO LADO DA MÍDIA GOLPISTA



Certamente, os questionamentos em torno da mídia golpista dão ênfase nos veículos que integram o Instituto Millenium (espécie de IPES repaginado), como a Globo, Folha, Estadão e Veja. E que, na análise crítica da mídia, é consenso de que essa facção da mídia é a mais reacionária e mais explicitamente conservadora.

Mas não devemos definir o veneno da cobra pela mordida. Há uma mídia direitista, silenciosa, que é tão conservadora quanto a outra mas fica quieta. Mas ela não vai aos fóruns do Instituto Millenium, não se associa a instituições como esta, não criminaliza o tempo todo os movimentos sociais. Quieta, prefere investir no lado cor-de-rosa da sociedade neoliberal, com reportagens tolas sobre movimentos em shopping centers ou em noticiar pesquisas banais como as que indicam que homens com mais de 40 anos tendem a coçar o nariz mais durante o sono do que as mulheres na mesma faixa de idade.

Com o showrnalismo light, a "mídia boazinha" é a cobra adormecida da grande mídia. Por razões concorrenciais, ela fica de fora da mídia claramente golpista. São cobras venenosas dormindo em silêncio, nas suas tocas. Seu showrnalismo feliz, alegre, conforta e tranquiliza a facção mais frágil dos críticos da grande mídia, que encaram a "mídia boazinha", ou "mídia fofa" - em comparação com a "mídia gorda" simbolizada pelo quarteto "fantástico" da Globo, Folha, Estadão e Abril - com um deslumbramento quase infantil.

É como se, para estes críticos frágeis, o Papai Noel, através da "mídia fofa", trouxesse de presente para ele o "bom jornalismo". Com notícias substanciais como a madame inglesa que oferece um café da manhã reforçado para seu cãozinho poddle, com direito a uma cadeira própria e guardanapos. Se for no rádio (em FM, como reza o mundo tecnocrático), depois de debates inúteis sobre o sexo do PMDB e entrevistas com professores universitários analisando a relação dos buracos nas ruas de São Paulo com a reunião dos sacerdotes do Vaticano.

O "líder de opinião", que pertencia a uma safra mais acomodada de blogueiros, hoje apagada por uma geração com maior apetite de senso crítico, que é a atual e da qual este blog faz parte, fazia seu teatrinho de senso crítico em seus blogs cujos textos eram todos enfeitados com fotos de personalidades políticas, jornalísticas e estatais, sempre alternando autoridades como prefeitos e governadores com funcionários públicos em camisas de botão, ou jornalistas de camisas de gola, gesticulando com a boca aberta para dar tom de movimento aos blogs.

Neste teatrinho, ele até publicava queixas por e-mail de uma esposa de um vereador de Cabrobró de Pirijipe denunciando que o marido recebe ameaças de morte por denunciar a corrupção do partido direitista local. Algo para disfarçar o paulistocentrismo desse arqueo-blogueiro, para o qual o inferno da grande mídia se limita ao ramal "Av. Paulista - Jardim Botânico (via Jacarepaguá)". Só que ele alterna denúncias deste tipo com notas banais sobre a corrupção de sua região, geralmente copiadas da imprensa local, e comentários deslumbrados sobre tal rádio FM ou emissora de TV que faça o preceituário da "mídia fofa" em geral.

Aí, se a rádio Falcatrua & Maracutaia FM contratou "aquela" equipe esportiva e o proprietário da rádio é desafeto de certos dinossauros políticos da região, o arqueo-blogueiro de senso crítico anoréxico - mas que cumpriu o dever de casa "baixando" a lenha na Rede Globo em texto disfarçadamente copiado da Carta Capital - é todo amores com esta rádio, com seu dono, elogiando até a secretária que recebeu o arqueo-blogueiro em sua "inocente" visita à sede da emissora. Pessoas assim até reconhecem certos tipos de cobras venenosas, mas outras cobras venenosas preferem ser por elas consideradas como "minhocas inofensivas".

Até que no mundo ensolarado de guloseimas da mídia fofa chegam nuvens cinzentas anunciando o temporal. E aí, vemos a "mídia boazinha" fazendo coisas de deixar a mídia golpista de cabelo em pé. Os ataques da TV Bandeirantes ao Movimento dos Sem-Terra, a violência verbal de Mário Kertèsz (antigo udenista-arenista) da Rádio Metrópole, de Salvador, contra os esquerdistas baianos que ousavam apoiar a rádio, as campanhas da revista Isto É em favor de Fernando Collor de Mello. A Isto É também atacou o MST. Em muitos casos, a "mídia boazinha" concretiza na prática o que para os articulistas de Veja e da Folha apenas sonham em fazer.

E o que dizer da imprensa populista, popularesca, que imbeciliza a população pobre exaltando a alienação do futebol, das mulheres-frutas e do Big Brother Brasil? Não seria ela integrante da mídia golpista, por desviar o debate público das classes trabalhadoras para a discussão vazia das intrigas que os mentirosos personagens do BBB fazem ou deixam de fazer no programa? Com BBB, mulheres-frutas, bobagens futebolísticas a imprensa popularesca chega a fazer muito mais do que os capatazes dos latifundiários no empenho para a dissolução dos movimentos sociais.

Não nos esqueçamos que a Folha de São Paulo, há 25 anos atrás, integrava a "mídia boazinha". Havia apagado seu passado em defesa do Golpe de 1964, do AI-5 e mesmo da tortura de presos políticos no Brasil, através da armação do "Projeto Folha", que virou paradigma dominante de jornalismo no Brasil, cujo modelo poderia ser traduzido até pelo rádio e pela TV.

Quanta gente se iludiu com o Projeto Folha. Quantos indivíduos comuns de classe média sentiam a vaidade de tomar o café da manhã com a Folha de São Paulo a tiracolo, se achando "intelectuais" só porque apreciam o "bom jornalismo". Falando hoje, parece um absurdo, mas parecia que era ontem que a Folha de São Paulo e seu executivo yuppie, Otávio Frias Filho, simbolizavam o ideal de modernidade, progresso e vanguarda de ideias que todo cidadão sonhava apoiar e perseguir.

Daí veio 2002 e Folha mostrou-se novamente reacionária, em certos momentos até mais retrógrada que o Estadão - o jornal dos Mesquita que em 1932 havia comandado a revolta de Nove de Julho da burguesia paulista - , defendendo a dupla PFL-PSDB (hoje DEM-PSDB), e, mais recentemente, agravou seu reacionarismo chamando a lamentável experiência da ditadura militar brasileira de "ditabranda", como se ela tivesse sido coisa pequena (mas não foi, ainda que consideremos que a ditadura chilena de Augusto Pinochet tenha sido pior que a brasileira, porque lá foi AI-5 o tempo inteiro). E hoje, vemos Otávio Frias Filho - o "inocente" colaborador da "esquerdista" revista Piauí - comandando o Instituto Millenium junto com os Mesquita, Civita e Marinho, depois que o Projeto Folha tornou-se o "modelo" de jornalismo a ser seguido.

O próprio Grupo Bandeirantes de Comunicação tem passado tão sombrio quanto a Folha. Foi uma empresa do político corrupto Adhemar de Barros, avô materno do atual proprietário João Carlos Saad. Adhemar patrocinou, com sua esposa, a maior das marchas Deus e Liberdade que pediram o golpe militar de 1964, a do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 19 de março daquele ano, furiosa manifestação contra os movimentos sociais em ascensão na época no Brasil.

Recentemente, o grupo contratou Bóris Casoy, que estava do lado mais golpista em 1968, o mesmo Comando de Caça aos Comunistas que estava no IPES, nas marchas Deus e Liberdade e tudo, que praticou vandalismos na UNE (sua sede foi incendiada por seus membros) e na Rádio MEC do Rio de Janeiro e até sequestraram e mataram um padre pernambucano. E Bóris fez comentários grosseiros contra garis que vasaram por uma falha dos operadores de áudio. E o que a Bandeirantes, "paladina da cidadania", fez? Protegeu Casoy e demitiu os operadores. Ou seja, na prática, garis e operadores de áudio foram atacados na Band, tal qual o MST.

Mas a Band não vai ao fórum do Instituto Millenium, não faz as mesmas campanhas da Folha de São Paulo (com exceção às contra o MST), por isso "não é mídia golpista". Mas Eliane Catanhede trabalha na Band News FM. E agora, "líderes de opinião"?

Essa fé de certos críticos da grande mídia na "mídia fofa" se equipara na credulidade que certos militantes ou intelectuais de esquerda tinham, há cinquenta anos, na burguesia nacional na luta contra o imperialismo. "Não, a burguesia nacional pensa no nosso país, ela está no lado dos trabalhadores, dos movimentos sociais", diziam esses crédulos. Ignoraram eles que a burguesia nacional, em boa parte dela, estava associada ao IPES e aos movimentos reacionários que realizaram o Golpe de 1964. E que se tornou, não obstante, entreguista, com seus empresários-fetiche vendendo ações para grupos estrangeiros.

Como se vê, a cobra venenosa não se conhece pela sua mordida. A cobra venenosa se conhece pelo seu veneno.

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