terça-feira, 30 de março de 2010

O "HOMEM PADRÃO" DE QUARENTA ANOS



O que é chegar aos 40 anos? Eu ainda não cheguei lá, mas vejo quantos quarentões considerados de grande sucesso sócio-profissional, ligados às classes abastadas e com suas famílias estáveis, se comportam.

Chegar aos 40, para eles, é a tentação de jogar fora toda a jovialidade e o verdadeiro prazer de viver que tinham na juventude, desenvolvendo um padrão "moderado" de comportamento que eles acreditam ser o caminho seguro para a maturidade e para o prestígio social entre as demais pessoas.

O sujeito monta uma empresa, por volta de seus 35 anos, se casa com uma mulher de personalidade bem interessante e aparência muito atraente. Geralmente com pelo menos quatro ou seis anos a menos do que ele. Aí ele obtém sucesso nos negócios - ou nas profissões liberais, se for o caso - e, quando chega aos 40 anos e vê avançar o embranquecimento dos fios de cabelo, ele então tenta mudar sua conduta.

Sobrecarregado na sua profissão, emocionalmente envolvido com ela, esse quarentão acaba moldando sua personalidade e seu lazer de acordo com sua profissão. Sendo ele um empresário, executivo ou profissional liberal, ele acaba transformando seu lazer numa vitrine de sua profissão. Quando ele aparece nas festas ou nas reuniões com os amigos, ele não é mais aquele fulano, o bom amigo da juventude, mas o empresário tal.

Sua aparência viril dos tempos de faculdade se transforma num perfil sisudo e cansado. É evidente que ele não deixa de rir ou sorrir, mas sua transformação no comportamento o faz calcular até a forma de dar uma risada. Escravo das etiquetas, ele deixa de calçar aqueles alegres tênis com os quais ia para a faculdade e só os reserva quando "necessário", nas caminhadas no calcadão da praia ou do parque, por razões de saúde ortopédica, ou em passeios turísticos, que requer longas caminhadas em centros históricos.

No resto, ele passa a usar sapatos de couro ou verniz até quando vai para o shopping, que para ele é melhor porque passa a imagem de um homem "sério e responsável" até no lazer. Até na forma de andar se muda: ele anda bem mais vagarosamente, seus gestos se tornam mais frios, ele passa a falar como se fizesse uma paletra num seminário sobre negócios, seu sorriso perde a espontaneidade.

Ele troca sua trilha sonora, fugindo das músicas agitadas como o diabo foge da cruz. Independentemente da qualidade ou mérito artístico ou artístico-temporal, ele se fixa apenas em alguns heróis "comportados" do cenário musical do pop adulto. A geração de empresários, executivos e profissionais liberais nascida nos anos 50, eles estando hoje nos seus 55 anos em média, elege como "heróis" os medalhões do jazz ou os cantores da época áurea de Hollywood, como Frank Sinatra, Bing Crosby, Nat King Cole e Ella Fitzgerald. Já quem nasceu nos anos 60 e tem em média 45 anos, seus heróis são a turma do Live Aid, como Sting, Elton John, Phil Collins, Rod Stewart e Dire Straits.

A escolha das músicas românticas cantadas por esses ídolos é enfatizada porque o espírito de racionalidade que o "homem padrão" da nossa sociedade, seja quarentão ou cinquentão, requer um lazer mais relaxante, mais sedentário. Adeus às andanças aceleradas dos tempos de estudante. Agora são as caminhadas em ritmo de procissão, como se esses homens tivessem fazendo funeral de si mesmos. Chega de músicas agitadas, entusiasmantes. Agora são as músicas mais lentas possíveis, ainda que seja "I've Got You Under My Skin" ou "So Far Away".

Adeus aos refrigerantes, só aceitos quando nos almoços profissionais porque beber álcool é proibido. Mas, no lazer, apenas uísques, champanhes e vinhos, ou, num momento de maior informalidade (como assistir a uma partida da Seleção Brasileira na TV), cerveja. O pretexto é que refrigerante engorda, causa diabetes e é "bebida de criança". Mas, no melhor estilo "olha só quem fala", uísques, champanhes, vinhos e cervejas também engordam, e muito, e causam diabetes da mesma forma.

Mas até os sucos de frutas esses homens de "sucesso" costumam beber menos. Quando muito, o suco "qualquer nota" do café da manhã. Só por alguma obrigação de saúde. Imagine se um homem desses vai beber suco de uva com sua esposa nas noites de sexta-feira!...

O lazer se torna escravo da formalidade. Até quando tenta ser informal. Daí não ser difícil notar que, apesar dos empresários, profissionais liberais e executivos serem capazes de escrever releases em linguagem coloquial e didática, eles tornam-se tão irremediavelmente sisudos. O lazer vira uma encenação só.

O médico cinquentão passa a demonstrar noções pedantes sobre artes plásticas, geralmente forçando a barra para obras anteriores a 1945, para forjar um preciosismo e impressionar colegas mais velhos. A conversa costuma ser, no entanto, dominada por assuntos políticos e econômicos, temas preferidos pelos homens "sérios", o que mostra o quanto os "pupilos" querem imitar os mestres. Quarentões falando de Oriente Médio como se fossem franceses que viveram no Irã, mas sem ter tido essa experiência. Cinquentões que falam sobre a década de 40 com uma intimidade que não possuem mas acreditam ter de sobra. "Ah, Glenn Miller...", suspira um médico cinquentão que, por pedantismo, trata os referenciais dos anos 40 com uma falsamente exagerada intimidade.

Os 40 anos que esses cinquentões atravessaram nos anos 1990 e 2000 e que os quarentões passam atualmente, certamente, representam as pressões que os valores sociais conservadores exercem sobre quem detém privilégios financeiros e sociais. São obrigados a adotar um comportamento que, mesmo numa simples reunião de amigos, os faça serem reconhecidos como "líderes" ou "chefes" de alguma coisa, ainda que seja de forma mais discreta.

Só que essa seriedade no comportamento acaba dando num efeito desagradável. Homens que, nos tempos de faculdade, eram pelo menos amigos legais, e que na infância eram meninos bem divertidos e dinâmicos, tornam-se meros líderes profissionais que, no âmbito do trabalho, são quase sinônimo de perfeição, mas no lazer se tornam constrangedores no teatro de fingimentos, de falsos sorrisos, de gestos calculados.

A seriedade e outros artifícios aparentemente tolos - como, por exemplo, quando o homem em questão deixa de cuidar-se da forma física, deixando "cultivar" a barriga - acabam por moldar negativamente o homem, transformando-o numa pessoa chata, embora profissionalmente admirável. Um chato que dificilmente as pessoas o julgariam como tal, mas é inegável a falta de entusiasmo diante da pessoa que ele representa na hora do lazer.

O "HOMEM-PROFISSIONAL" SE COISIFICA NA HORA DO LAZER

Sua inteligência "fina" se dissolve como uma farsa. A natural especialidade profissional, a competência técnica, se contrasta com um gosto cultural artificialmente sofisticado, em que o cinquentão de hoje tenta relembrar dos referenciais que ele conheceu na infância e caminha para referenciais mais antigos, sem a intuição natural de quem consegue entender o passado que não viveu, mas com o pretensiosismo forçado de quem quer impressionar os mais velhos.

Esse pedantismo muitas vezes o deixa em maus lençóis, uma vez que o empresário, executivo ou profissional liberal cinquentão, preso em seus procedimentos profissionais, na hora de apreciar a música, por exemplo, perde o senso de discernimento, classificando como "jazz" todo evento que envolva trajes de black tie (o tal conjunto smoking, combinação de terno com gravata-borboleta).

Daí entender por que esses cinquentões acabam pegando esposas mais novas, se desfazendo de seus dois ou três casamentos anteriores. Dois motivos costumam ser alegados: eles "trabalham demais" e "eles são imaturos". Quando eles estão nos seus 25 aos 40 anos, eles se tornaram pais pouco presentes (até presentes, mas longe ainda do ideal), maridos pouco dedicados, enquanto se dedicavam até demais para obter algum sucesso profissional, às custas de novas técnicas de cirurgia, novos projetos de engenharia, novas causas a advogar, novos empreendimentos ou mesmo a gerência de nova grade de programação de TV.

Perdem suas primeiras esposas que se impacientaram em esperar os maridos para reviverem os carinhos dos tempos de namoro. E, assim, sem encontrar alguma outra similar, pegam moças mais jovens. Mas, no entanto, não se adaptam à juventude delas, cujos valores sócio-culturais lhes são ainda estranhos. Afinal, elas viveram a adolescência nos mesmos anos 80 em que seus maridos cinquentões estavam trancados nos escritórios ou consultórios ou fazendo teses de pós-graduação nas faculdades, praticamente sem ver a vida passar.

A sisudez torna-se evidente. A obsessão pela elegância, o pedantismo cultural, a formalidade compulsiva, tudo isso faz com que os cinquentões se tornam pessoas bem diferentes do que eles mesmo eram aos vinte e tantos anos. É só comparar as fotos de um homem do gênero aos 22 anos e ele mesmo aos 55.

Parecem pessoas diferentes! O cara de 22 anos parece, para o mesmo sujeito aos 55, um filho que ele quis matar. O cinquentão mal se consegue ver nas antigas fotos sem que expresse um saudosismo hipócrita, de uma "saudosa" juventude que ele mesmo quis liquidar, de uma "saudade" que dura segundos, porque ele volta a si e à mesma sisudez presente, da busca de uma maturidade formal que, mentalmente falando, revela-se muito mais imatura do que parece.

E é essa armadilha que começa a seduzir os quarentões de hoje. A sobrecarga profissional pode fazer os homens "de sucesso" verdadeiros seres humanos. Mas, no lazer, eles se transformam em meras coisas, seres quase autômatos que "entendem de artes plásticas", meros bonecos sofisticados e elegantes. Como pais, esses homens não podem reprimir seus filhos, mas também não conseguem ser cúmplice deles, a jovialidade dos meninos se torna algo estranho para seus pais, que perderam a jovialidade há anos.

Esses homens "sofisticados" rompem com o prazer da juventude, ignorando que não se amadurece dessa forma tão brusca, desse "amadurecimento" formal e superficial, um reles "amadurecimento" de gestos, poses e vestuário, que escondem a insegurança da personalidade. Também não adianta forjar uma falsa jovialidade, tipo a de Malcolm Montgomery, se ela é mais fruto de uma mentalidade estratégico-organizacional do que da própria vontade humana.

Afinal, que vontade têm esses homens, que até para sorrir calculam demais? Eles tornam-se escravos da sua profissão sócio-profissional, não sabem mais o que fazer para serem interessantes como seres humanos e não somente como profissionais renomados. Os cinquentões se perdem porque, meras imitações risonhas dos idosos, não conseguem, no entanto, impor autoridade aos mais jovens. Até porque se tornaram artificiais, nas suas regras de etiqueta, na sua racionalidade extrema dos gestos, procedimentos, vestuário, gostos e por aí vai. Dão uma péssima lição para os quarentões, que, nos seus escritórios e consultórios, perdem a forma física, a alegria natural e o prazer de curtir os momentos de ócio.

Enquanto a sisudez comportamental é sinônimo de sucesso financeiro e prestígio social, os homens "de sucesso" ficam felizes. Mas eles, se tornando idosos e aposentados, veem que tudo se passou de uma ilusão. A sisudez só lhes trouxe depressão, tristeza e vazio.

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