quarta-feira, 24 de março de 2010

O DISCURSO HIPÓCRITA DOS FANÁTICOS MODULADOS



Na farra da Aemização das FMs atingindo seu último foco de resistência, o rádio do Rio de Janeiro, surgem da noite para o dia adeptos eufóricos em embarcar na cauda do cometa.

Eu e meu amigo Marcelo Delfino, o corajoso e atuante autor do Tributo ao Rádio do RJ, parceiro meu do blog Preserve o Rádio AM, sentimos o drama da crise mundial que sofre o rádio AM e do esnobismo com que tecnocratas do rádio, radialistas e radiófilos fazem com o rádio AM digital, que eles afirmam ser um projeto "natimorto". Preferem o rádio FM analógico, e há 40 anos ouvimos a mesma lorota de que Aemão de FM é "novidade". Seja na periferia de Xapuri, seja na Av. Paulista, em São Paulo.

Pois eles agora tentam fazer um discurso esquisito. Dizem que nós, que lutamos contra a extinção da faixa de sintonia AM (Amplitude Modulada), somos "inimigos do rádio AM". Eles, que querem matar a pauladas a Amplitude Modulada e salvar meia-dúzia de emissoras AM transferindo-as para o FM, são "os amigos do AM".

É o mesmo discurso do criminoso passional perverso que vive dizendo que tirou a vida de sua esposa porque amava ela. Ou então é a mesma retórica do Amigo da Onça, aquele personagem de cartum famoso por desejar prejuízo aos outros de forma aparentemente cordial.

Felizes porque uma Rádio Globo AM terá, no Rio de Janeiro, uma afiliada em FM, ativando a "competitividade" das "rádios AM em FM" com a Rádio Tupi, CBN, Band News e a moribunda Transamérica, esses "fanáticos modulados" partem para o ataque, como um tal de "beltrame bahia", que chamou de "latidos" os meus textos, que certamente ele nem deve ter lido direito, é desses que, quando identificam alguma discordãncia com o que eles pensam, reagem em desaforos.

Sabe-se que "fanático modulado" é aquele que é fanático por rádio FM. Preferem um rádio FM fedendo a mofo do que um rádio AM recauchutado e novo. Preferem jogar velhas fórmulas do rádio AM nas FMs - na maior parte do país, as transmissões esportivas feitas em FM parecem retiradas de arquivos de 40 anos atrás, de tão caquéticas e sonoramente velhas - do que lançar novas ideias em rádio AM.

Portanto, o "novo" que esses fanáticos modulados tanto falam é o novo de aparência, de fachada. É mudar para permanecer o mesmo. Também tantou se falou da péssima programação da TV aberta, quando dos primórdios dessas baixarias. Falava-se em "vontade do povo", "mais agilidade na televisão", "mais realidade, mais humor, mais verdade", "mais interatividade".

Também houve um tempo em que muitos que criticavam figuras como Xuxa, Ratinho, Sônia Abraão e Wagner Montes eram tidos como "saudosistas", "nostálgicos", que a exibição de glúteos rebolativos na televisão, na hora do almoço e na mais explícita exposição à criançada, era o retrato do "novo" na televisão brasileira, o qual tínhamos apenas que respeitar e aceitar.

Não falam que o brega-popularesco é a "verdadeira cultura popular" e que nós, que o criticamos, somos "preconceituosos" e "invejosos"? Mas, em 1964, também a ditadura militar, que depois custaria a vida de muitas pessoas, simbolizava o "novo" da vida política nacional, em detrimento ao "velho nacionalismo" renovado por João Goulart. Tanto que, durante muitos tempos, a ditadura militar, conhecida como "ditabranda" pelos aliados do Grupo Folha, era oficialmente conhecida como "Revolução de 1964" e o regime militar, como "governo revolucionário". E quem falava mal não só era xingado e espinafrado, como poderia ser detido (com sua casa invadida e até vasculhada pelos militares), preso, torturado e morto.

A própria Aemização das FMs já é um projeto vindo da ditadura militar, das FMs interioranas de nosso país. Mas, para certos paulistanos, cariocas, gaúchos e belzontinos que vivem uma espécie de "bairrismo urbano", o latifúndio é o futuro, o coronelismo é a vanguarda. Daí defendem a "modernidade" da cultura brega-popularesca, quando ela é um subproduto do latifúndio. Daí defendem a Aemização das FMs, quando ela começou no coronelismo. Dai defendem o agronegócio, que insemina nas isoladas roças de nosso país o vírus do imperialismo que irá destruir os últimos focos de regionalismo brasileiro que existem.

No caso dos fanáticos modulados, a euforia que eles sentem em relação à entrada da "Rádio Globo AM" no rádio FM, ou na multiplicação de talk shows e jornadas esportivas, vai muito além da conta. É uma euforia maior que a festa. E, se a euforia é maior que a festa, é bom desconfiar. Algumas promessas de lucros extras, viagens para os países-sede da Copa do Mundo, assessorias em clubes esportivos, eletrodomésticos como brindes pelo apoio, enfim, é tanta mamata que não se dá conta.

É claro que ninguém vai assumir. É claro que, quando se fala que o Aemão de FM tem muito jabaculê, os caras não gostam. E jogam xingação, mensagem irritadinha, contra nós. Porque ninguém vai assumir algo que é feito às escondidas. José Roberto Arruda vai dizer que é corrupto? De jeito nenhum. Tenho pena das pessoas que, vendo que alguém é investigado por corrupção, perguntam ao corrupto se ele pratica corrupção. Ele, evidentemente, vai dizer que não.

A hipocrisia social está imensa, sobretudo através de pessoas arrogantes e metidas que se apressam em dizer, sobretudo no Orkut, que "odeiam hipocrisia". Mas praticam hipocrisias maiores do que as condenam, porque eles só condenam a hipocrisia que vai contra os interesses deles. Se ela vai a favor, eles aderem, e dizem que "não é hipocrisia".

Os fanáticos modulados agora forjam a imagem de "amigos do rádio AM". Acham que nós estamos atrapalhando o trabalho de expansão de certas emissoras tradicionais, por isso "somos inimigos do AM". Como somos "inimigos da democracia", para os militantes e membros do reacionário Instituto Millenium.

Eles defendem a supremacia de umas poucas FMs com roupagem de AM, aquelas ligadas aos detentores de poder, e pensam que defendem o rádio AM como um todo. O mesmo papo do "livre mercado" usado para justificar oligopólios, o que mostra o quanto o rádio brasileiro vive hoje uma fase de capitalismo selvagem.

Na inversão de valores causada pelo malabarismo retórico dos demagogos, nossa luta por justiça social é sempre vista como "maldade", "bondade" é defender os privilégios dos poderosos, é vibrar com as migalhas que as elites querem nos dar, como se fosse grande coisa. País recente, o Brasil ainda não consegue compreender a prepotência dos donos do poder, com suas palavras de mel que escondem peçonha nas ideias.

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