sábado, 13 de março de 2010

O CORONELISMO MUSICAL DO BREGANEJO


VÍTOR & LÉO - EXPRESSÃO MUSICAL DOS NOVOS BARÕES DO AGRONEGÓCIO.

Dá perfeitamente para perceber por que este blog recebeu comentários reacionários e até violentos contra as críticas aqui feitas aos ídolos "sertanejos" Zezé Di Camargo & Luciano, Vítor & Léo e João Bosco & Vinícius.

A dita "música sertaneja" é o equivalente musical do coronelismo, do latifúndio, das elites do agronegócio. Em outras palavras, é a música dos grandes proprietários de terras, de grileiros, e até mesmo de empresas estrangeiras que detém parte do solo brasileiro, em grandes propriedades, sem o menor escrúpulo em ameaçar a soberania nacional.

A "música sertaneja" de hoje é apenas uma pálida diluição da música caipira de outrora, que ameaça desaparecer, infelizmente, por conta da pressão mercantilista dos diluidores, também conhecidos como breganejos, já que são mais herdeiros de Waldick Soriano (os "sertanejos universitários", de Odair José e Paulo Sérgio) do que de Cornélio Pires, antigo músico caipira do início do século XX.

A primeira geração ainda emulava as músicas caipiras, com muita canastrice, mas com quase verossimilhança. Esses nomes estão para a música caipira assim como os ídolos neo-bregas de hoje estão para os medalhões da MPB. Ou seja, pessoas recrutadas para seguir as normas da indústria fonográfica que os verdadeiros artistas tentaram seguir a contragosto.

Assim como um nome como Alexandre Pires segue, com fidelidade canina, os preceitos fonográficos que um sambista autêntico como Almir Guineto se recusaria a seguir, e que outro grande sambista, Jorge Aragão, tenta seguir parcialmente, a diluição da música caipira que seria imposta a uma dupla como Tonico e Tinoco é seguida com vontade por Chitãozinho & Xororó e outros que vierem na cola.

A diluição da música caipira se deu com a assimilação obrigatória de elementos do country e dos mariachis mexicanos, além dos boleros já pasteurizados pela geração brega de Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo. É certo que tais elementos foram assimilados, nos anos 60, por intérpretes caipiras autênticos, mas aí foi uma livre opção, não uma regra, e era algo que não era assimilado de forma servil, era uma expressão que se somava à música caipira, do contrário que a diluição que assimilava esses ritmos estrangeiros para, praticamente, anular a expressão musical caipira.

Desta forma, os breganejos que surgiram a partir de Chitãozinho & Xororó - cuja diluição da música caipira, além de imitar pessimamente o legado das excelentes duplas norte-americanas Everly Brothers e Simon & Garfunkel, copiando em timbres neuróticos a harmonia vocal dos irmãos Everly, assimilava a caretice musical dos Bee Gees do final dos anos 60 - , como Christian & Ralf, Gian & Giovani e, um pouco mais tarde, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel etc, ja transformavam a música caipira num engodo confuso, mas no começo de suas carreiras, ainda havia um simulacro de regionalidade, bastante caricato e estereotipado, por sinal.

Essa primeira geração "sertaneja" temperava sua canastrice musical com a cínica apropriação de sucessos da música caipira por eles ameaçada, além do esforço de bajulação a músicos caipiras condescendentes, como Renato Teixeira e Almir Sater, ou nomes caipiras antigos que tiveram que apoiar os picaretas por questão de sobrevivência, como Tonico e Tinoco e Pena Branca & Xavantinho.

Chitãozinho & Xororó, que nunca tiveram um grande sucesso de lavra própria, construíram sua carreira de esperteza se apropriando de uma música de Lamartine Babo e Ary Barroso, gravada originalmente por Elisinha Coelho, em 1932, "No Rancho Fundo". A bela canção, que também foi gravada por Elizeth Cardoso, estava esquecida, e a dupla paranaense, ao se apropriar da música, tomou-a como se fosse "sua". A dupla - na verdade os irmãos José e Durval Lima - já havia se apropriado de uma antiga canção caipira, hoje esquecida, e sua apropriação à música de Lamartine e Ary foi tal que acabou batizando a (grande) fazenda dos dois irmãos da cidade paranaense de Astorga.

A esperteza acaba enganando até mesmo historiadores sérios da MPB, que pensam que Chitãozinho & Xororó são "a última dupla da fase áurea da música caipira". Não, a dupla é a primeira a diluir e distorcer a música caipira brasileira.

Na medida em que esses ídolos breganejos fazem sucesso e aumentam seu público, a diluição que eles fizeram chega ao ridículo de se converter numa urbanidade sem pé nem cabeça, onde já nem fingir-se de caipiras eles conseguem mais. Tentam todos os caminhos, macaqueiam de Zeca Baleiro a axé-music, se perdendo no caminho que nem sequer seguiram direito, mas conseguiram outrora enganar.

"SERTANEJO" EM RITMO DE MEC-USAID E ASTRAL DE CCC - E aí chegam os "sertanejos universitários" que, em tese, ouvem de tudo, até rock estrangeiro. Parecendo caubóis novos entrando numa cidade fantasma, eles tentam fazer um som mais "moderno". São uma espécie de breganejo jovem, arrumadinho, com roupas de grife, bons equipamentos e tecnologia, e até ônibus de última geração, que de "universitário" só tem mesmo o "idealismo" herdado dos antigos projetos da ditadura militar para o ensino superior, em parceria com a USAID (Agência Norte-Americana pelo Desenvolvimento Internacional) e dos estudantes reacionários ligados ao Comando de Caça aos Comunistas.

É, portanto, um conservadorismo renovado, que desperta entusiasmo nos jovens direitistas, para os quais qualquer crítica reprovativa é rebatida com fúria e irritação. Até mesmo o constrangedor nome de João Bosco & Vinícius, criticado por este blog, gerou réplicas irritadiças de defensores da dupla que parecem ter saído dos porões do Comando de Caça aos Comunistas, tamanho o reacionarismo.

Defensores do pensamento único, tal qual seus mestres latifundiários, essa "galera" ignora que o autor deste blog nunca mandou uma mensagem contra seus ídolos nos blogs e fotologs favoráveis a eles. Mas eles queriam que O Kylocyclo pensasse como eles, o que é impossível.

O reacionarismo dos defensores de Vítor & Léo - maior expoente do breganejo supostamente "universitário" - , João Bosco & Vinícius ou até mesmo de veteranos como Zezé Di Camargo & Luciano mostra o quanto o breganejo, seja o veterano, seja o emergente supostamente "universitário", representa fielmente o coronelismo na música, já que o coronelismo foi marcado historicamente pelo reacionarismo, pela prepotência, pelo autoritarismo.

Tudo para as elites dominantes manterem suas gigantescas propriedades de terras. E para seus equivalentes musicais transformarem a Música Popular Brasileira em seu latifúndio.

Um comentário:

Edson disse...

Olá
Gostaria de usar seu texto (com sua pemissão é claro) na minha comunidade no Orkut (Caipira Puro)
Achei o texto muito interessante e gostaria de divulgá-lo,lá p meus caipiras!
Fico no aguardo!
Obrigado