sexta-feira, 19 de março de 2010

O BREGA-POPULARESCO COMO "SABÃO EM PÓ" MUSICAL


CAROLINA DIECKMANN - Um dos atores jovens usados para fazer propaganda de ritmos do brega-popularesco.

O brega-popularesco é a "cultura popular" transformada em mercadoria. O que significa que a música brega-popularesca é seu produto, é produto de mídia, trabalhado e promovido como tal. Como um automóvel, como um sabão em pó, essa mercadoria tem que ser vendida, tem que manter rentável durante muito tempo, e é compreensível que hoje em dia os "grandes nomes" da música brasileira hoje são apenas axézeiros, breganejos, sambregas, funqueiros, forrozeiros-bregas e outros que atualmente se reduzem a crooners que lançam sucessivos DVDs e CDs ao vivo e gravam covers com frequência além da conta, tudo para sustentar o sucesso da música medíocre, mas vendida como mercadoria de primeira linha.

Por isso, para manter o sucesso comercial do brega-popularesco, seus produtores e promotores lançam mão de atores de TV para fazer propaganda desses estilos e fazer o jovem de classe média brasileiro associar o brega-popularesco à imagem de sucesso representada por esses atores e atrizes, geralmente emergentes.

É discutível se esses atores e atrizes gostam ou não desses ritmos popularescos. Em muitos casos, eles não gostam dos ritmos que são obrigados a defender na mídia, mas sendo atores emergentes, os contratos envolvem participações em micaretas, vaquejadas, "bailes funk" e o que tiver de similar, que servem de condição para os atores e atrizes fazerem depois comercial de TV ou obter um papel de ponta na próxima novela da Rede Globo.

Uma atriz que, por exemplo, se "entusiasma" no "baile funk", dando entrevista "defendendo" o estilo, na verdade ela está cumprindo uma etapa de seus compromissos contratuais que depois garantirão a ela fazer um comercial de uma linha de cosméticos ou a ser protagonista na próxima "novela das oito". Para isso, tem que rebolar até cair no chão ao som do "funk carioca" (FAVELA BASS) que ela, no íntimo, abomina de tanto ódio, mas que tem que passar o tempo todo dizendo na imprensa que "adora muuuuuiiiiiiiitooooooooooo". Senão não tem comercial de cosmético, não tem "novela das oito" e talvez não tenha lugar sequer para novelas da Record e SBT, porque os executivos de televisão vão logo espalhar que a atriz tem "personalidade difícil".

Essa defesa, portanto, nada tem de espontânea. É apenas propaganda dos ritmos popularescos. Espertos, os empresários de axé-music sempre recrutam jovens atores para ficar no alto do trio-elétrico, dançando e cantando com o respectivo grupo ou cantor que ali toca. Posam para fotos, dizem que tudo aquilo é demais, parece que tudo é espontâneo, tudo é agradável, tudo é lindo.

No entanto, é a mesma coisa da apresentadora que faz propaganda daquele produto de maquiagem que, na verdade, lhe dá forte alergia. Ou do sabão em pó que promete deixar as roupas branquinhas mas não deixa, e o ator que faz propaganda dele não tem a menor coragem de recomendá-lo à sua empregada. Ou do novo modelo de automóvel dirigido por uma atriz e cuja marca não é a que ela usa na vida particular.

É a alma do negócio, a alma da propaganda. Enquanto tem muito ingênuo achando que a cafonice musical brasileira conquistou o primeiro escalão de atores de TV (menos, menos), as celebridades pegam seu cachê silenciosamente, cumprindo seu papel de tentar usar sua imagem para estimular a popularização dos ritmos popularescos. E elas vão para casa ouvir Djavan e Milton Nascimento nos seus toca-CDs.

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