terça-feira, 2 de março de 2010

MAMONAS ASSASSINAS ABRIRAM A TRILHA DO BREGA ATUAL


Qual o grupo que fez tirar a máscara "roqueira" da Rádio Cidade e da 89 FM que mal conseguiam disfarçar o perfil engraçadinho tipo "Jovem Pan 2" com um mau humor forçadamente "roqueiro"?

Qual o grupo que fez a geração Xou da Xuxa vestir a camisa da cultura trash, prevendo o astral besteirol das Festas Ploc?

Qual o grupo que conseguiu unir sambregas, breganejos e roqueiros-de-butique (que então torciam o nariz para o brega e seus derivados) e fazer o mais ranzinza fã de grunge passar a gostar até do sambrega mais bobo, ou do breganejo mais choroso?

Qual o grupo que conseguiu fundir o humor do programa A Praça É Nossa com o mau humor de Beavis And Butthead?

Pois tudo isso foi graças ao sucesso meteórico do grupo paulista Mamonas Assassinas, literalmente falecido em um desastre aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo, há exatos 14 anos. Teve o sucesso tão fugaz quanto o de Richie Valens nos EUA, mas, musicalmente, os Mamonas nunca foram marcantes.

Os Mamonas Assassinas, originários de Santos, foram mais marcantes pelo senso de humor. Surgiram como uma fraca banda clone de rock oitentista, como tantas outras que caíram no esquecimento. Nesta fase, eram homônimos a um grupo baiano que também fazia a mesma coisa, Utopia. Mas como o grupo fazia muitas piadas nos intervalos de suas apresentações ao vivo, seu empresário sugeriu para que a banda mudasse completamente sua orientação musical.

A rigor, os Mamonas nunca foram uma banda de rock. Para ser tocada numa rádio de rock autêntico, é pouco recomendável, é até aconselhável não tocar. Seu clima era mais ou menos juntar o mesmo humor besteirol do Pânico da Pan com os clichês do rock humorístico das bandas produzidas por Carlos Eduardo Miranda. A essas alturas, entrava em cena o discípulo de Miranda, o produtor Rick Bonadio, para produzir o primeiro e único álbum dos Mamonas, nome inspirado numa brincadeira que o baiano Aleksander Alves, conhecido como Dinho, fez com o principal produto de Irecê, Bahia, de onde veio o vocalista.

O som do grupo tão distanciado era do estado de espírito roqueiro que a impressão que se tinha é que os Mamonas Assassinas eram um grupo de brega-popularesco tirando sarro do rock, e não o contrário. Tanto que o grupo, com muito prazer, chamou os grupos de sambrega Art Popular e Negritude Júnior para gravar, com os falecidos, "Lá Vem o Alemão".

O sucesso do grupo foi tal que o Dinho dos Mamonas ofuscou outro Dinho, o Fernando Ouro Preto do Capital Inicial, banda que nessa época estava extinta depois de tentar caminho com outro vocalista.

O acidente aéreo ocorreu durante o auge da sua popularidade, depois de uma apresentação em Brasília, num voo em direção a Guarulhos. A tragédia gerou comoção nacional, convertendo em profunda tristeza o então recente alto astral que o público sentia pelo grupo. O baiano Dinho faleceu três dias antes de completar 25 anos.

Com a comoção pela tragédia, praticamente o legado dos Mamonas Assassinas se fragmentou. Neste sentido, Tiririca, É O Tchan, Charlie Brown Jr., Rouge, Calcinha Preta, Bruno & Marrone e Claudinho & Buchecha são irmãos, todos herdeiros de algum aspecto dos Mamonas Assassinas. Só no ramo "roqueiro", vieram grupos que, surgidos antes ou depois, acabaram sendo de uma forma ou de outra seguidores dos Mamonas, alguns não assumidos: Baba Cósmica, Virgulóides, Fincabaute, Ostheobaldo, Sex Noise, entre outros. Sem falar que o falecido grupo anteviu, na roupagem "roqueira", a sonoridade dos emos, também produzidos em maioria por Rick Bonadio.

O grupo abriu a trilha do brega-popularesco, que explodiu como um vírus no gosto juvenil, o que também significou uma espécie de abertura da Caixa de Pandora. Com isso, a juventude que outrora procurava entender a complexidade sensata do Rock Brasil dos anos 80, nos anos 90 mergulhou de corpo e alma na cafonice mais explícita, havendo até homens universitários que com 25 anos defendiam o Menudo, grupo vocal que no auge de seu sucesso era abandonado, mesmo por suas fãs mais entusiasmadas, depois que elas completavam 15 anos de idade.

Com o impacto do sucesso dos Mamonas Assassinas, o brega-popularesco entrou, pela porta da frente, nos condomínios de luxo e, pasmem, até nas universidades (que ainda hoje ainda guardam o ranço problemático dos tempos da ditadura, agravados pelas universidades particulares cujo surgimento certamente deixou felizes os remanescentes dos antigos técnicos do acordo MEC-USAID).

O sucesso dos Mamonas fez a juventude brasileira, sem qualquer referência ou valor edificante na vida, se distrair com todas as tendências popularescas, o que significa que a libertinagem ao mesmo tempo jocosa, esnobe e arrogante da juventude - que destoava do humor tolo, mas inocente e humilde, do falecido quinteto - , tornou-se uma obsessão, a ponto de criar defensores reacionários para tudo quanto é breguice, do mais grotesco "funk" de MC Créu e derivados, até a pieguice politicamente correta dos "sertanejos universitários".

Os Mamonas Assassinas, como fenômeno, desviaram a moçada de 1995-1996 do idealismo dos caras-pintadas, jogando a criançada de então para as boates, micaretas, "bailes funk", vaquejadas, e o que vier em nome da curtição obsessiva e compulsiva. E pensar que, se depender da intenção original dos próprios Mamonas Assassinas, nada disso precisava ter acontecido.

Porque o que eles faziam era tão somente uma grande brincadeira. Nada relevante musicalmente, nem como atitude, mas apenas um humorismo musicado. Só que, depois da morte dos cinco rapazes, essa brincadeira acabou sendo levada a sério demais.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Realmente, os Mamonas eram uma boa banda humorística, e eram também excelentes músicos, mas jamais músicos de rock. Nem mesmo a sua música mais pesada Débil Metal pode ser tocada nas poucas rádios rock que restam no Brasil.

Se for para curtir uma banda de rock autêntica e também humorística, sou muito mais a Massacration. Os caras entendem de rock, ainda que eles já tenham gravado com Sérgio Mallandro, Falcão (o cearense) e sampleado Costinha.