segunda-feira, 15 de março de 2010

"LIBERDADE DE EXPRESSÃO" DAS ELITES ENCONTRA TAMBÉM SIMILAR NA CULTURA


HERÓDOTO BARBEIRO - INTEGRANTE DA MÍDIA GOLPISTA, PORTANTO DEFENSOR DA IDEIA ELITISTA DE "LIBERDADE DE EXPRESSÃO".

O que é "liberdade de expressão" para as elites da grande mídia? É a liberdade deles fazerem de acordo com seus interesses, que garantam a manutenção ou o crescimento de seus privilégios, a supremacia desses grupos e indivíduos sobre uma sociedade desprovida dos mesmos benefícios que eles recebem. É a liberdade deles veicularem valores que garantam o poderio deles, sem o escrúpulo de promover a degradação sócio-cultural através da confusão e da libertinagem de valores.

Hoje torna-se mais sutil o discurso dominante da mídia. Há a grande mídia que se reúne nos eventos do Instituto Millenium e declara abertamente seu poderio e o modelo de sociedade que eles querem que seja seguido. Mas há a grande mídia que foge dos eventos do Instituto Millenium que trata a sociedade com muito carinho, até que os movimentos sociais se tornam mais arrojados e essa mídia então tem que adotar o mesmo reacionarismo da outra. E há também pseudo-esquerdistas que apunhalam a sociedade pelas costas, depois de transformar a esquerda propriamente dita num mercado livre da corrupção.

Combatendo a democracia participativa, que se preocupa com a mobilização do povo e o fim de suas vicissitudes, a grande mídia distorce o sentido de "liberdade" e "democracia". Associa a ideia de "democracia" ao livre mercado, ou seja, à liberdade de grupos econômicos poderosos em expandir seus lucros e seu poder. E isso inclui todo um trabalho ideológico, porque não basta apenas promover a fome, o conformismo social e as desigualdades e injustiças comodamente aceitas pelo resignado ceticismo imposto ao povo.

Por isso mesmo, a cultura é o principal meio de manipulação dos detentores do poder econômico e político para controlar as massas.

No nazismo e no fascismo, foi feito todo um aparato "cultural" e "científico" para dominar e controlar o povo. Nos EUA do começo da Guerra Fria, documentários e até canções eram feitos para manipular a opinião pública em prol dos donos de poder. Coisa que também as ditaduras de esquerda, no Leste Europeu, faziam, à sua maneira.

Então, por que a grande mídia, sobretudo a ligada ao Instituto Millenium, não usaria a cultura e a intelectualidade para manipular as massas? Será que só se freiam movimentos sociais através da pura e simples condenação verbal dos articulistas de Veja, Folha de São Paulo e Rede Globo/O Globo?

Evidentemente que não. Não será o mau humor de Diogo Mainardi, André Petry, Arnaldo Jabor, Otávio Frias Filho, Eurípedes Alcântara, Alexandre Garcia, Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg, William Waack e outros que irá barrar os movimentos sociais em marcha.

O que barra são os ídolos da música breganeja cujos palcos são uma verdadeira barricada contra as passeatas dos trabalhadores rurais. Também a axé-music, o forró-brega, o sambrega, o porno-pagode, tudo é feito para estimular artificialmente a histeria coletiva, em prol de uma música "popular" de caráter duvidoso, claramente medíocre, afinal, diz a intelectualidade que a defende, "é aquilo que o povo sabe fazer".

Mesmo o "funk carioca" (FAVELA BASS) veste a fantasia de "ativismo social" para evitar que o verdadeiro ativismo social aconteça. Passeatas e barricadas da população das favelas protestando contra a miséria, a violência e outras mazelas, não pode, a mídia considera um crime tais movimentos sociais. Mas rebolar até cair no chão e defender essa causa nas assembléias legislativas, em reuniões tendenciosamente organizadas, isso pode.

A "liberdade" da "cultura popular" é estimulada pela mídia como um complemento para seu controle social. Os "cornos" sentimentais dos breganejos, a "camaradagem" viscosa dos sambregas, a "alegria absoluta" da axé-music, o "combativismo comportamental" do "funk", a "descontração sensual" do forró-brega, o "saudosismo melancólico" do brega "de raiz" (tipo Waldick Soriano), tudo isso é feito para promover a mediocridade musical como a "verdadeira cultura popular".

Encheu plateias em 15 anos seguidos, ganhou imagem de "respeitável". Mas tudo isso representa o sucesso que os "barões" da grande mídia conseguiram realizar, diante da indiferença que os "líderes de opinião", que outrora questionavam (palidamente) o poder da grande mídia, sentiam com as armadilhas lúdicas da mesma, preferindo elogiar o queijo que está na ratoeira.

A "liberdade cultural", segundo os donos da mídia, é a "liberdade" de produzir aleatoriamente produtos culturais sem pé nem cabeça, sob o pretexto da "universalidade", da "cultura sem fronteiras", da "ruptura de preconceitos", da "modernidade" e da "liberdade criativa". É a "liberdade de expressão" pensada pelos senhores da grande mídia aplicada à música popular.

Só que a verdadeira liberdade artística não vai contra a identidade cultural, que é muito mais do que fazer música em português e simular uma regionalidade caricata e esquizofrênica. É mais do que, por exemplo, fazer disco music com sanfona ou tocar soul music no cavaquinho e cantar nos respectivos sotaques regionais.

A verdadeira arte tem responsabilidade cultural. Lida com o legado de gerações. Não pode ser substituída por uma mediocridade artística tapeada pelo cantor sorridente estendendo a mão para a plateia, ou qualquer outra apelação para fazer sucesso.

A verdadeira arte é livre, mas é responsável. Não tem regras nem normas, mas nem por isso pode sucumbir ao vale-tudo temático, rítmico, melódico ou comportamental. Até porque, no meio do caminho, quem acaba seguindo normas ou regras da "boa cultura" são os ídolos medíocres desesperados em se manter na mídia.

A mídia não quer que o povo tenha uma cultura própria, de qualidade, que transmita valores sólidos e edificantes, sem qualquer hipocrisia moralista ou imoralista. Por isso insiste numa "verdadeira cultura popular" de músicos medíocres lotando plateias o tempo inteiro, gravando poucos sucessos de lavra própria e musicalmente ruins, e tapeando o esgotamento criativo com muitos covers e discos ao vivo.

Assim, a grande mídia investe numa "cultura popular" antes que o próprio povo a faça, estabelecendo assim o controle social por meio da cultura cuja problemática certos críticos da grande mídia ainda não conseguem enxergar.

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