sexta-feira, 5 de março de 2010

JOHNNY ALF E A BOSSA NOVA TÊM LUGAR NA POSTERIDADE



Johnny Alf faleceu ontem, injustiçado. Não tem, entre as jovens gerações, o reconhecimento de um grande mestre. É muito discutível dizer quem mesmo foi o pai da Bossa Nova, mas é indiscutível que seus mestres foram inúmeros. E Johnny está, sem dúvida, nesta lista.

Mas, apesar do desprezo de que os grandes artistas sofrem no nosso país, a posteridade garantiu um lugar nobre para eles. Por outro lado, os tão badalados músicos de sambrega, que com seus sorrisos arreganhados tentam "defender" o samba apenas macaqueando o som black norte-americano - e, às vezes, nem tão black assim, pois até A-ha e Gino Vanelli são diluídos na breguice sonora dos sambregas - , mas eles, de tão medíocres, apesar de insistirem com toda a badalação entusiasmada da mídia, desaparecerão com o tempo.

Mas Johnny Alf, que participou da verdadeira mistura do samba com a música estrangeira, numa verdadeira aula prática da "antropofagia" pensada por Oswald de Andrade (ainda vivo quando Johnny gravava seus primeiros discos), de fato deu uma contribuição valiosa na música brasileira, pois, mesmo livre para gostar de música estrangeira, lembrou-se da soberania nacional quando assimilou as influências jazzísticas que se tornaram famoso.

Apesar de ser Alfredo "José", seu apelido "Johnny Alf" ("Johnny" equivale a Joãozinho) talvez seja porque, no começo da carreira, Alf tinha o mesmo jeitão robusto e jovial de um cantor de jazz muito popular então, Johnnie Ray. Johnny foi até admirado por Tom Jobim, que o apelidava de Genialf.

A Bossa Nova, apesar de ter sido massacrada por José Ramos Tinhorão - um historiador que tem até excelentes ideias, mas discordo dele na sua abordagem sobre a Bossa Nova e o Rock Brasil - , tornou-se um dos grandes movimentos de renovação musical. A música falava por si mesma, mas seus intérpretes eram marcados pela personalidade forte, que não deve ser confundida com fetiche (caso dos ídolos popularescos). Por isso a Bossa Nova conseguiu atravessar o mundo, e não foi porque era influenciada pelo jazz dos EUA.

Pelo contrário, se a BN fosse um subproduto do jazz ianque, não teria saído do território brasileiro, se limitando apenas a um envergonhado modismo isolado entre os brasileiros ou, a exemplo do "funk" e da lambada, a um engodo cuja difusão em outros países é duvidosa e patética, animando apenas alguns turistas brasileiros mais patéticos e causando chacota na maioria dos estrangeiros.

Felizmente a Bossa impôs respeito, e hoje mesmo os artistas já mortos - e Johnny Alf se juntou a eles - são respeitados e admirados pelos fãs do mundo inteiro, não por saudosismo, mas por uma aura que permanece atual e presente. É até maldade dizer que a Bossa Nova virou cult, porque até nisso o estilo se superou. E sua força artística inegável fará o estilo permanecer sempre vivo, como um verdadeiro patrimônio cultural.

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